Médico melhora atendimento em UPA de Natal através da proximidade com pacientes

21/10/2019

Por: Hugo Vieira
Foto: Divulgação
Era o ano de 2014 e Natal recebia mais uma Unidade de Pronto Atendimento – conhecidas pela correria, estresse e superlotação, a unidade de Cidade da Esperança recebia em média 300 atendimentos diários e hoje são mais de 500 por dia. 
 
Uma das maiores reclamações no local era o retorno de pacientes com os mesmos problemas de saúde. Não é para menos: a vida dos profissionais em hospitais públicos de urgência segue a mesma cartilha, resumidas muitas vezes em atendimentos distantes. "Os médicos não olham para nossa cara!", costumamos ouvir nas filas das Unidades. 
 
Com mais de 40 anos de medicina e experiência nos Estados Unidos, além de ex-professor universitário, o Dr. Mário Lyra é o 'xodó' dos pacientes. "Um paciente uma vez me deu um bode como agradecimento pelo atendimento" relembra o doutor. 
 
Em cinco anos ele passou a observar o comportamento dos pacientes que frequentam a UPA – a procura pelo seu atendimento passou a ser constante. "Onde está o Dr. Mário?" é pergunta frequente no local. 
 
Na triagem, os pacientes são classificados de acordo com a gravidade dos sintomas. Quem recebe a cor azul normalmente não apresenta seriedade, porém alguns fazem questão pelo atendimento do Dr. Mário. "Precisamos olhar para as pessoas, ouví-las. Os pacientes do SUS têm o direito de escolher o médico com quem preferem se consultar".
 
Chegou a estranhar a preferência pelo seu nome. Com receio de causar desconforto entre os colegas, prefere realizar sua missão da forma mais imparcial possível. "É um clima hostil porque as pessoas chegam carentes, doentes, chorando e precisam ser bem atendidas". 
 
Mas nem sempre o estilo de trabalho do Dr. Mário é compreendido. Durante um dia de plantão, um funcionário se incomodou com seu método de trabalho.
 
"Durante um plantão, recebi ameaça de denúncia pelo fato de preferirem meu atendimento", relembra.
 
Segundo ele, para se criar uma cultura de atendimento humanizado entre os médicos, é preciso formar os médicos através de aspectos éticos que os aproximem dos pacientes e não limitando os estudos em livros e cadáveres. "Deveria ter uma disciplina nas universidades de medicina social ligada aos sentimentos".
 
Ele passou 23 anos ajudando a formar novos médicos dentro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e nesse período viu de tudo: estudantes cursando por amor à profissão e outros influenciados pela família. Seu avô, Mário Lyra, exerceu cargo de prefeito de Natal por mais de dez vezes. Apesar do sobrenome, se classifica como um Peregrino. "Para mim tanto faz atender um pobre ou rico. Irei tratar todos da mesma forma". 
 
Certa noite, recebeu uma ligação: era a mãe de um paciente de nome desconhecido. Ela agradecia pelo atendimento. "O senhor é um doutor excelente! Obrigado por curar minha filha!" dizia a mãe enquanto lágrimas também eram ouvidas.
 
Medicina afetiva 
 
O resultado do esforço do Dr. Mario pode ser percebido pela diminuição de retornos dos pacientes que frequentam a UPA da Cidade da Esperança. A Medicina Afetiva, método que une encontro, a escuta e a troca entre médico e paciente é o alicerce do Dr. Mário.
 
Para os novos médicos deixa um recado de longa experiência em corredores hospitalares: "Não façam medicina apenas por ganhar dinheiro ou por status, eu lanchei com doutores que escreveram pilhas de livros que ditam a medicina do trabalho internacional. Quem deseja trabalhar em unidades de Pronto-Atendimento deve ter a paciência, a tranquilidade de lidar com pessoas vulneráveis e oferecer a melhor resolução para aquele paciente".