Opinião

Outro calendário

Um ano produtivo precisa de calendário honesto, ético, transparência nas festas e nas folhinhas, para, com moral e de cabeça erguida, escrever suas mensagens nos cartões do seu legado.

Por: Janduhi Medeiros
05/12/2017

Um ano produtivo precisa de calendário honesto, ético, transparência nas festas e nas folhinhas, para, com moral e de cabeça erguida, escrever suas mensagens nos cartões do seu legado. O ano que termina vai ter dificuldade de remeter mensagens às suas árvores. Foi um ano pesado de muitas ausências nos fardos cronológicos das fases da Lua e da secular política. Na música, o Seridó perdeu seu grande tocador de violão – Paulo Lúcio. Ele herdou do pai o tesouro sublime da música, que ele tocou, regou e repassou para as gerações futuras, como o alvorecer oferece a luz ao dia que chega com passarada. Tocava violão com genialidade. Nas festas religiosas, nas feiras, pelas calçadas e veredas do Seridó, como um anjo que nasceu na manjedoura dos dobrados, das valsas e das bandinhas que desfilam nos sentimentos interioranos. Paulo Lúcio executou os hinos e as orações musicadas pelos familiares e pelos filhos da boa música. Ainda existiam as serestas, os carnavais e os coretos, encantando os repertórios da alegria. Estudou com o pai, tinha as partituras na sensibilidade do ouvido, no olhar divinos e executava as canções mais populares com os pecados secretos das mesas de bar, e ele dedilhou as cordas do seu pinho pelas esquinas noturnas da região com esplendor. Importante ressaltar que no berço da família também nasceu Tonheca Dantas, e quem melhor executou Royal Cinema foi seu violão, nos toques mágicos da sua habilidade, como um canário cantando nos orvalhos do sertão, todas as auroras, para dar brilho às cantadas do amanhecer. 

O Seridó era o seu grande palco. Certa vez, em Campina Grande, o consagrado Ray Conniff se rendeu ao seu talento, quando escutou o solo refinado de sua guitarra, e logo o convidou para fazer parte da sua grande orquestra, mas ele não pôde aceitar o convite, porque o famoso maestro não levava sua orquestra aos palcos do Seridó, não tinha a grandeza de tocar nas esquinas da humildade, que o sertão plantou no sangue da região. O grande sonho do menestrel era adquirir uma mesa de som mais potente, para a equalização dos seus acordes alcançarem a leveza das nuvens na perfeição, e o céu da noite adormecer embalado pelo travesseiro da nota perfeita de uma música popular superior. 

Era impossível não gostar dele e de seu violão. Um  cego, que cantava nas feiras de Caicó, falou que, quanto Paulo Lúcio dedilhava seu instrumento, ele enxergava a música com clareza. Um grande poeta das ribeiras, desde sempre, o convidava para as serestas de suas primaveras, pois não sabia o que encantava mais o devaneio, se suas trovas premiadas ou os acordes do violão de Paulo Lúcio. Um professor francês estudou a obra e o engenho genial de Felinto Lúcio, pai do violonista, e ficou impressionado com o talento musical do mestre e de toda a família, reconhecendo a força musical da região. 

No carnaval deste ano, quando o bloco procurava animar à tarde, faltava a vibração alegre e harmoniosa do violão de Paulo Lúcio, e o vento logo percebeu que o som não tinha o ritmo harmonioso da brisa. Alguém comentou: - "o violonista está se recuperando de uma pequena doença". Na festa da padroeira, o violonista também não compareceu, e o coreto da praça não cantava com alegria, pois seu seresteiro maior estava muito doente. No início de outubro, o Seridó perdeu seu grande violonista, o sábado perdeu a alegria da música, a sensibilidade da erudição, a leveza dos acordes. De pessoa simples e sem vaidade, ele se tornou gigante. Agora, o sertão escuta o silêncio de Paulo Lúcio, tocando apenas para as estrelas. Espero que, após as comemorações do final do ano, o calendário do próximo ano possa render suas homenagens, nas folhinhas festivas da cultura, ao maior violonista das ribeiras de nossas melodias.