Eliade Pimentel

06/05/2021
 
Rotular não é sinônimo de respeitar 
 
 
Marido é uma palavrinha que eu não gosto, para nenhum tipo de relação (hétero ou homoafetiva). Já vi muitas mulheres, algumas amigas inclusive, referindo-se a uns verdadeiros trastes como se fossem um troféu. Nesses casos a que me refiro, esses homens tratados com um título tão pomposo não acrescentam em nada na relação, muitas vezes, nem a sacola ajudam a carregar. “Menina, já é tão tarde assim? tenho que ir logo para casa, porque meu marido está me esperando”. Na maioria das situações, eu só achava que era a desculpa quase perfeita para irem logo para casa e não perderem a novela. 
 
Eu gosto sim das palavras companheiro e companheira, pois ao meu ver denotam uma relação harmoniosa, calcada no amor e no respeito mútuos. Pensem comigo: se temos uma relação de cama e mesa com uma pessoa, no mínimo o que esperamos dessa pessoa é que seja companheira, presente, que nos acompanhe nos momentos bons e maus da vida. E mais ainda, gosto das palavras namorado e namorada. Acho tão carinhoso, romântico. É sinal de que o companheirismo ainda arde com a chama da paixão daqueles primeiros instantes do relacionamento. 
 
Na verdade, não gosto de rótulos. No máximo, o que me permito numa relação são esses termos citados. Pior de tudo é quando nos corrigem. Já passei por isso. Eu apresentando pessoas: esse é fulano, namorado de ciclana, e a bendita me corrigindo, frisando casa letra da palavra m-a-r-i-d-o. Eu só acho uma coisa: vergonha alheia. Como se tratava de uma amiga, se eu retomar esse assunto a própria vai dar risadas, ou quem sabe, vai me odiar para sempre se por acaso se reconhecer nessa crônica “difamatória”.  
 
Noutra situação que se passou num ambiente bem descolado, onde se espera que as pessoas sejam igualmente descoladas, uma amiga agiu desavisadamente e disse para uma moça recém-casada: “eu conheço seu namorado faz muito tempo”, e ouviu da jovem senhora a correção: “esposo”. Quase um e-s-p-o-u-s-o, bem frisante. Na verdade, o comentário era justamente para dissipar quaisquer pontinhas de ciúme que porventura aparecessem naquele bate-papo, já que minha amiga estava puxando assunto com o bendito mancebo. 
 
Sempre achei estranho o que se diz no ato do casamento: eu os declaro marido e mulher. No casamento homoafetivo, talvez seja eu os declaro casados. Nunca fui a um casamento entre pessoas do mesmo sexo, suponho que não se aplique eu os declaro marido e marido, ou eu os declaro esposa e esposa. Essa palavrinha então, para mim soa pior do que tudo. Esposa. E cônjuge? Só me faz lembrar o malfadado juizeco de Curitiba. 
 
Para mim, rever essas palavras é essencial para todos os tipos de casal. Ao juiz, ou padre, ou pastor, ou qualquer outro tipo de ministro ou ministra de casamento, a melhor opção para ser dita no ato declaratório do casamento seria “eu os declaro casados”. E pronto. Até porque formalizar a união para mim é algo desnecessário. Não digo celebrar, festejar, fazer votos e fotos, acho tudo isso muito lindo, muito válido quando o casal resolve fazer uma festa para tornar pública sua união, para compartilhar entre amigos e familiares a sua felicidade. 
 
Eu me refiro à parte oficialesca mesmo. Porém, vivemos em uma sociedade em que o vil metal tem mais poder do que o amor e a confiança, então é melhor se precaver de certas armadilhas como vemos tantas por aí. No caso das relações homoafetivas, é mais comum familiares aparecerem do nada para reclamarem heranças de parentes, os quais um dia, lá atrás, foram rechaçados pela escolha que fizeram. 
 
Portanto, meus amigos e minhas amigas, considerar que se referir ao Thales Bretas como marido do Paulo Gustavo, ou a Mônica Benício como mulher (ou esposa) de Marielle Franco, seja respeitar a escolha homoafetiva dessas pessoas é a mais pura ilusão. É sim mais uma esparrela para cairmos nas convenções da nossa sociedade patriarcal, cheia de preconceitos. Não temos que colocar panos quentes nas relações, sejam elas quais forem. A união formal é uma maneira de resguardar direitos e não tem o poder de aumentar o sentimento já existente. O amor não está num título. O amor está nas pessoas. 
 
Em tempo, todo amor nesse mundo a Paulo Gustavo. Eu o amava como a um irmão. Tive o privilégio de assisti-lo no Teatro Riachuelo, alguns anos atrás, e foi maravilhoso. Que descanse em paz. Ao companheiro e filhos, desejo todo amor desse mundo. Eles merecem viver em paz, livres de todo tipo de rótulos ou de falsas demonstração de respeito.