Renisse Ordine

02/07/2020
 
Resenha sobre o romance ´Erro e Surpresa` 
 
 
A arte imita a vida, diria um clichê. Essas questões são reacendidas no romance Erro e Surpresa, de Robson Hasmann. O escritor, que é mestre e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) utiliza-se do prestígio militar da região como pano de fundo de sua narrativa para desenvolver a trama que tem como cenário o Brasil no período mais obscuro da política, a ditadura militar (1964 a 1985). 
 
O autor, que é estreante nesse gênero, baseia-se da repressão da liberdade e da expressão para construir a personalidade divergente do personagem do principal, Jacó, seus conflitos pessoais e emotivos.
 
Jacó é um jovem cineasta de Guaratinguetá e filho de um militar, que se encontra em embate com os seus ideais artísticos e o conservadorismo de sua família e do contexto sócio-político das décadas de 60 e 70. Ele tem, como figura divergente, a outra face do espelho em que o Brasil se enxergaria o irmão militar, Esaú, que segue corretamente os preceitos da época. O resgate das personagens judaicas Hasmann enfatiza a disputa da direita x esquerda. 
 
O irmão “rebelde” avança em seus propósitos, mudando-se para São Paulo, onde começa seu trabalho como professor da Escola de Artes, atual Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Com seus alunos, produz um filme cuja simbologia da edição o leva ao exílio involuntário, no Chile e, posteriormente, a Salamanca, na Espanha, onde permanece por 20 anos, aguardando o momento em que possa retornar para um Brasil sem conflitos. 
 
Os embates que integram o livro sempre existiram entre os povos, desde os tempos antes de Cristo. É por esse motivo que Erro e Surpresa resgata explicitamente a passagem bíblica de Esaú e Jacó. Além disso, dialoga com dois clássicos da literatura brasileira: de Machado de Assis, a Esaú e Jacó, romance de 1902, e, de Milton Hatoum, Dois irmãos, de 2000. 
 
Outro fator relevante são as representações das figuras regionalistas do Vale do Paraíba, conhecidas internacionalmente: Amácio Mazzaropi, Monteiro Lobato (epígrafe do livro e leitura de Jacó para a “cor local”) e Maria Augusta de Oliveira Borges (a loira do banheiro), mulher que, no Brasil Império, era filha de um dos mais ricos viscondes. Essas personalidades históricas interferem no desenvolvimento e na criatividade de Jacó, demonstrando assim um forte apego as suas origens. 
 
 São muitas as marcas de que Jacó seria um alter ego do autor, Robson Hasmann. Ele, que é vale-paraibano, valoriza sua terra natal; que teve uma passagem fugaz por Salamanca e que, no Brasil, frequentou a Cátedra José Bonifácio, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI – USP), quando foi coordenada pelo ex-presidente espanhol Felipe González (também mencionado em Erro e surpresa) e Pedro Dallari, ex-presidente da Comissão da Verdade. 
 
Erro e Surpresa exterioriza um passado que aprisionou a liberdade. Um período amordaçado, em que as pessoas gritavam por dentro, para não morrerem por fora.