Wellington Duarte

24/04/2021
 
A volta triunfante da fome no reino do mandrião nazi-fascista
 
                          “Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição                                   social e suas relações recíprocas.”
                                                         (MARX, K., Manifesto do Partido Comunista).
 
 
No jornal da Rede Massa, uma concessionária pública do SBT no PR, foi ao ar uma reportagem cujo título diz tudo: “Gás caro e comida saborosa: fogão a lenha vira xodó nas casas”. Na reportagem uma mulher, chamada Fabiana, exalta as qualidades do fogão a lenha e de como a comida é maravilhosa e, ao contrário do apresentador, que se mostrou apaixonado pela “comidinha caseira”, Fabiana ressalta que a lenha entrou na casa dela porque ficou inviável recorrer ao botijão de gás.
 
Várias reportagens, nos meios de comunicação de massa, têm buscado dar um sentido à  condição indigente a que está submetido o pobre brasileiro, com a exaltação de um “empreendedorismo do desespero”, em que o cidadão recorre a ele como forma de evitar mergulhar no sinistro mundo da fome e que, aos olhos da mídia oligopólica, é uma saída bem interessante, pois o sujeito, no mínimo, liberta-se do patrão. Na realidade ao tornar-se patrão de si mesmo, demonstra o quanto pode explorar o seu lado trabalhador, até o limite de sus resistência física e mental.
 
Exalta-se como o brasileiro é “adaptável”, de como ele, como uma fénix, costuma ressurgir das cinzas todos os dias, para teimar em sobreviver, sendo que, ao final do dia, com o estômago vazio volta a ser cinza. O brasileiro, esse ser notável, tem buscado dar um jeito no mundo miserável em que foi jogado e não por uma praga divina, mas por uma deliberada política econômica, que teve a ajuda da pandemia.
 
Voltamos a ver pessoas, em cima das velhas carroças, puxadas a animais de carga, revolvendo as lixeiras dos condomínios, em busca de um resíduo sólido descartável, que lhe possa render alguns reais, ou mesmo procurando restos de comida. Os canteiros voltaram a ser preenchidos por pessoas que perderam inclusive a dignidade, ao se sujeitar, por puro instinto de sobrevivência, aos humores, nem sempre cristãos, da classe média, que volta meia dispara: “dar esmola só estimula a vagabundagem”.
 
A pandemia está mostrando, mais uma vez, o nosso pior lado, o da aceitação, da resignação. Aceitamos o que nos ofereceram sem muita reflexão. Reformas na previdência, na área trabalhista, a criação do “torniquete do investimento”, que chamamos de “Teto dos Gastos”, foram oferecidas em troca, vejam só, de um futuro radiante, com menos Estado pentelhando sua vida e com a seu labor meritocrático sendo o principal impulsionador do “sucesso”. Em pouco tempo haveria mais de dez milhões de novos empregos, impulsionados por esse “mundo novo”. O que se viu, até março de 2020, foi o aumento da massa de pessoas em estado de risco social (desempregado, subempregado e desalentado) e depois dessa data, a miséria e a fome.
 
Em apenas dois anos essas promessas se desfizeram no ar e com a chegada da pandemia o mundo que era pretendido para o “futuro radiante”, sem previdência pública, sem empresas públicas, sem direitos trabalhistas e com orçamentos atrelados ao mantra do “corte de gastos permanente, transformou-se num mundo, sombrio em que a natureza humana fez emergir o “homini áspero”, violento e anacrônico, mas que encontrou lastro no discurso político do neonazismo bolsonarista e “contaminou” parte da sociedade.
Ver a pobreza é chocante, para uma geração que viu as camadas mais baixas da sociedade, em termos de renda, terem ascensão social e que estava, quase a força, se acostumando com a ideia de que essas pessoas podem e devem ter mais de três refeições, bens de consumo e sonharem com tempos melhores, ver essa ascensão se tornar pó, e em apenas três anos, deveria entristecer toda a sociedade. Batemos às portas da fome. Resquícios de tempos obscuros, o assistencialismo, retornou com toda a força. 
 
Nos espaços econômicos frágeis, como é o caso do RN, o fantasma da pobreza, que sempre esteve na soleira da porta, entrou e ocupou a sala, o quarto e a cozinha; a fome, um dos quatro cavaleiros do apocalipse, cavalga pelas nossas periferias e pelas zonas rurais, tornando a sensação de fome, mais presente no dia a dia. E só sabe o que é FOME, que já a sentiu plenamente, e não apenas por um hiato maior entre os horários da alimentação.
 
A destruição de um país não permitirá o ressurgimento, pelo menos no curto prazo, o ressurgimento do sonho de ter esperança. De olhar para frente e desejar melhorar. Agora o maior desejo é sobreviver.