Maya Falks lança livro sobre ditadura militar: “É importante falar, pois jamais poderá se repetir"

14/05/2022


Foto: Arquivo pessoal
Cefas Carvalho
 
Nascida em Caxias do Sul (RS) em 1982, a jornalista e publicitária Maya vem se destacando no cenário literário, tendo lançado livros elogiados como “Depois de Tudo”, “Versos e Outras Insanidades” e “Santário”. Recentemente lançou pela Editora Penalux o romance “Já não somos os mesmos” que fala de um tema delicado: a vida das pessoas durante a ditadura militar brasileira. Maya falou ao PN sobre o livro e sua trajetória literária. Confira:
 
 
Você está lançando "Já não somos os mesmos” um romance que se passa durante a Ditadura Militar brasileira e aborda temas delicados como tortura e prisões políticas. Como foi escrever essa história e qual a importância de abordar esse tema?
 
A dor, a melancolia, a perda, a falta e a loucura são temas universais, e são temas corriqueiros na minha obra, mas tenho por premissa sempre explorar tudo o que esses temas podem me oferecer. Há alguns anos li um livro do Marcelo Rubens Paiva em que ele conta o sentimento do pai dele, o deputado Rubens Paiva, vítima da ditadura, ao ver um grupo de adolescentes em frangalhos subindo, com dificuldade, a escada do avião que os levaria ao Chile como um acordo para libertação de “guerrilheiros” encarcerados como presos políticos. Aquela imagem descrita ficou na minha cabeça até que conversei com um professor que dá aula justamente sobre a Ditadura Militar. Esse professor comentou que um número gigantesco de jovens sem qualquer relação com grupos de resistência terminou nos porões unicamente para dar a impressão de que os “inimigos” estavam sendo tirados de circulação – leia-se: estudantes de humanas e artistas.
 
No livro, cada um dos quatro personagens centrais tem um perfil que corresponde aos jovens presos pra “cumprir cota”, do mais engajado politicamente à mais alienada, e foi justamente ela que escolhi como protagonista e narradora para mostrar que nenhuma inocência é garantia de liberdade dentro de um regime autoritário, até porque o cerceamento injustificável está entre as principais ações do autoritarismo.
 
Então nesse processo eu tinha todos os elementos e mais muitos outros para dar profundidade à Priscila. E tudo convergia a um período sombrio, como já tivemos tantos, a grande questão da Ditadura é que, quase 40 anos depois de seu fim, ela nunca deixou de bater à porta. A polarização – que também sempre existiu – se tornou uma bomba relógio com a ajuda da internet e, quando escrevi o livro em 2019, estávamos iniciando um governo assumidamente autoritarista.
 
Não nego que gosto muito de me desafiar no que escrevo, mas eu sempre procuro “vestir” a pele do personagem, o que é bom para o resultado final mas doloroso pra mim. Foi assim em “Histórias de minha morte também”. Priscila não tem nada a ver comigo; não há nela qualquer inspiração provinda da minha história, então “ser” ela já foi meu primeiro grande desafio. Obviamente não provoquei em mim as dores que ela sofre no livro, mas é preciso – fundamental – simular esses sentimentos de forma verossímil, é um processo tão doloroso quanto fascinante. No meu imaginário, Priscila se tornou um símbolo do horror e de tudo que jamais poderá se repetir. Essa é a importância de se falar sobre isso. Jamais poderá se repetir.
 
 O título remete a uma canção de Belchior, “Como nossos pais”. A música é uma influência literária para você?  
 
Não exatamente. Na verdade a maioria dos meus livros tem uma trilha própria que me traga algum elemento importante na construção da narrativa. Geralmente é a melodia, por isso costumo ouvir muita música clássica.
 
No caso de “Como nossos pais”, é uma música que sempre me emocionou muito. A descobri criança porque Elis tinha o cabelo parecido com o da minha mãe, que inclusive adora “O bêbado e a Equilibrista”, de autoria de Aldir Blanc e João Bosco e cantada por ela, mas era mesmo “Como nossos pais” que mexia muito comigo. Não a escutava há muito tempo, mas sabia que tanto Elis quanto Belchior eram contrários ao regime e imaginei que ali poderia ter algum elemento interessante. Foi aí que veio um debate comigo mesma: como assim, “ainda somos os mesmos” se os jovens idealistas foram torturados? E assim o nome do livro virou minha resposta, é impossível permanecer a mesma pessoa depois de tudo aquilo.
Voltei a escutar a música somente com o livro pronto.
 
Durante a pandemia você lançou “Santurário” (Macabéa Edições) e “Eu também nasci em asas” (Telucazu) e escreveu ainda  “Pedaços que vejo no espelho”. Como foi essa produção em temos de confinamento? E em que os livros dialogam uns com os outros?  
 
Santuário escrevi em janeiro de 2019, então acaba que ficou mais distante da realidade pandêmica – Já não somos os mesmos foi mais perto porque foi mais pro final do ano. Eu também nasci sem asas e Pedaços que vejo no espelho foram durante a pandemia, mas a escrita deles aconteceu sem nenhuma diferença com o restante dos livros. Embora eu seja uma pessoa muito sociável, eu praticamente nunca saio de casa, o que faz com que o isolamento social seja rotina pra mim,
 
Sobre diálogo, essa é a parte que eu mais gosto: em nada. Dois são poemas longos e é só nisso que eles se assemelham, porque nem a estrutura estética deles se parece. Não sei se é uma virtude ou um defeito, mas, pelo menos por enquanto, todos os meus livros trazem temas pesados, doloridos, e mesmo assim são muito diferentes um do outro. Isso inclui os outros dois que estão na fila de publicação.
 
Segundo Eurídice Figueiredo sobre seu livro, "esquecer o passado recente do país, não podemos compactuar com as forças retrógradas que enaltecem os torturadores e querem impor a desordem e destruir a democracia. Escrever é um ato de resistência e a força da escrita poética reside no seu caráter transgressivo. Às vezes é preciso chocar para abalar os alicerces da inércia do conservadorismo". Essa era a intenção da obra, provocar choques em quem lê?  
 
Era. Não tem como falar de tortura de forma doce, suave. Não descrevo tudo o que a personagem enfrenta, mas descrevo bastante. Precisava disso. Eu sei que pode parecer estranho dizer isso, mas descrever pelo menos um pouco é uma questão de respeito com os jovens que passaram por aqueles porões. A gente cria mais empatia com aquilo que dói na gente. Testei essa ideia no Histórias de minha morte e vi que o retorno foi o que eu desejava: pessoas se sentindo representadas e outras, pela primeira vez, entendendo o sofrimento de uma mulher vítima de violência. 
Podemos falar o quanto quisermos sobre o quanto a ditadura foi violenta, destruiu futuros e famílias, causou sofrimento e mortes, mas viram só palavras ao vento se você não fizer o leitor ou expectador se sentir parte daquilo. 
 
Não é o choque pelo choque, nada ali foi colocado apenas para estar ali – esse jamais será meu foco, o sensacionalismo eu deixo para os veículos especializados. O que eu quero é que o leitor feche o livro sabendo que algo em si mudou, que houve uma transformação e que ela servirá para aumentar o coro contra todas as formas de opressão. 
 
Você recebeu em 2021 o Prêmio Literário Vivita Cartier. Como avalia ter recebido esse reconhecimento e qual a importância dos prêmios literários?
 
O Vivita foi não apenas uma grata surpresa, mas uma alegria imensa. Por incrível que pareça eu vendo mais livros em Manaus do que aqui onde nasci e vivo, em Caxias do Sul, no RS. Tenho, claro, bons leitores por aqui assim como sou leitora que autores locais, mas nunca me senti realmente parte do cenário literário local.
 
Quando recebi a ligação da Biblioteca Pública com a notícia do prêmio, fiquei muito emocionada. É um prêmio regional, pode não ter a mesma importância de um Jabuti ou outros do mesmo nível, mas é um prêmio justamente no lugar onde tudo começou e onde eu sempre me julguei excluída. É um reconhecimento que vale muito.
 
Com relação aos prêmios em geral, aqueles que não são super badalados são um ótimo ensaio. Digo isso porque perder não diz muita coisa sobre a qualidade do texto, muitas vezes nem ganhar é garantia de qualidade, mas faz bem pro ego quando a gente está lá na base da cadeia alimentar da literatura e ninguém dá a mínima pra gente, é um incentivo para continuar.
 
Já os “grandões”, eu quis acreditar por muito tempo que eles eram legais mas não fundamentais. Bom, pra produção literária não são mesmo, mas pra sobrevivência muda tudo. Falando por mim, que vivo de pequenos serviços literários que ofereço e venda de livros: uma pessoa premiada vende dezenas de livros em um mês, eu vendo um, se tiver sorte. Em tempos de crise, um iniciante prefere pagar uma aula de escrita criativa de $ 500 de um premiado do que de $ 120 minha. Leitura crítica é a mesma coisa, já vi gente pagando mais de mil por leitura enquanto o valor mais alto que cobrei até hoje foi de $ 350 por causa do tamanho do livro. Mesma coisa com convites para palestras com cachê, raramente acontece comigo
Economicamente falando, a ausência de um prêmio de grande porte no meu currículo tem feito um grande estrago. O que eu vejo é que as pessoas estão com dinheiro contado e acabam optando por contratar serviços mais caros, mas que julgam “mais garantido”; digo isso porque, apesar de tudo, 2020 foi um ano incrível pra mim, ministrei muitas oficinas, tanto avulsas quanto em grupo, e cheguei a ter fila de originais para leitura crítica.
 
Você faz resenhas de livros e é leitora crítica além de fazer oficinas literárias. Como funcionam essas atividades paralelas a ser escritora?
 
Se complementam muito. Tudo é troca; quando estou dando aula, as vezes a pergunta de um aluno é algo que eu nunca tinha pensado antes e passa
a ser algo que eu posso incorporar nos serviços ou na minha escrita.
 
No caso da resenha e da leitura crítica, também aprendo muito com o que cada autor traz, além de enxergar mais fácil os erros – se aquele autor cometeu, eu posso ter cometido também. Isso me deixa muito mais alerta sobre o que eu produzo. 
 
Sempre dizemos que ninguém se torna um grande escritor sem ser um grande leitor. É verdade, mas essa frase peca em falta de profundidade; somente ler um livro não é o bastante, é preciso entrar naquela história como se fosse sua, se entregar ao livro lido. É assim que nossa própria intuição se encarrega de nos mostrar os picos da obra – aqueles que queremos subir e aqueles que estão nos ferindo e queremos descartar.
É isso que faço para resenhas e leitura crítica: o livro não é meu, mas eu sou dele.
 
 Quais seus próximos projetos literários?
 
Muitos, muitos, muitos! Na realidade tem gente que brinca comigo pelo meu excesso de produção, mas pela quantidade de ideias que eu tenho, deveria ter uma produção muito maior.
 
No momento tenho uma novela em avaliação, um poema longo rimado previsto para o final do ano, um livro reportagem para o ano que vem, um livro de poemas já na mira de uma editora, um romance iniciado em 2019 mas ainda esperando o fim, um romance de terror cômico aguardando sua vez desde 2016, um romance político aguardando sua vez desde 2014 e o que eu teoricamente estou trabalhando agora. Talvez amanhã essa lista aumente, tudo é um mistério nessa minha cabeça efervescente.