Andreia Braz

08/08/2020
 
Por que você não adota um gatinho?
 
 
Não tenho dificuldade em responder certas perguntas, mas sei que minhas respostas nem sempre agradam o interlocutor e isso me deixa um pouco constrangida em algumas situações. É o caso de uma amiga que insiste em me perguntar por que não adoto um gatinho para me fazer companhia. Ela tem dois gatos e um cachorro e por isso acha que todo mundo quer ou precisa de um animal de estimação. Outro dia me telefonou perguntando se eu não gostaria de adotar um gato. 
 
Não tenho nada contra animais de estimação. Pelo contrário, acho lindo quando vejo as pessoas passeando com seus pets por aí e admiro o afeto e cuidado que dedicam aos bichinhos. A fidelidade e o companheirismo desses animais também me comovem, mas não me fazem sentir vontade de ter um deles em casa. É isso que algumas pessoas não entendem. Mas como dizer não sem ofender quem insiste em afirmar que “todo mundo precisa ter um animal de estimação”? Eis a minha reposta para a tal questão: não quero adotar gato, cachorro ou qualquer outro tipo de animal. 
 
Não sei por que algumas pessoas insistem em dizer, por exemplo, que é bom ter um gato ou um cachorro quando se mora sozinho. É ótimo, mas para quem deseja. Não é o meu caso. Assim como outras coisas que podem fazer bem a algumas pessoas, mas não fazem parte dos meus desejos e/ou necessidades. O mesmo acontece com o cultivo de plantas e a dedicação à culinária, por exemplo, duas coisas que admiro profundamente, e acredito que cozinhar é mesmo um ato de amor e uma terapia das melhores, mas não me disponho a fazê-lo porque, além de não levar muito jeito para isso, tenho outras prioridades no meu tempo livre. 
 
Confesso que já pensei em mudar de ideia, mas por enquanto ainda não me aventurei na cozinha. Meu tempo livre continuará sendo dedicado à literatura e às artes de modo geral, especialmente agora, nesses tempos de isolamento social. Vez por outra, até sinto vontade de tentar fazer alguma receita simples, mas ainda não tive coragem ou motivação suficiente para tal. Quem sabe um dia. Sigo algumas nutricionistas no Instagram e as receitas saudáveis e rápidas sempre me encantam. E por falar em receita, a chef Irina Cordeiro, potiguar que vive em Sampa, e é sucesso absoluto nas redes sociais, sempre posta receitas deliciosas e irresistíveis. Outro dia senti vontade de fazer o bolo de macaxeira que ela ensina. Fiquei com água na boca quando ela ensinou uma receita rápida para o meu bolo predileto. Detalhe: nunca fiz um bolo. 
 
Admiro demais as pessoas que dedicam tempo e cuidado às plantas e fazem disso uma terapia. A lista é grande, a começar pela minha mãe de criação, que sempre manteve um jardim em casa e não vive sem suas plantinhas. Minha mãe biológica, que já trabalhou com agricultura, também gosta de plantar, e hoje cultiva flores e outras plantas no sítio onde mora, em Pernambuco. Edmar Claudio, Hedilberto Gomes, Hiliomar Alves, Iuri Baseia e Teresa Galvão, amigos da confraria Mesa das Consolações, cultivam orquídeas. Daianny Costa também é apaixonada por orquídeas e cultiva essa e outras flores. 
 
Voltando aos animais de estimação. Sei da importância deles, inclusive para alguns tratamentos de saúde, e quase sempre me emociono quando leio ou assisto algo sobre o tema. Há algum tempo assisti a uma reportagem emocionante sobre um hospital de São Paulo que permitia aos pacientes internados receber visita dos seus animais de estimação (cães, gatos, passarinhos etc.). Aliás, isso é fruto de uma lei aprovada em alguns estados. Lembro também de outra matéria que mostrava crianças com câncer recebendo a visita de cães adestrados. A presença desses animais é sinônimo de alegria e afeto e ajuda a diminuir as angústias e a ansiedade causadas pela internação. Existem estudos que mostram os benefícios psicológicos e fisiológicos das visitas dos animais de estimação para pessoas hospitalizadas. 
 
Tenho vários amigos e familiares que são apaixonados por gatos e alguns deles têm até mais de um animal em casa. Zélia Santos cuida de vários gatos com um amor que me comove; Paula Santos, além de criar gatos e cães, ajuda no processo de adoção responsável de outros animais por meio de campanhas nas redes sociais; Marcos Alvarenga tem uma gatinha chamada Clara Nunes e um cachorro chamado Lingo – os bichinhos têm até uma página no Instagram; Pedro Vitor e Larissa, sobrinhos, são loucos por seus gatos: Pretinha, Galego e Mia; Letícia e Raphaela, sobrinhas, adotaram Ariel e Clóvis e vivem no maior xodó com seus bichanos. Ariel é uma gatinha muito fofa que tem até página no Instagram. Se brincar, tem mais fotos que eu.
 
Voltando ao tema da adoção de animais. Estou muito bem na companhia dos meus livros e todas as responsabilidades que tenho já me bastam. Aliás, obrigações que de certo modo foram redobradas nesse período de isolamento social (para quem está cumprindo, de fato, o distanciamento social recomendado pelas autoridades de saúde e não acha que uma doença que já matou quase 100 mil brasileiros “é só uma gripezinha”). Admiro quem gosta de animais, quem dedica seu tempo e amor a esses bichinhos, mas não tenho a menor pretensão de ter mais uma responsabilidade nessa vida e gostaria muito que essa decisão fosse respeitada. Afinal, não podemos esquecer que ter um animal em casa exige de nós, além de amor, atenção, cuidados com a saúde, alimentação adequada etc.
 
E por falar em cuidados, outro dia li um texto curioso sobre a relação de alguns escritores com seus gatos. Está disponível no site da Editora Nocaute. Em 1953, o gato do escritor norte-americano Ernest Hemingway, Uncle Willie, foi atingido por um carro e ele escreveu uma carta comovente ao amigo Giangranco Ivancich. A missiva termina com a seguinte frase: “Um gato tem honestidade emocional absoluta: os seres humanos, por uma razão ou outra, podem esconder os seus sentimentos, mas um gato não o faz’”. 
 
Essa conversa sobre animais de estimação, que muito se deve à insistência da minha amiga para que eu adote um gatinho, me fez lembrar uma declaração de Freud: “A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz”.