Renisse Ordine

22/10/2020
 
 
Eu me apaixonei pelo livro certo
 
 
Entre tantos livros pelas estantes de uma biblioteca, eu me apaixonei pelo livro certo, aquele que encheu os meus olhos pela capa, leitura e a fascinação do mundo literário. 
 
Sou de família simples, nascida no interior de Minas Gerais, em uma época em que a televisão era o bem de consumo mais caro que uma família poderia ter e não tinha livros em casa. Sempre estudei em escola pública, mas tudo muito diferente do que é hoje. Eu, particularmente, sentia uma felicidade incrível por estar naquele ambiente e morria de medo de não entregar a tarefa. 
 
Nunca foi a aluna perfeita, mas fazia o que esperavam de mim, estudava e procura não tirar notas vermelhas, lembro-me que eu sofria por não saber resolver um problema matemático no quadro, quando a professora me chamava. 
 
Eu tinha a mania, antes de começar o ano letivo, de cheirar e folhear as folhas em branco dos cadernos que a minha mãe comprava. E escolhia cuidadosamente qual deles seria o de matemática, o que me daria sorte para enfrentar mais uma temporada de números. Eu nunca gostei dos números, e nem eles de mim. 
Agora, com as letras foi amor à primeira vista. Aprendi a escrever o meu nome quando era bem nova. E para escrever o alfabeto, imaginava cada letra sendo um bichinho, ou uma gota, como era o caso da letra S. 
 
Já com os livros, a história foi bem diferente. Com sete anos de idade, ainda não tinha entrado em uma biblioteca. Claro, havia a da escola, mas era de uma forma diferente o acesso que nos era permitido. 
 
A primeira vez que eu entrei em uma biblioteca de verdade, foi um dos maiores encantamentos que tive. Estava com minhas amigas de escola, e eu tinha nove anos. Era uma sala relativamente pequena, mas com duas estantes que tomava a parede, uma de frente para outra. Nós ficamos lá olhando livro por livro, por um bom tempo.
Até que eu o encontrei o livro pelo qual me apaixonei. O nome da minha paixão é “O Rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda”, um livro de capa dura e da cor azul. Eu queria ficar com ele, de qualquer maneira. Foi quando a bibliotecária me disse que eu poderia fazer uma ficha e levá-lo emprestado. Só tinha um detalhe: um adulto precisava autorizar. 
Isso parece ser uma questão fácil de ser resolvida, eu iria até em casa, minha mãe assinaria e voltava para buscá-lo. Mas como diz Drummond “No meio do caminho tinha uma pedra/ Tinha uma pedra no meio do caminho”.
 
E esta pedra era o relógio. Pois faltavam 30 minutos para fechar a biblioteca e eu não morava perto dali. Mas apaixonada como estava pelo rei Artur, fiz o que o meu coração mandava: corri como nunca mais consegui correr na vida até a minha casa. 
 
Relembrando este episódio, passa um filme em minha mente: o desespero, a correria, as amigas gritando “vai, vai, vai”, e os ponteiros do relógio tentando ser rápido do que eu. Não conseguiram, eu venci. 
 
Quando eu digo que me apaixonei pelo livro certo, é porque tudo valeu muito, cada momento e detalhe. Lembro-me que o devorei, e o li em poucos dias, curtindo cada página. E, como meu primeiro amor literário, até hoje guardo no coração essas lembranças. 
 
Ele não somente foi a pedra fundamental em minha vida literária além da escola, como também me pegou pelas mãos, influenciando-me aos meus gostos culturais:  História em geral e particularmente a cultura celta. 
 
Isso foi mais além, atualmente, sinto uma paixão indescritível pela oralidade, chegando até a cultura regional, na linguagem caipira e as histórias que nascem no meio do povo. 
Assim, tornei-me leitora, pesquisadora e como diz a gíria “rato de biblioteca”. Este relato também foi para reforçar a ideia de que há o livro certo para cada pessoa, e que o despertar pela leitura pode acontecer a qualquer momento em nossa vida, de maneira natural e não forçada, como muitos tentam fazer principalmente com as crianças. 
 
Ninguém se apaixona por imposição, o que devemos fazer com nossas crianças e, por que não, com os adultos, é proporcionar encontros. O livro certo estará em algum lugar, basta se permitir e, aos outros a estarem vulneráveis para que este encontro ocorra e te transforme como pessoa. 
 
O primeiro livro a gente nunca esquece!