Em Cabo Verde / África, planear a educação no contexto de crise

02/08/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (Universidade do Minho)
Foto: Dra. Maria de Lourdes Monteiro Pereira (Ministério da Educação - Cabo Verde/África)

De Cabo Verde / África, Maria de Lourdes Monteiro Pereira Diretora da Unidade de Avaliação e Planejamento do Ministério da Educação da República de Cabo Verde  fala sobre planeamento da educação em contexto de emergência da Covid-19

Entrevista internacional concedida por Maria de Lourdes Monteiro Pereira ao portal de jornalismo Potiguar Notícias. A entrevistada é Pós-graduada em Pilotagem e Avaliação dos Sistemas Educativos pela Universidade Cheikn Anta Diop de Dakar (Senegal), e licenciada em Gestão e Planeamento da Educação pelo Instituto Superior da Educação (ISE) de Cabo Verde, um dos Institutos que deu origem a atual Universidade de Cabo Verde (Uni-CV). Reside na cidade da Praia, capital do País, localizada na ilha de Santiago. Trabalha no Serviço de Estudos, Planeamento e Cooperação do Ministério da Educação de Cabo Verde, onde é Coordenadora da Unidade de Avaliação e Planeamento. Nesta entrevista fala sobre o processo de planear em educação, e muito em particular do desafio de planear em contextos de crise, onde se “tem que redefinir, reinventar e redescobrir. Uma coisa é planificar incertezas quando consideramos que estamos certos do que queremos e de onde queremos chegar, mas outra, bem diferente, é planificar incertezas em um contexto global de incerteza”. Aborda as respostas tomadas no setor da educação em Cabo Verde face à pandemia da Covid-19, e de todos os desafios ultrapassados, entende que o “mais importante foi o resgate dos valores familiares. O confinamento permitiu resgate de valores, tais como preparar juntos uma refeição, fazer as refeições no mesmo horário, brincar juntos, ter mais tempo para diálogo e valorizar mais o trabalho dos professores”.

1. Temos conhecimento que é a coordenadora da Unidade de Avaliação e Planeamento do Ministério da Educação da República de Cabo Verde, assim, considerando sua experiência pode falar-nos do que faz uma gestora de planeamento da educação?

Planear, por si só é construir cenário e gerir incertezas, porque o futuro não se conhece. Primeiramente, pensar e raciocinar rápido, diagnosticar e analisar situações, propor ações concretas, avaliar estratégias e criar sinergias. É muito gratificante para um profissional saber que a realização das suas atividades diárias contribui de alguma forma para o desenvolvimento do país como Cabo Verde, que faz parte de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (PEID), e que vem lutando para a melhoria da educação. Essas atividades desenvolvidas na sua maioria em equipe, têm colaborado na definição de medidas de políticas educativas. Os consensos são muitas vezes difíceis de se conseguir, e em alguns casos nem se chega a alcançá-los, mas o foco é sempre na meta de uma educação alinhada com um dos objetivos da Agenda 2030, que é: “Não deixar ninguém para trás”.

2. Se planear é construir cenários e gerir incertezas, estimo que perante a emergência da Covid-19 os desafios foram muitos. Como planear em educação perante contextos de crise, quais os principais objetivos e medidas a tomar?

Um planificador pode desenvolver as suas atividades normalmente em um ambiente de certeza e com recursos necessários disponíveis. No entanto, a UNESCO, tem alertado os governos, particularmente os ministérios da educação, ao longo desses anos pela importância do planeamento da educação em situação de emergência. Esse aspecto, ainda pouco desenvolvido por muitos países, constitui o quinto objetivo do Marco de Ação de Dakar (2000), em que os governos, se comprometeram a: “satisfazer as necessidades de sistemas educacionais afetados por situações de conflito, calamidades naturais e instabilidade e conduzir os programas educacionais de forma a promover compreensão mútua, paz e tolerância, e que ajudem a prevenir a violência e os conflitos”. Esse objetivo, que se baseia exclusivamente nos direitos das crianças em situação de emergência, exige que os planos nacionais de “Educação para Todos” incluam provisão para educação em situações de emergência. Cabo Verde passou pela primeira vez pela situação de educação em emergência gerada pela pandemia de Covid-19.

3. Então, como deve atuar um gestor de planeamento numa situação nacional de emergência, como essa imposta a Cabo Verde e ao mundo, de uma maneira geral, motivada pela covid-19, visto que a pandemia é global?

Tem que redefinir, reinventar e redescobrir. Uma coisa é planificar incertezas quando consideramos que estamos certos do que queremos e de onde queremos chegar, mas outra, bem diferente, é planificar incertezas em um contexto global de incerteza. Na planificação aprende-se a planear com base em tendências e metas a alcançar, mas no contexto atual não podemos basear-nos em cenários tendenciais, pois vivemos um “novo normal”.

De facto, já houve muitas pandemias, surtos de doenças, calamidades naturais, guerras devastadoras e crises económicas ao longo da história e o homem soube sempre ultrapassar e dar um salto em frente. O mundo já conheceu várias pandemias mortíferas tais como: peste bubónica, varíola, cólera, gripe espanhola e gripe suína, e outras como HIV, ébola, zika, sarampo, etc., todos estes vírus continuam a existir mas há vacinas e tratamentos médicos específicos. O ser humano tem capacidades enormes de resiliência. Muitas inovações tecnológicas de hoje provêm de ideias e processos de transformação desenvolvidos ao longo dos tempos. É dessa transformação que precisamos, de sair da zona de conforto que nos impede de ver novas oportunidades para a educação.

4. Pode falar-nos das respostas tomadas no setor da educação em Cabo Verde face à pandemia da Covid-19?

  A 26 de março foi decretado o estado de emergência. Neste contexto, era necessário que os planificadores fossem resilientes. Não obstante a crise pandémica que se viveu e que ainda se vive, foi possível desenvolver medidas/estratégias assertivas que ajudaram a “mitigar” a situação. Aproximadamente em dois meses, Cabo Verde desenvolveu instrumentos importantíssimos para que o Setor da Educação desse resposta à Pandemia de Covid-19, de entre as quais: i) O Plano de ação de resposta aos efeitos da Covid-19 que permitiu a elaboração do Documento - Financiamento Acelerado de Resposta à Covid-19 (FAR-CV); ii) O desenvolvimento do Programa “Aprender e Estudar em Casa”, para além de várias outras ações desenvolvidas que foram oportunidades interessantes, umas novas e outras já existentes, mas que, no entanto, não tinham sido ainda implementadas.

Um outro desafio foi conciliar a família, o trabalho e a educação dos filhos durante o confinamento. No início foi um bocadinho complicado: i) trabalho a partir de casa (teletrabalho), ii) gestão familiar, iii) acompanhamento da aprendizagem dos filhos (tele aulas), iv) tarefas domésticas, entre outros.

A acrescer a esta situação, houve várias solicitações profissionais e encontros virtuais. O recurso ao teletrabalho “obrigou” ao uso de tecnologias para poder dar resposta aos desafios da educação. Constituiu também desafio suportar o aumento dos gastos com a Internet, o acompanhamento dos filhos nos trabalhos enviados pelos professores, webinars entre professores e alunos.

5. Para concluir esta entrevista, dentre esses inúmeros desafios que elencou, é referir o que mais se destacou e como foi ultrapassado?

De todos os desafios ultrapassados, o mais importante foi o resgate dos valores familiares. O confinamento permitiu resgate de valores, tais como preparar juntos uma refeição, fazer as refeições no mesmo horário, brincar juntos, ter mais tempo para diálogo e valorizar mais o trabalho dos professores.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Dra. Maria de Lourdes Monteiro Pereira (Ministério da Educação - Cabo Verde/África)