Wellington Duarte

19/09/2020
 
As “virgens juramentadas”: um exemplo extremo do machismo 
 
 
Vivemos tempos sombrios, em que os recalcados e ignorantes vagueiam impunemente nas ruas e redes sociais, vomitando misoginia, machismo pré-histórico, homofobia e racismo descarado. As mulheres, que lutam todos os dias pela igualdade de fato, e não apenas de direito, seguem sendo vítimas de uma sociedade que resolveu descer, ao invés de subir, os degraus da civilização.
 
Muitos culpam nosso “atraso cultural” e o “sangue latino” por essas deformações de caráter, mas não devemos dar trela a essa justificativa, pois em várias partes do mundo o preconceito contra a mulher chega às raias da bizarrice e aparece em todos os lugares. Violência e feminicídio fazem parte do cenário de muitos países, mesmo os que não estão onde chamamos de “mundo atrasado”.
 
Talvez você nunca tenha ouvido falar da pequenina Albânia, cuja população é menor do que a do RN (2,8 milhões de habitantes) e cuja área é a metade do nosso estado (27.000 Km²), situada nas costas do Mar Adriático, bem pertinho da Itália. Da capital, Tirana, a Lecce, que fica no sul da Itália são apenas 176 Km, quase a mesma distância entre Natal e Santa Cruz.
 
Esse pequenino país, chamado de “país das águias”, pois 70% do seu território é montanhoso ou formado por colinas de difícil acesso, esconde hoje uma das mais bizarras formas de demonstração de como o machismo pode ser um câncer numa sociedade. Trata-se das “mulheres-homem”, chamadas de “virgens juramentadas”, que ainda hoje existem nesse país, embora o governo tente ocultar isso. Mas o que é isso?
 
A tradição das “virgens juramentadas” desenvolveu-se a partir do Código de Lekë Dukagjini,  um conjunto de códigos e leis desenvolvido por Lekë Dukagjini, um nobre albanês, e usado principalmente no norte da Albânia e Kosovo do século XV ao século XX, período quem os turcos governaram a região e tentaram, sem sucesso, acabar com esse código.
 
O Kanun determina que a riqueza das famílias sempre é pertencente ao homem e as mulheres são tratadas como propriedade da família. Sob o Kanun, as mulheres são privadas de muitos direitos. Eles não podem fumar, usar relógio ou votar nas eleições locais. Eles não podem comprar terras e há muitos empregos que eles não têm permissão para manter. Também há estabelecimentos onde não podem entrar. 
 
Uma mulher pode se tornar uma “virgem juramentada” em qualquer idade, por desejo pessoal ou para satisfazer os pais. Uma pessoa se torna uma virgem juramentada fazendo um juramento irrevogável, na frente de doze aldeões ou anciãos tribais, para adotar o papel e praticar o celibato. Depois disso, as virgens juramentadas vivem como homens e outras se relacionam com elas como tal, geralmente, embora nem sempre usando pronomes masculinos para se dirigir a elas ou falar sobre elas para outras pessoas; elas podem se vestir com roupas masculinas, usar um homem nomear, carregar uma arma, fumar, beber álcool, assumir trabalhos masculinos, agir como chefe de família (por exemplo, morar com uma irmã ou mãe), tocar música e cantar e sentar e conversar socialmente com os homens. Quebrar o voto já foi punido com a morte e muitas virgens juramentadas hoje ainda se recusam a voltar atrás em seu juramento porque sua comunidade as rejeitaria por quebrar os votos. 
 
Mas porque uma mulher faria isso livremente? Para se livrar, por exemplo, de um casamento arranjado, comum nessa região, ou para receber herança, ou simplesmente para poder ser “livres” perante uma sociedade ultra-machista. Essa “herança” é tão forte que nem os 46 anos de regime comunista conseguiram extinguir, embora nesse período, estivessem proibidas. Com o fim do modelo albanês de comunismo, em pouco tempo essa prática voltou, agora com menos desenvoltura, principalmente no norte do país.
 
Atualmente, restam poucas centenas de “virgens juramentadas” na Albânia e algumas em países vizinhos e a maioria tem mais de cinquenta anos. Costumava-se acreditar que as “virgens juramentadas” praticamente se extinguiram após 46 anos de comunismo na Albânia, mas pesquisas recentes sugerem que pode não ser o caso e, em vez disso, o aumento das “rixas de sangue” e a volta dos clãs, após o colapso do regime comunista trouxe de volta essa prática abominável.
 
Portanto, na Europa “civilizada”, uma prática de quinhentos anos permanece presente, muito em função de um somatório de elementos, entre eles a questão econômica e um machismo secular. 
 
E o que isso tem a ver com a questão do obscurantismo no BraZil? Ora, a pobreza é uma das mais poderosas causas da submissão feminina, condenada, em muitos casos, a prover a tal família e a torna, em muitos casos, vulneráveis às abominações machistas, permanecendo presas a um passado que nunca virou presente, e que prometia a igualdade plena entre homens e mulheres. 
 
Enquanto houver a desigualdade econômica, o conservadorismo nas relações culturais e sociais, a mulher estará sempre numa condição, não de “sofredora”, mas de ser vítima de uma opressão que se eterniza.