Entrevista com os filósofos Anderson Bezerra e Joaquim Pereira sobre “Racismo”

18/06/2020

Por: Andrezza Tavares
Foto: Anderson Bezerra & Joaquim Artur Pereira

 

 

     Nas últimas semanas, o mundo tem presenciado uma explosão de protestos antirracistas, motivados por atos de indivíduos que integram as forças de segurança do Estado, suscitando uma série de discussões, lamentavelmente, não abandonadas em países colonizados, como o Brasil. É lamentável precisar discutir sobre tais temas.

   A persistência do racismo, ainda não superado na estrutura das sociedades, e o papel da educação emancipatória é a temática que os filósofos Anderson Bezerra (filósofo e pesquisador vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFRN) e Joaquim Pereira (filósofo e pesquisador vinculado ao Programa de Pós-graduação acadêmica do IFRN (PPGEP)) dialogam com o jornal Potiguar Notícias.

1. [Redação PN] O racismo é uma ideia de indivíduos isolados ou compreende uma mentalidade social que se desdobra em práticas segregadoras e opressoras de seres humanos?

[Filósofo Anderson Bezerra] Aimé Cesáire, profícuo escritor martinicano, e um dos principais nomes das lutas antirracistas no século XX, nos aponta a razão desse problema persistir, ao dizer em seu Discurso sobre o colonialismo que o racismo não é um ato isolado, praticado por vontade própria de um indivíduo desvinculado de causas sociais. O racismo moderno é fruto de uma mentalidade social disposta a segregar humanos para hierarquizar suas diferenças. Não se trata do óbvio, de afirmar que pessoas diferem pela cor de pele, pela língua falada ou por seus costumes. Trata-se de se apropriar do óbvio para justificar uma mentalidade de que existem raças superiores e inferiores, justificando a opressão de raça, não como um sintoma de uma crise social, mas como expressão de uma estrutura corrompida desde sua gênese. O racismo como conhecemos, portanto, não é atribuído a indivíduos que o praticam, mas a sociedade formadora desses indivíduos.

2. [Redação PN] Como a sociedade racista condiciona e reproduz o ciclo vicioso da opressão?

[Filósofo Anderson Bezerra] Outro escritor martinicano, Frantz Fanon, também enfrentou essa questão como uma expressão da constituição da sociedade moderna. No seu livro Pele negra, máscaras brancas, Fanon expõe com clareza como o lugar ocupado por um indivíduo em uma sociedade condiciona o seu modo de enxergar o mundo. Sendo assim, a identidade étnica e cultural, o modo como os grupos são reconhecidos dentro um tempo histórico e em determinada sociedade, condiciona o modo como esses indivíduos se enxergam e enxergam os outros. O racismo, como aponta Fanon, é a visão daquelas que sustentaram a opressão contra Os condenados da terra. A visão que estrutura a mentalidade de nossa sociedade. É o modo de pensar que se impõe aos indivíduos.

3. [Redação PN] Qual a relação entre a ideia de raça e a ideia de dominação?

[Filósofo Joaquim Artur Pereira] Como estamos sugerindo nesta entrevista, a raça não é um fato que emerge da natureza, mas uma nomenclatura imposta por razões de dominação. O racismo moderno foi fundado por interesses de dominação que necessitavam de uma explicação racional. Essa percepção nos ajuda a compreender como a própria ideia de raça não é natural. Grupos étnicos foram racializados, para que assim se justificasse uma hierarquia das raças, submetendo negros e índios a brancos, mas “tudo que é sólido se desmancha no ar”, já dizia um velho filósofo alemão.  

4. [Redação PN] A escola pode ajudar a superar o problema social do racismo?

[Filósofo Joaquim Artur Pereira] A solução para o racismo perpassa, entre uma série de outros fatores, por uma mudança de mentalidade na sociedade. O avanço das ciências, que até hoje não foi suficiente para superar essa opressão sistemática, é um dos elementos essenciais para forjar uma nova mentalidade para a sociedade, reconhecendo a igualdade entre os indivíduos e a diversidade social. Nesse contexto, a escola assume um papel de relevância, por um espaço de socialização. Espaço que, ao invés de reproduzir preconceitos, pode incentivar a superação desses males.

5. [Redação PN] A concepção da escola emancipadora e libertadora é o lugar seguro para a formação de seres humanos antirracistas?

 [Filósofo Joaquim Artur Pereira] Nos EUA de George Floyd, em uma simbólica morte que lhe suprimiu a possibilidade de respirar e, por consequência, falar, os movimentos negros são calados, como se não tivessem nem, ao menos, o direito de contestar a violência sofrida. Mas nesse mesmo país, uma voz negra nos leva a refletir: Ângela Davis. A pensadora estadunidense, com histórico de luta racista, popularizou a seguinte frase: “Em uma sociedade racista, não basta não ser racista, precisamos ser antirracista”. A educação emancipatória, que nos conduz a liberdade, é forte instrumento antirracista, no sentido de nos conduzir a uma experiência social mais livre e inclusiva, fazendo prevalecer, mesmo na diferença, o respeito.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br. 

Fonte: Anderson Bezerra & Joaquim Artur Pereira