Rio Grande do Norte

Zé Ferreira e sua luta no sindicalismo rural marcada pelo diálogo

Jornalista e professor macaibense escreve sobre sindicalista rural José Ferreira de Lima (Zé Ferreira), que faleceu semana passada aos 65 anos.

Por: Rômulo Estânrley
21/04/2017

Foto: Arquivo pessoal
Será celebrada pelo padre Murilo neste sábado, dia 22, às 16h, na Capela de Nossa Senhora da Conceição, em Igreja Nova, comunidade rural de São Gonçalo do Amarante, a missa de 7º dia de falecimento do sindicalista rural José Ferreira de Lima (Zé Ferreira), de 65 anos.
 
Ele faleceu no último dia 16 de abril de 2017 (Domingo de Páscoa), num hospital de João Pessoa/PB. Segundo sua filha Joseli Macêdo, ele vinha em tratamento de hemodiálise, e aguardava uma cirurgia que seria realizada na quarta-feira passada, dia 19, para o implante de uma nova fistula (patologia causada pela conexão entre um órgão ou de um vaso sanguíneo com outra estrutura que normalmente não estão conectados. Também pode ocorrer por furos entre paredes do intestino. Geralmente são resultado de lesão, doença ou cirurgia e causa sério transtorno, porém ligar dois órgãos em locais alternativos também pode ser usado para tratar doenças).
 
Zé Ferrreira era portador da Diabetes tipo 2, há 17 anos. É uma doença crônica que afeta a forma como o corpo metaboliza a glicose, principal fonte de energia do corpo. A pessoa com Diabetes tipo 2 pode ter uma resistência aos efeitos da insulina - hormônio que regula a entrada de açúcar nas células - ou não produz insulina suficiente para manter um nível de glicose normal.
 
Apesar da luta gigantesca contra a doença, Zé Ferreira sempre mantinha seu bom senso de humor com quem convivia. Joseli conta que seu pai sempre estava calmo e sereno. “(Ele) pedia calma e paciência, que tudo daria certo... Semanas antes, ele, com aquele jeito de ser, contava histórias, contando piadas... Sempre tinha uma para dizer”, revelou a filha.
 
Não é só o município de São Gonçalo do Amarante que está de luto. Macaíba e, de forma extensiva, o Rio Grande do Norte também está sentindo a perda de Zé Ferreira.
 
Conhecido em todo o RN como grande lutador em defesa dos direitos sociais das famílias camponesas, o sindicalista e dirigente da Fetarn (Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura do RN) José Ferreira de Lima nasceu no dia 23 de maio de 1951, em Igreja Nova, quando esta ainda pertencia a Macaíba, antes do desmembramento de São Gonçalo do Amarante, em 1958.
 
Ele é filho dos agricultores Francisco Ferreira de Lima e Antônia Ferreira de Lima, ambos falecidos em 1995 e 2000, respectivamente. O casal teve dez filhos: João, Lindalva, Izabel, José Ferreira e Heleno; Etelvino, Emanoel, Maclino, Maria de Lourdes e Marleide. 
 
Os irmãos Etelvino e João, por serem os mais velhos, ajudavam o pai na agricultura para ajudar no sustento da família. “Seu” Francisco trabalhava como diarista. Aos 8 anos, Zé Ferreira, juntamente com Lindalva e Izabel, faziam a limpeza do roçado da Fazenda Itapitanga, em Igreja Nova, pertencente a família do ex-governador Geraldo Melo.
 
Até os 21 anos de idade, Zé Ferreira se considerava analfabeto. As suas irmãs, Izabel e Lindalva, foram estudar na Escola Reunida Raimunda Queiróz. Já seu irmão João estudava à noite na escola particular de dona Neide. E Zé Ferreira ajudava o pai durante o dia; e à noite não encontrava estímulo para aprender as primeiras letras.
 
Quando começou a namorar, quem escrevia bilhetes para a moça – prática comum naquela época, afinal não existiam celulares, nem tampouco a internet – era sua irmã Izabel. Como ela casou e foi morar em São Paulo, Zé Ferreira ficou sem ter quem escrevesse os bilhetes para sua amada. O jeito foi freqüentar a escola para aprender a ler e escrever, aos 21 anos, em 1971. Era aluno da professora Venice, que lecionava no turno noturno, numa escola municipal da localidade.
 
Estudou por cinco anos, em que cursou o 5º ano primário, fez o Exame de Admissão e supletivo equivalente ao ginásio. Depois, fez um curso por correspondência de cadete aviador. Como era em São Paulo, Zé Ferreira desistiu. Depois, fez um curso de datilografia durante seis meses, em 1972, em Macaíba. A determinação era grande: andava duas léguas a pé para chegar ao curso. Mas, no final, conseguiu concluir. “A vontade de aprender era tanta, que o que aparecesse eu estudava”, disse, na época em que concedeu entrevista biográfica ao jornal Potiguar Notícias.
 
POLÍTICA
 
Politicamente, Zé Ferreira foi militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro), de 1964 a 1968. Em seguida, passou a ser militante do MR8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), que fazia parte do antigo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), chegando a ingressar no diretório municipal de São Gonçalo do Amarante. Depois, em 1998, se desfiliou do PMDB e ingressou no PT, até 2002, quando mudou novamente de legenda, filiando-se ao PCdoB.
 
SINDICALISMO
 
No dia 18 de março de 1973, iniciou sua carreira no sindicalismo rural. O que o motivou foi a expulsão do seu irmão Etelvino da Marinha, em 1967, ao ser acusado de ser comunista. Então, sentindo-se indignado pelo fato de um membro de sua família ter sido injustiçado por questões políticas, Zé Ferreira resolveu seguir a carreira de sindicalista rural, sendo eleito delegado sindical de Igreja Nova, na primeira metade dos anos 70.
 
Em 1974, foi eleito 2º suplente na diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Gonçalo do Amarante. Três anos depois, em 1977, se tornou secretário da entidade. Profissionalmente, Zé Ferreira trabalhou na agricultura até 1977, pois suas atribuições como dirigente sindical exigia dedicação praticamente exclusiva. 
 
Em 18 de outubro de 1976, o sindicalista se casou com Antônia Macedo de Lima, com quem teve seis filhos: Josiano, Jair, Joilson, Jailton Reis, Josivan e Joseli Macedo de Lima.
No ano de 1981, foi eleito presidente, ficando no mandato até agosto de 1986. Em novembro daquele ano, foi eleito secretário-geral da Fetarn, sendo reconduzido por mais três mandatos. Em seguida, foi eleito por três vezes vice-presidente. No ano de 2004, assumiu interinamente a presidência da federação por seis meses, repetindo por igual período em 2008. 
 
A partir de 2005, passou a morar no Assentamento José Coelho da Silva, na Reta Tabajara. Ele trabalhava três dias na Fetarn, e os demais da semana, no seu lote de terra.
 
No início dos anos 1980, Zé Ferreira, como dirigente sindical de São Gonçalo do Amarante, se envolveu em vários conflitos em defesa dos direitos do homem do campo. Por conta disso, chegou a responder por quatro processos: acusação de ser comunista, ação de atentado, ação administrativa do Ministério do Trabalho, que exigia a perda do seu mandato de presidente, e, finalmente, uma ação de reintegração de posse impetrada contra ele sem ao menos ele ser posseiro na comunidade de Rio da Prata, em julho de 1982. 
 
Sobre este último episódio, Zé Ferreira relata que a Justiça de São Gonçalo mandara prender sete pessoas. Só que dezessete trabalhadores rurais foram presos em solidariedade aos colegas. Em seguida, dois ônibus lotados de manifestantes ocuparam a delegacia em solidariedade aos dezessete prisioneiros. E aí todos foram soltos. A luta, no entanto, gerou um saldo positivo: os trabalhadores rurais ganharam a questão e hoje são os donos das terras de Rio da Prata.
 
Zé Ferreira conta que também foi ameaçado de morte, em 1983, pelo capitão Barbosa, na Fazenda Guajiru, que reivindicava 36 hectares de terras que não eram dele. “Ele queria expulsar os posseiros da área ao afirmar que era dono apenas com uma planta e não com a escritura”, mencionou.
 
O sindicalista afirmou que também sofreu igual ameaça por parte do ceramista Francisco de Paiva Marques, dono da Fazenda Milharada, em 1990, porque queria expulsar 62 rendeiros da Fazenda Poço Verde, em São Gonçalo. “Ele comprou a fazenda com 62 rendeiros dentro e, desrespeitando o Estatuto da Terra, queria expulsar todos à bala”, revelou. 
 
Houve tiroteio entre as partes. Zé Ferreira destaca que neste conflito, o sindicato rural de São Gonçalo contou com o apoio da Igreja Católica, na figura do padre canadense Cleto.
 
Zé Ferreira já viajou para a Europa, em 2000, representando a Contag, numa missão internacional para constatar in loco a posição dos agricultores familiares na Europa para deliberar propostas no Merco Sul. Em 2003, recebeu o Título de Cidadão Macaibense. 
 
Para o deputado estadual Fernando Mineiro, Zé Ferreira foi um dos principais defensores da reforma agrária em nosso estado. “Ele dedicou a sua vida na luta pelos direitos dos trabalhadores rurais e do desenvolvimento da agricultura familiar. Foi uma importante liderança política do PCdoB e um dos fundadores da Central dos Trabalhadores do Brasil no RN (CTB-RN). Na Fetarn, chegou a ocupar os cargos de presidente, vice-presidente, secretário geral e, mais recentemente, de secretário de Política Agrária”.