Foto de cordialidade entre Fátima e Mourão evidencia polarização agressiva

19/09/2019

Por: Cefas Carvalho
 
Como todo mundo que acompanha o noticiário e a as redes sociais sabe, foi realizado em Natal na segunda-feira passada, o 37° Encontro Econômico Brasil-Alemanha, aberto pela governadora do RN, Fátima Bezerra, como manda a liturgia e o protocolo, e com a presença de  Dieter Kempf; presidente da Federação das Indústrias Alemãs. E também do vice-presidente da República (e então presidente em Exercício) Hamilton Mourão.
 
O evento em si marcou a assinatura de tratados comerciais com o país germânico e a presença do Governo Federal através de Mourão garantiu a liberação de 80 milhões de reais para a Segurança do Estado. Mas, nada disso ganhou tanto destaque no tribunal das redes sociais quanto as fotos dos abraços e cordialidade entre Fátima e Mourão.
 
Curioso que sou e até por dever de ofício, pesquisei a reação de apoiadores de uma e de outro. Apesar de muita gente elogiar a troca de gentilezas e clima amistoso entre os dois, também muita gente indignada, dos dos lados.
 
Entre apoiadores da Fátima, comentários de que a governadora não deveria abraçar um golpista, que o abraço era desnecessário e até ofensivo, além de apupos diversos para Mourão, sendo milico, fascista e reaça os mais leves.
 
Nas redes de Mourão o tom foi o mesmo. Muitos achando desnecessária tamanha cordialidade com "uma petista", além dos objetivos de praxe: comunista, gayzista, pró-Venezuela, com o adendo da ironia tipo "Ah, agora ela gosta do Governo Federal" ou "Na hora da campanha eles eram golpistas, agora ela quer dialogar".
 
Por que fotos de uma governadora de Estado dialogando e abraçando um vice-presidente da República causam tanto impacto?
 
Arrisco a responder: Porque parcela da sociedade não os vê como detentores de cargos, mas, sim, pelo que são orgânica e ideologicamente. Ou seja, Mourão é um militar reacionário e truculento. Fátima, uma professora comunista e progressista.
 
Não é novidade que o Golpe parlamentar-midiático-judiciário que tirou Dilma do poder em 2016 esfacelou as instituições e gerou na sociedade um caldo de desvalorização de convenções.
 
E também sei que o percentual de pessoas que se revolta com o abraço entre Mourão e Fátima é reduzido nos dois lados. De um, gravita entre os 10% e 15% do bolsonarismo de raiz, aquele que se assume racista e homofóbico e que cultua a Ditadura Militar. Do outro, também entre 10% e 15% que vê a política com um purismo utópico e ainda fala em "revolução" e (embora exista realmente cisão entre classes sociais) separa as pessoas entre "burgueses" e "proletários".
 
Inclusive, ainda na segunda postei na minha página pessoal do Facebook foto do polêmico abraço com um pequeno texto sobre republicanismo e recebi diversos comentários afogueados. Muitos insistindo na tese de que Fátima "não precisava mostrar tanta gentileza". Outros, em menor número, repetindo as ladainhas de que a governadora estaria dando o braço a torcer para receber dinheiro do Governo Federal.
 
Trata-se de um universo de pessoas que não consegue mais detectar republicanismo, protocolos, rituais, liturgias. Sei que o acaloramento dos últimos anos e o fato do presidente Bolsonaro ter horror justamente e republicanismo, protocolos, rituais, liturgias, atrapalha o debate salutar sobre o assunto.
 
Mas, se ainda queremos Democracia, é assim que ela é feita: de cordialidades, beijos e abraços entre opostos, de diálogos entre adversários políticos.