O momento mais sombrio da história do IFRN

06/05/2020

Por: Marcel Lúcio Matias Ribeiro
 
Na manhã do dia 20 de abril, em meio à pandemia do coronavírus, a comunidade acadêmica do IFRN foi surpreendida por uma notícia terrível: em vez da posse do reitor eleito em consulta realizada em dezembro de 2019, ocorreu a nomeação pelo ministro da educação de um interventor supostamente pró-tempore para a instituição. A comunidade buscou explicações para esse ato autoritário do ministério, mas encontrou dissimulações para justificar o ilegítimo. Desde então, há um movimento permanente de servidores e estudantes exigindo a posse do reitor eleito. 
 
Fiz esse preâmbulo para contextualizar principalmente para pessoas externas à escola o que vivemos desde o dia 20 de abril: o momento mais sombrio no IFRN desde a criação dos institutos federais em 2008. Apesar de todos os problemas  com os quais nos deparamos no dia a dia da instituição, nunca aconteceu uma quebra arbitrária da democracia como ocorreu no dia 20 de abril.
 
Ontem, dia 05 de maio, pude acompanhar, como ouvinte, a primeira reunião do Colégio de Dirigentes do IFRN (CODIR) presidida pelo interventor e seu comparsa. A referida reunião foi reivindicada pelos diretores gerais dos campi considerando a necessidade de encaminhamento de emendas parlamentares e de processo de aquisição de cestas básicas aos estudantes, além da tentativa de cobrança de explicação por parte dos diretores ao interventor. O portal institucional do IFRN publicou ontem mesmo notícia com informações acerca da reunião. No texto que escrevo agora vou me limitar a comentar impressões que tive em relação à reunião do CODIR.
 
Primeira impressão: autoritarismo e desconhecimento da instituição
 
O interventor e seu comparsa ao longo de toda a reunião fizeram questão de mostrar aos diretores quem manda na instituição por meio de intimidação e arroubos de poder. As intimidações ocorreram quando diziam a todo momento que iriam investigar servidores e situações da escola, quando solicitaram o nome de todos os participantes da reunião, quando acusaram um colega servidor de estar assistindo a reunião sem ter solicitado, quando afirmaram que os diretores também estavam nomeados de modo pró-tempore e em várias nuances e inflexões do discurso de ambos. Sim, claro, também houve de modo desproporcional, referências à autoridade máxima do país: ele é quem manda! O presidente, acima do ministério, da justiça e da democracia no IFRN, tem o poder de nomeá-los e de fazer o que bem entender. O interventor e seu comparsa apenas obedecem e nós, se tivermos juízo, devemos fazer o mesmo. Foi inevitável para mim a comparação a posturas vistas no Nazismo, Fascismo, Estado Novo, Ditadura Militar, enfim em regimes totalitários. Isso para eles, da forma invertida como entendem as relações sociais, pode ser até um elogio.
 
Em vários momentos demonstraram desconhecimento sobre os setores da instituição, não sabiam o nome do setor, não sabiam qual atividade era desempenhada no setor, não sabiam nome de pró-reitores anteriores, não sabiam o nome dos diretores atuais. Pareciam alienígenas, apesar de terem pelo menos dez anos de vivência na instituição. Mas, o pior: não tinham lido os processos que seriam debatidos na reunião marcada ainda na semana passada. Isso é o mínimo: quando vamos participar de uma reunião devemos nos preparar, ler os documentos encaminhados para poder debatê-los na reunião! Bem, ao que parece, os alienígenas não sabiam disso e, por isso, não fizeram o dever de casa, não leram os documentos que seriam discutidos na reunião. Houve um momento bem comovente, beirando o patético, quando o comparsa pediu vistas à primeira pauta, alegando desconhecimento acerca do que estava sendo debatido e ele, como autoridade máxima (abaixo do presidente e do interventor) para decidir algo, tinha de saber o que estava decidindo, não podia decidir sem ter lido os documentos. Fiquei com a indagação de por que ele como autoridade máxima (abaixo do presidente e do interventor), mesmo a reunião tendo sido convocada com a antecedência necessária, não leu os documentos para discuti-lo com os diretores?
 
Segunda impressão: populismo e tentativa de aproximação sentimentalóide com os diretores
 
Em meio à crise econômica tão professada pelo presidente em suas lives e redes sociais, existe a solução para todos os problemas. E essa solução está aqui no IFRN, mas especificamente com a gestão ilegítima. Computador e internet para todos os estudantes! Não se sabe como, mas há uma audiência agendada do interventor com o ministro da educação para a viabilização de recursos destinados a esse fim. Em mais uma demonstração de desconhecimento, o interventor solicitou que fosse feito diagnóstico dos alunos que não têm computador nem internet (esse diagnóstico já existe na instituição) para que, com isso, essa informação fosse levada ao ministro e assim aconteceria o milagre da acessibilidade digital para todos. Eles falaram que estão totalmente preocupados com os estudantes, tão preocupados que demonstram o interesse pelo retorno às aulas mesmo em meio à pandemia. A máquina não pode parar. Uma hora vamos ter de voltar.
 
Outro momento comovente e patético foi quando o interventor desceu de seu pedestal artificial e clamou por solidariedade aos diretores. Ele, a autoridade máxima abaixo do presidente, e as pessoas nomeadas na gestão ilegítima estão sendo vítimas de ataques, ameaças, estão sendo ridicularizados em praça pública e isso não deveria acontecer, eles querem respeito, eles querem trabalhar, eles apenas obedecem ordens do presidente e estão aqui para executá-las. Não compreendem o motivo de hostilidades e protestos contra a intervenção. A voz até ficou um pouco embargada, eles só querem o melhor para a instituição, como já pudemos observar por meio de ações como a solicitação de veículos e motoristas exclusivos, além da solicitação de auxílio-moradia.    
 
Há outras impressões, mas vou cessar por aqui. Essas linhas, no discurso do medo, já devem dar um bom processo. Quero apenas reforçar a convocação a servidores, estudantes, pais e sociedade do Rio Grande Norte para que lutemos contra a intervenção antidemocrática no IFRN. Não podemos silenciar diante de tamanha arbitrariedade! Devemos exigir a posse do reitor eleito legitimamente pela comunidade escolar! O que está em jogo são palavras como ética, dignidade e democracia. Lutemos juntos para superar o momento mais sombrio da história do IFRN.
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Marcel Lúcio Matias Ribeiro
Professor de Literatura e Língua Portuguesa
IFRN – Campus Natal Cidade Alta (Unidade Rio Branco e Unidade Rocas)