Entre o humor e a melancolia em ´Como ser ninguém na cidade grande`

07/11/2018

Por: Alexandra Vieira de Almeida
No livro de contos Como ser ninguém na cidade grande (Penalux, 2018), de Luiz Roberto Guedes, temos as várias faces dos seres anônimos que povoam os centros urbanos. No conto que abre o livro, o título já indica isto. Em “Pessoas inexistentes” flagramos um escritor em ânsias de querer tomar os escritos de um mendigo que escreve coisas eróticas. Luiz Roberto Guedes, a partir de sua narrativa dá importância a coisas aparentemente desimportantes, a pessoas desconhecidas de nossa sociedade que ganham uma relevância grandiosa a partir de sua linguagem literária, que apesar de ser direta e objetiva, mescla o humor com a ironia e a melancolia, típicos do meio urbano na nossa contemporaneidade. Apesar da multidão, da aglomeração das grandes urbes, convivemos com nossa própria solidão e individualidade. 
 
No primeiro conto, temos: “NINGUÉM OLHA DUAS VEZES para um mendigo. A não ser um repórter fotográfico em busca de um personagem. Ou um escritor deparando-se com uma história”. Tudo pode virar enredo na pena do escritor. E nesta história, o mendigo se torna meio de se criar um enredo espetacular. Algo ordinário ganha ares de uma coisa extraordinária. Do abjeto, quase inumano e anônimo se retira o grito da literatura, sua estupefação frente a coisas diminutas. O que é menor se veste de grande interesse. As massas são plenas de significados. Os seres que habitam na cidade não são fantasmas esquecidos, mas seres com grande profundidade e complexidade. Isto, Luiz Roberto Guedes desencadeia com maestria. O tédio e a alegria se fundem nos seus dedos mágicos de escritor que conhece a fundo as estruturas de uma excelente narrativa com maravilhosas histórias para contar.
 
Um dos métodos dos gritos da cidade que têm de ser ouvidos e lidos por nós leitores é a estratégia narrativa de começar alguns parágrafos em caixa alta, revelando a ênfase em frases-chave que mostram o quanto é importante adentrar na vida dessas “pessoas inexistentes”. Como o “ninguém” ganha voz e refrão nas frases bem encadeadas e organizadas neste livro magistral, que dialoga com a liquidez dos tempos atuais. Algo que se desmancha ganha corporalidade, solidez no livro de Luiz Roberto Guedes, que conhece como ninguém seu artefato linguístico com magnitude e inteligência. Um autor de peso que sabe trilhar os caminhos da narrativa, que prende a atenção do leitor do início ao fim. 
 
No conto “Késia com K”, apesar de o personagem principal ter os carinhos protetores da mãe, sente sua solidão por uma mulher e encontra uma jovem de cerca de 18 anos, levando-a para a casa dele. Ele tinha perdido a mulher e o filho há trinta anos. No seu esvaziamento e melancolia, precisa preencher este vácuo nos afagos de uma garota. Sua mãe, preconceituosa, não aceita um homem maduro como ele com uma jovenzinha deste porte. Com fina ironia, levar uma “mocinha desamparada”, é um “gesto solidário”, que tem outras intenções ocultas pelo véu da generosidade, mas que esconde, palimpsesticamente, o desejo sexual por jovens. Ele que é um sessentão é despertado por desejos incontidos no seu ser. A chantagem emocional da mãe não tem igual: “Trate de arranjar uma mulher da sua idade, pra cuidar de você quando eu me for”. A partir de seu caso com uma moça tão jovem, Aldo tem que criar mentiras e ficções para saber driblar sua realidade chocante aos olhos de uma sociedade hipócrita e falsa moralmente. Como com relação à síndica de seu prédio. No meio do anonimato, temos o famosismo do skatista madurão que quer dar pinta de jovem, o Rubião Bala, que aparece no jornal como campeão brasileiro de skate e leva a jovem amada de Aldo, que fica a ver navios. Isto mostra as dificuldades e percalços do relacionamento, que se direciona para uma roda viva.
 
Em “Como ser ninguém na cidade grande”, conto homônimo ao título do livro, temos o poder da mercantilização do livro. No conto, percebemos como os barulhos da cidade perturbam o escritor que está se encaminhando para a editora com seu novo livro, que não é plausível de ser vendido. Os temas dos livros comerciais são outros como diz o editor e, temos, assim a “estrangeirização” de nossa literatura, que perde a vitalidade de nossas características nacionais. O que vem de fora é mais importante, revelando nosso complexo de vira-latas, como diria Nelson Rodrigues. A valorização do que vem de fora em detrimento de nossas características particulares revela a desvalorização de boas histórias que podem ser contadas no nosso chão. Outra questão apontada por Luiz Roberto Guedes nos seus contos é o conflito de gerações. A alegria e o vigor da nossa giunventú e a melancolia do envelhecimento, que os deixa sós e desamparados no meio das grandes cidades.  Neste conto aqui, isto é revelado pelo personagem principal que se veste de forma antiquada e a editora com ares futuristas, revelando o choque entre vestuário e ambiente ao redor: “A SECRETÁRIA DA HB recebeu com estranheza aquela figura anacrônica. Destoava do design futurista da recepção”.  Na HBeditorial, percebemos a frieza das pessoas de uma repartição a partir da secretária da editora em questão. O visual do editor é “pós-moderno” e contrasta com o do escritor. Os gostos do público-leitor não têm tempo para uma literatura mais exigente, é o que o editor demonstra para o escritor. O editor utiliza várias palavras em inglês do meio editorial, revelando esta “internacionalização” de nossa literatura e de nossa própria língua, que é invadida por estrangeirismos. Luiz Roberto Guedes brinca com o próprio título do seu livro no interior deste conto, descontextualizando sua qualidade literária e ironizando a lei do mercado com o assassinato desta literatura comercial, quando na verdade seu livro Como ser ninguém na cidade grande foge à lei do mercado, pois é um livro realmente de literatura e com o apelo a um leitor mais exigente.
 
Em “Encontros no escuro”, temos um escritor cego de histórias eróticas. E, aqui temos a referência a Glauco Mattoso, que é um poeta cego. Inicialmente este escritor tem preconceito em contratar uma datilógrafa mulher e muito jovem. Mas de forma inusitada ele acaba contratando, mostrando ao longo do conto, a relação entre mestre e aprendiz entre os dois, mas que se revezam entre ambos e revela, dessa forma, os aprendizados que ocorrem entre as pessoas nas grandes cidades, apesar do caos, do barulho e da superficialidade dos anúncios que abarrotam nossa visão. As situações engraçadas no conto conduzem ao riso, que se traduz com doses de melancolia, ganhando uma contradição original e inusitada. Ele é um escritor das antigas que prefere uma datilógrafa a uma digitadora, tendo ainda suas fitas cassetes com seus contos gravados e sua máquina Olivetti. Temos, assim, novamente, o choque entre o novo e o velho, o que é arcaico em nosso mundo contemporâneo da rapidez e da velocidade.  Outro contraste interessante é a sublimidade das músicas que o escritor cego pede para a datilógrafa colocar como música clássica (Mozart, Debussy e outros) e jazz (Billie Holiday, Ray Charles) com o conteúdo extremamente erótico de suas narrativas. Temos nos seus contos pessoas invisíveis e anônimas, mas que ganham visibilidade e importância a partir da literatura. Eis o gesto magistral de seus contos. A sexualidade é exposta sem nenhum pudor por Luiz Roberto Guedes neste conto assim como em outros da mesma lavra. Aqui, quanto mais detalhista mais erótico. Algo contrastante para um homem cego, mas que pelo tato ganha verossimilhança nas suas histórias. 
 
O paradoxo cegueira/visualidade das cenas de seus contos é quebrado, pois a partir das palavras é possível quebrar estes paradigmas. A pesquisa é o dom do escritor. Para narrar, uma pesquisa minuciosa tem de ser feita e, isso, Luiz Roberto Guedes, faz muito bem, com muita técnica e maestria. O escritor deste conto cita Glauco Mattoso: “O meu dia amanhece cada vez menos/e anoitece cada vez mais cedo”. Uma excelente técnica é também utilizada por Guedes aqui, ou seja, traduzir a partir dos parênteses os pensamentos das personagens, como se no sufocamento destes sinais se pudesse explodir a malha dos desejos. E temos também outra técnica de internalização que é o conto dentro do conto-mor. Alguns contos do escritor da história aqui em questão são transcritos na íntegra por Luiz Roberto Guedes, apresentando, assim, um labirinto textual, onde uma parte está inserida no todo, como se a miniatura revelasse a metonímia de suas histórias, que é a satisfação dos desejos humanos, a sexualidade e erotismo à flor da pele. A crítica do escritor cego ao amor tem suas revelações ocultas, pois o amor é um só, se espelha na unidade enquanto temos as variações do sexo, em sua multiplicidade. No conto temos o sexo a três numa de suas histórias eróticas. São de extrema liberdade, crueldade e perversão alguns de seus contos. Enquanto as descrições eróticas do escritor Ciro são mais diretas e pornográficas, a beleza da descrição do narrador com relação à história dos dois, Estela, a datilógrafa e Ciro, o escritor é de um lirismo erótico arrebatador.
 
Em “Alô Alessandra”, temos a imagem metafórica inicial da melancolia da cidade, um dia chuvoso, que revela a melancolia e a solidão de um homem extremamente gordo que tenta conseguir uma companhia feminina e se sente frustrado por não conseguir. Ele tenta procurar por telefone um amor e não é levado em conta, pois todas as amigas de sua lista telefônica estão ocupadas. Ele que é um ator teatral encena uma verdadeira farsa e as farsantes são suas amigas que o desprezam. Ele procura um amor a partir de um convite para uma de suas novas peças de teatro e não consegue nada. Aqui ele se torna um “ninguém”, mas ganha interesse pela ótica do narrador, que revela este personagem para nos fazer pensar sobre nossos próprios preconceitos. Aqui o preconceito por sua figura desajeitada e desvantajosa. 
 
No conto “Ritos favoritos de Eros”, temos a força do desejo que irrompe com violência e faz despertar paixões, com a traição de uma bela e jovem chilena que trai seu futuro esposo rico com o empregado dele. Mas ela põe fim à relação, pois vai se casar e não quer levantar suspeitas. Nisto, o empregado do milionário quer se vingar e leva uma arma ao encontro dos dois na sua casa de praia, mas acaba tendo um encontro inusitado que o leva a outros rumos. São estas situações inusitadas e imprevisíveis que fazem dos contos de Luiz Roberto Guedes grandes em expectativas e surpresas. O empregado vai ao encontro do patrão e encontra um escultor ao qual a empresa do milionário onde o personagem principal trabalha financiou. O escultor é amigo do casal. O empregado se lembra da obra exposta do escultor, um kama sutra escultórico, “Ritos de Eros”, em que encontramos “Casais copulando, em diversas posições”. Mais uma vez, o erotismo é a força-motora de seu conto, apresentando os desejos dos seres, o prazer que pulsa incansavelmente em todos nós, que tentamos fugir do tédio e da solidão, que nos massacram. A surpresa é a escultura coberta que, curioso, o empregado do milionário tenta desvendar. 
 
Em “Noite com Carla, Conrado e Mila”, temos a relação do mundo dos vivos com o mundo dos mortos, que até o título do conto nos sugere, pois Carla se envolve com um homem mais velho. Mais uma vez aqui o conflito de gerações. Conrado no meio do ato sexual morre com um ataque cardíaco e a descrição da narrativa segue seu caminho com doses de humor negro, reunindo a tragicidade ao riso, num misto de grande impacto visual e descritivo. A amiga lésbica, Mila, é que vai ajudá-la e cabe ao leitor saborear esta história enigmática que nos choca com sua alegria trágica. O post coitum triste se transforma no tom irônico com que Mila conduz a narrativa. Ela tem uma estratégia e somos conduzidos pelo humor seco e risível das situações contadas. As várias faces do humor erótico são reveladas com doses de tristeza e dramaticidade. Um humor mórbido é exposto em sua fluidez orgânica, como se ele fosse natural aos nossos olhos cansados e anêmicos.
 
No conto, que finaliza o livro, temos coisas sérias que são relatadas com humor por Luiz Roberto Guedes, que é um escritor que revela pleno conhecimento das técnicas literárias e seus impactos. O dia e noite de um pronto-socorro público, que é um verdadeiro “Inferno de Dante”, nos apresenta este humor ácido: “-Não é melhor mandar a paciente pro choque? – falou Emiko, a japonesinha residente, branca feito papel.” O autor nos vem falar das misérias de um hospital público, mostrando sua crítica com relação ao descaso das autoridades: “Já em hospital público, a miséria é crônica”. Ou ainda este: “Falta medicamento, gaze, algodão, estetoscópio”. É o grito social da literatura que Luiz Roberto Guedes nos faz ter consciência de nossa realidade. Este escritor maduro e admirável nos expõe o que se esconde por trás das malhas do real e nos choca com sua linguagem diferente, misturando o sério ao cômico. Há uma grande surpresa no final do conto, nos mostrando as artimanhas do texto literário. Portanto, nos contos excepcionais deste escritor experiente e mestre das técnicas narrativas, temos histórias que se alicerçam nas profundezas abissais de um povo anônimo e infeliz, que tenta minimizar sua solidão com o erotismo, a literatura e outras coisas mais satisfatórias. Unindo a melancolia das grandes multidões, com humor e cruel ironia, o escritor faz os leitores refletirem sobre suas próprias experiências pessoais em meio a uma realidade massacrante e monótona. Luiz Roberto Guedes consegue com grande proeza driblar os males de nossa sociedade com seu conhecimento pleno da literatura que ameniza as dores constantes dos seres em meio à urbe caótica e apavorante.
 
SERVIÇO
“Como ser ninguém na cidade grande”, contos. Autor: Luiz Roberto Guedes. Editora Penalux, 172 págs., R$ 40,00. 
Disponível em:
http://editorapenalux.com.br/loja/como-ser-ninguem-na-cidade-grande
E- mail: vendas@editorapenalux.com.br
 
Sobre a  resenhista
Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux. 
Contato: alealmeida76@gmail.com