Pandemia no meio de meu sonho de ingressar no Ensino Superior - E agora?

16/06/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (Universidade do Minho)
Foto: Ana Cláudia R. de Castro

   

 

    Entrevista concedida por Ana Cláudia de Castro, Doutoranda em Ciências da Educação, especialidade de Psicologia da Educação pelo Instituto de Educação da Universidade do Minho, em Braga/Portugal, ao portal de jornalismo Potiguar Notícias. A entrevistada é psicóloga e cursa doutoramento no Instituto de Educação da Universidade do Minho, sendo pesquisadora do Centro de Investigação em Educação (CIEd). Na entrevista aborda o sonho de muitos jovens de ingressar no Ensino Superior que pode ser afetado pela pandemia.

1.  Sonhar é uma das características da subjetividade humana. Para a psicóloga Ana Cláudia Castro quais são as motivações centrais construídas pelos jovens quando a dinâmica escolar vai se aproximando da conclusão do ensino médio e do ingresso no ensino superior?

    O sonho de ingressar no Ensino Superior faz parte da vida de muitos jovens brasileiros. Entre as muitas motivações para essa busca, está a possibilidade de melhorias na qualidade de vida, vencer a pobreza e a miséria.

2. Como avaliar, do ponto de vista da Psicologia, a transição do ensino médio para o ensino superior na vida dos jovens?

    A transição para o ensino superior, em situações normais é pautada por uma série de desafios multifacetados para os estudantes, entre eles, às exigências de habilidades e competências para responderem positivamente às novas demandas de ensino e de aprendizagem tanto no processo seletivo quanto na adaptação por ocasião do ingresso na universidade. É um momento de vida com alto nível de stress para os estudantes uma vez que implica numa necessidade de ajustes social e emocional ao novo contexto de exigências educacionais.

3. Para além do fator psicológico, que outros aspectos também promovem fortes rebatimentos na vida de jovens que se encontram na condição escolar da transição para o Ensino Superior?

    Aliados a todos esses fatores que constituem essa transição para o Ensino Superior podemos considerar, ainda, as condições de oportunidades e acesso, por exemplo as políticas de acesso para os jovens de camada popular. Nos últimos anos muitas políticas públicas têm sido dirigidas a possibilitar o ingresso e a permanência de jovens de oriundo de diversos setores sociais e territoriais, contudo, os esforços de combater a desigualdade social e minimizar as discrepâncias de oportunidades não tem sido suficiente, uma vez as chances na concorrência para uma vaga na universidade apresentam outros vieses de exclusão.

4. Como o período da pandemia no Brasil tem impactado a vida de jovens que se encontram na eminência do exame nacional do ensino médio (ENEM)?

    Em tempos de Pandemia, o Ministério da Educação (MEC) tem buscado regulamentar, implementar e inovar as metodologias de aprendizado virtual, não considerando, porém, que nem todas as famílias possuem acesso à internet. Situação agravada devido ao baixo desempenho da economia nos últimos anos marcada pelo aumento da informalidade, aumento do número de desempregados, agravamento da desigualdade social e desestruturação de alguns serviços públicos, o fechamento dos cursinhos populares.

5. Em que o contexto da pandemia implica na saúde mental, motivação e expectativas positivas quanto ao futuro da juventude em processo de conclusão do ensino médio?

  O primeiro grande impacto emocional é da impotência diante da realidade de isolamento social, necessariamente imposto, que, além de manter o jovem em casa, retira deste as estratégias alternativas de contato com os conteúdos programáticos, uma vez que as bibliotecas públicas estão fechadas, assim como os cyber que acabam sendo um recurso de acesso à internet. Os adoecimentos e falecimentos de familiares, conhecidos e amigos, também são um fator contributivo.  

   Outra situação a considerar é a ausência de rotinas nos comportamentos e nas estratégias de estudo adquiridos ao longo dos anos letivos e em ambientes pedagógicos. É comprovado que os estudantes que fazem uso das estratégias de aprendizagem são mais autônomos e comprometidos, mas distanciados de seu ambiente de ensino e sem acesso a outros recursos pedagógicos, o estudante, mesmo que apresente níveis de resiliência, motivação, estratégia de estudos e interesses, é esperado que elabore crenças negativas quanto as suas chances no processo seletivo. Ou seja, que sejam nulas ou menores.  

   Esta condição, em muitos estudantes, é sem dúvida, eliciadora de ansiedades e sentimentos de desmotivação. É de se esperar por momentos de fragilidade e temor quanto as suas chances do iminente processo seletivo ao Ensino Superior.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Ana Cláudia R. de Castro