Eliade Pimentel

12/11/2020
 
Desacelerar para respirar e viver em paz
 
 
Fico muito feliz por ter pessoas a minha volta que também estão enxergando a necessidade de um estilo de vida mais tranquilo, com jornada de trabalho reduzida, mais lazer, mais qualidade de vida e menos consumo. Há alguns meses, levei meu irmão ao meu oftalmologista para ter um segundo diagnóstico de um problema de retina. Chegando lá, expliquei a situação ao atendente e ele me disse que o médico não estava mais fazendo o tipo de exame requisitado, nem cirurgias, e estava realizando apenas atendimento clínico. 
 
Perguntei o motivo e ele falou que o profissional havia deixado de investir nos conhecimentos específicos de retina e vítreo, de modo que foi superado por outros colegas. E achou melhor nós não gastarmos o dinheiro da consulta e indicou outra clínica. Recentemente, voltei lá para uma consulta de rotina, para aferição do grau, e conversamos sobre meu atual estado de saúde, pelo fato de que tenho um problema autoimune chamado Doença de Behçet e tive recorrentes crises oculares.
 
Eu disse que tenho seguido as orientações dele e da reumatologista, quanto à adesão de hábitos mais saudáveis, principalmente ter mais contato com a natureza, e procurado trabalhar dentro de um ritmo ameno, de modo que tenho conseguido manter minha saúde em dia. Ele assentiu e falou algo como: “para que tanta correria, né? Não precisamos de tanta coisa”. O médico se referia a bens materiais, principal motivo que faz com que as pessoas corram tanto e adoeçam. 
 
Aproveitei a deixa para comentar que, quando soube das mudanças na clínica, fiquei pensando que poderia ser esse caminho mesmo que ele deveria estar seguindo. Do conceito de menos é mais: menos correria, mais qualidade de vida, menos horas de trabalho, mais saúde. O médico confirmou e falou da coincidência que o levou, junto com a companheira, que também é da mesma área, a diminuir a carga de trabalho. 
 
Ela é portadora de lúpus, doença autoimune. A decisão do casal foi mais do que acertada e o resultado é visto no dia a dia: o problema dela está sob controle. Sendo que, no meio profissional deles, em que o povo adora acumular riquezas, a medida é vista como acomodação. Noutra ocasião, ao conversar com o ortodontista da minha filha, que também tem horários bem reduzidos no consultório, ele falou que mora numa cidade do interior e optou com a companheira por uma vida mais amena.
 
Ao me desculpar sobre meus pagamentos incertos, ele disse que me entende, que eu fique à vontade para ir pagando aos poucos, visto que sou sozinha para bancar todas as despesas da minha filha, e falou que sente falta dos meus bolos de banana: “os melhores que eu comi até hoje”. Ah, na consulta, o oftalmologista também se lembrou das minhas delícias. Em tempo, ao contrário de muitos outros profissionais, ele cobra um valor muito justo e acessível para as consultas. 
 
Fico tão feliz ao reconhecer nessas pessoas o mesmo ideal que eu tenho, de viver mais e melhor, com menos recursos, menos consumo, valorizando coisas simples como um bolo caseiro, embalado num saquinho de papel e amarrado com fitilho. Fico feliz que esses profissionais, dedicados à profissão e atenciosos aos clientes, tenham se decidido ainda tão jovens a desacelerar. Ambos têm menos de 50 anos e estão sorridentes, plenos, revelando toda a toda a sua generosidade na voz.   
 
Reconheço, claro, a necessidade que temos de comer, de vestir, de morar, de passear. Sendo que não precisamos de tanta roupa, nem de residências gigantes, nem somos obrigados a ter carro, ou de trocar o veículo todo ano (no caso de quem opta por ter transporte próprio). Temos sim, a necessidade de sermos mais justos com nosso próximo e mais cientes de que a natureza nos devolve em dobro tudo o que a presenteamos. 
 
Costumo dizer que o dinheiro se faz necessário, no entanto, ele é um veículo que vem e vai, que leva e traz o que precisamos. Como não precisamos de tanta coisa, obviamente não precisamos de tanta grana. Lembro de minha filha falando - toda feliz - que o sorvete barato que ela toma na praia de Baía Formosa é muito mais saboroso do que aqueles de sorveterias chiques. Pegar leve é o melhor caminho. Respirar com mais calma nos traz saúde e paz. 
 
Apois, corram meus amores para arranjar um tempinho para aquela pausa que estamos nos devendo, para o café regado a muito bate-papo. A saudade é imensa. Beijos e me sigam no meu insta @sersimplesesaudavel, onde eu mostro um pouco do meu estilo de vida que me faz ficar assim, leve e de bem com a vida.