Renisse Ordine

02/12/2021

 

A literatura e a conscientização ecológica 

Quando o discurso não se torna eficiente em conscientizar, a literatura é um recurso eficaz para transformar a ação humana. Assim, a 1ª Feira Literária de Itanhandu/ MG (FLI), uniu os versos às aguas de um rio que mingua no descaso da preservação. 

No último fim de semana tive o prazer de participar da Feira Literária de Itanhandu (FLI), no sul de Minas Gerais. Um município sereno, nacionalmente reconhecido pela sua beleza natureza natural, e principalmente pela sua gente. E nela me incluo. 

Em Itanhandu, nasci, cresci, estudei e já na fase adulta, tive que dar um breve adeus. Descobri e fortaleci a minha raiz literária em outro Estado. Mas a semente foi plantada por lá, pelas mãos da escritora falecida, Dilza Pinho Nilo, escritora que em outro momento irei escrever sobre a sua pessoa e poesia.

Mas, entrando no assunto intitulado, diferentemente de todas as feiras literárias das quais participei, a FLI me emocionou por abrir mais uma vez os meus olhos sobre a nobre ação literária e seu poder de transformação além do social.  Pois ela consagrou a natureza como atração principal, trazendo o tema: Rio Verde. 

O famoso Rio Verde traz as águas de minha infância, nasce na Serra da Mantiqueira e seus afluentes atravessam outros 31 municípios das Minas Gerais. Antes, um rio robusto; hoje, quase sem vida, segue o seu curso minguado. Já foi cenário de grandes festividades dos moradores e turistas, refrescando o carnaval de muitos foliões, que mantinham viva a tradicional descida de boia. E outros que se aventuravam no Cipó e os que deixavam a alma ser lavada na forte cachoeira do Vó Delfim. Um rio de águas saudosas!

Trazer para uma feira literária um tema ecológico é uma forma de ressaltar que a literatura e a poesia estão presentes em todos os lugares do nosso existir e que na arte está a nossa sobrevivência. Se elas são recursos para a conscientização social e a quebra de preconceito também se mostra altamente capaz de voltar os nossos olhares às urgências ambientais. 

A natureza pede socorro, vemos essa temática ser anunciada com preocupação nos noticiários, mas muitas das vezes, o discurso se torna algo intangível, dependendo do público receptor e de seu momento de fala.  E nada mais pontual e mais simples do que o verso para arrematar um pedido, sem delongas. 

Os poetas aqui estão para quebrar a mente capitalista e conscientizar sobre as nossas necessidades como seres humanos.

“Chora, meu Rio Verde

Ora e peça socorro

Ecoa o teu canto triste 

Além do cume do morro

São meus os teus sofrimentos

...

chora, meu Rio Verde 

parece não haver mais jeito

tu, que já fostes extremo

hoje padece estreito. 

(Adriano Santos, autor do livro, Extremo Estreito, livro de poesias dedicado ao Rio Verde). 

Quando me coloco nesse texto para falar da FLI, é para ressaltar que a arte literária cada vez mais me posiciona no espaço onde vivo. Tudo pra mim passou a fazer muito mais sentido depois que me entreguei o meu viver à literatura e passei a sentir os versos.

 Com a FLI, tenho certeza de que as crianças, alunos de diversas instituições de ensino, que ouvi declamando as suas poesias juvenis e delineando os seus desenhos saíram da Fundação Itanhanduense, como novos cursos d´água, que irão desaguar em um amanhã renovado de novas mentes e atitudes.

Para finalizar, como escritora e itanhanduense, quero deixar os meus agradecimentos pela magnitude da atual administração de Itanhandu, na pessoa de Paulo Henrique Pinto Monteiro e sua equipe, em pôr em prática uma feira literária direcionada aos valores artísticos do município, em que se discutisse e produzisse cultura na área ambiental. No sentido de que pessoas conscientizadas e informadas são capazes de transformar o mundo! 

Estendo os agradecimentos aos escritores. Organizadores, amigos participantes, que se uniram para que esse momento se tornasse tão especial. Como também ao Secretário da Cultura, Luis Gustavo Franco da Rosa (Tatau), a Assessora da Cultura, Elenice Ramos, ao Superintendente da Fundação, Márcio Machado e a presidente da Fundação Itanhanduense, Edna Scarpa e suas respectivas equipes, que não mediram esforços para enriquecer e abrilhantar a FLI.