Wellington Duarte

16/10/2021
 
Serão os professores “inimigos públicos”?
 
Ontem (14) foi o Dia do Professor e da Professora, essa figura enaltecida e odiada, amada e desprezada, lembrada e esquecida. Um dia, aliás cuja origem, aqui no BraZil, não veio de salões aristocráticos, nem de uma demanda específica de intelectuais reconhecidos pelas elites. Veio da ação de uma mulher, negra, e que, nascida em Santa Catarina, construiu sua vida na educação e na política, tornando-se, em 1934, a primeira deputada estadual negra desse país. E foi dela, dessa negra, cuja mãe era ex-escrava e lavadeira, que veio a Lei estadual nº 145, de 12 de outubro de 1948, que instituiu o dia do professor e o feriado escolar no estado de Santa Catarina e a data refere-se à promulgação da primeira grande lei educacional do Brasil, sancionada por Dom Pedro I, em 15 de outubro de 1827. Mais tarde, em outubro de 1963, a data seria oficializada no país inteiro pelo presidente da República João Goulart, deposto no seguinte.
 
O BraZil tem cerca de 2,6 milhões de professores (dados relativos a 2020), sendo que 2,2 milhões estão atuando na Educação Básica, representando 84,6% do total dos professores dessa rede e 77,3% deles são servidores públicos. E o salário médio desses professore é de R$ 2.886,24, no início da carreira, ou seja, pouco mais de 2 salários-mínimos. Essa era a realidade desses professores ANTES da pandemia.
 
De acordo com pesquisa publicada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) no ano passado, depois da pandemia 82,0% dos 15,6 mil docentes perguntados, afirmou que sua carga horária aumentou; 69% disseram ter medo e insegurança por não saber como será o retorno às atividades; e 50% confessaram ter medo do futuro. São dados que não podem e nem devem ser desprezados e mostra a duríssima realidade em vive esse cidadão que, sem nenhum medo de errar, é, no dia a dia, um cidadão de segunda classe. O quadro mais dramático é quando se fala violência. Em São Paulo 53% dos professores disseram ter sido vítima de algum tipo de violência.
 
Mas, é bom que se diga, o professor, no BraZil, é um trabalhador que está muito longe de receber o tratamento minimamente adequado, pois devido ao tamanho do seu contingente, necessário pois trata-se de uma função que exige um número grande de pessoas para formar as gerações, é encarado pelos gestores públicos como gastos.
Os professores da Educação Básica são os que enfrentam desafios gigantescos. Se está no setor público está sujeito às intempéries das políticas públicas nacionais, visto que boa parte da sua esquálida remuneração vem do Fundo da Educação Básica (FUNDEB) que desde 2016 vive no fio da navalha; hoje, depois da ascensão do fascismo bolsonarista, enfrenta perseguição ideológica e vem sofrendo ameaças constantes dessa turba ignorante.
 
Se está no setor privado fica exposto aos pais e mães de alunos, que o encaram com seu empregado e, com a conivência das direções, são pressionados desavergonhadamente, especialmente depois que emergiu, das sombras, a “patrulha da ignorância” que decidiu, movida por pura paranoia, somadas aos ignorantes de plantão. A vida de muitos professores do ensino privado, virou um verdadeiro inferno.
 
Obviamente que não se trata de endeusar a figura do professor e nem criar uma figura idealizada do “professor bonzinho”, nem daquele “tio” sempre pronto a acolher carinhosamente as crianças. Não, devemos olhar o professor como um trabalhador, sujeito aos movimentos do sistema, mas com uma função bem específica, que é a de formar, nesse estágio do crescimento do indivíduo, o cidadão. Qualquer deformação na formação e capacitação desse professor tornará o cidadão mais sujeito a ser “capturado” por concepções que não coadunam com os princípios da civilização.
 
Sendo trabalhador, o professor pode e deve lutar, quando necessário, para que tenha acesso aos instrumentos de trabalho, no caso material didático, que possibilitem a ele ter uma capacitação adequada; e uma estrutura funcional, o ambiente de trabalho, que lhe dê condições de aplicar, de maneira eficiente, seus conhecimentos. Esse é o “mundo ideal”.
 
No “mundo real” professores da Educação Básica não parecem ter, por parte do seus empregadores (públicos e privados) uma atenção adequada e invariavelmente esses professores, das duas esferas, tem seus trabalhos comprometidos.
 
Desrespeito, baixos salários, perseguições, violências de uma forma geral, ainda povoam o ambiente de trabalho dos professores da Educação Básica.
Parecem inimigos públicos. Mas de quem?