Criatividade e educação: reflexões sobre aprendizagem e desenvolvimento humano

26/07/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (Universidade do Minho)
Foto: Dr. Fábio Araújo (IFRN)

Entrevista com o Professor Doutor Fábio Araújo sobre “criatividade, aprendizagem e desenvolvimento humano

Entrevista concedida pelo Professor Doutor Fábio Araújo, pesquisador sobre processos cognitivos e criatividade, ao portal de jornalismo Potiguar Notícias. O entrevistado é professor dos cursos de graduação e de pós-graduação do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e fala sobre a importância da dinâmica criativa para a experiência escolar. A sua reflexão sobre a criatividade sinaliza que está superada a sua crença no enfoque biológico, que deve ser evitada a permanente rotina repetitiva na escola e que é fundamental valorizar a diversidade, o dinamismo e o movimento dos ambientes de aprendizagem.  

1. O Professor Fábio Santos é pesquisador sobre a criatividade enquanto atividade que compõe o processo cognitivo humano. Em seu entender, quais as características da aprendizagem criativa no contexto escolar?

O potencial criativo consiste em uma disposição mental exclusivamente humana. Os estudos atuais sobre a criatividade caminham na direção de uma perspectiva integradora que considera a importância de múltiplos fatores para o desenvolvimento criativo. Como pesquisador que investigo sobre processos cognitivos entendo que a compreensão sobre criatividade requer um exercício complexo que convida a pensar para além da formulação e da solução de problemas, sendo necessário considerar também fatores mentais, culturais, emocionais, afetivos, históricos, sociais, entre outros, que envolvem os sujeitos em situação de aprendizagem.

2. No campo da Educação está superada a ideia de que a criatividade consiste em um dom vocacional ou em uma habilidade mental pertencente apenas aos gênios. Concorda com este pensamento?

Associar a criatividade a um benefício mental possuído por alguns poucos sujeitos eleitos é uma crença inatista, segregadora e excludente. É essencial que a escola e a sociedade reconstruam essa ideia para que se alcance o desenvolvimento de sujeitos de forma irrestrita. A criatividade não nasce do “vácuo”, não é algo divino e nem algo sem intencionalidade. A escola é o contexto ideal para a sua estimulação e produção, desde que mediações e ambientes de aprendizagens sejam disponibilizados para isso.

3. De maneira acessível, como é possível explicar o sentido da criatividade?

Todos nascem com a vontade de se transformar, e de transformar o contexto social e cultural em que vivem. A criatividade, atualmente, significa um produto da mente humana, elaborado a partir da capacidade do sujeito produzir algo novo e original considerando os seus desafios anteriores. O ato de criar em circunstância de atividade estimula à “resolução de problemas e exige diversas capacidades como a sensibilidade aos problemas, fluidez, flexibilidade, originalidade, redefinição e elaboração”.

4. Quando acontece aprendizagem criativa?

Existe aprendizagem criativa sempre que o estudante imagina, significa, combina, modifica e cria qualquer plano ou artefato novo, por mais insignificante que a novidade possa parecer se comparada com as realizações dos grandes teóricos da história da ciência. O lego, por exemplo, é bastante utilizado para o desenvolvimento mental de crianças.

5. Como a escola pode se organizar para se configurar numa instituição criativa?

Pensar em um ambiente escolar de aprendizagem criativa é valorizar a convergência de fatores específicos, porém, interrelacionados como a inteligência, estilos intelectuais, conhecimento, personalidade, motivação e o contexto ambiental. Significa valorizar múltiplas funções mentais do indivíduo e também diversidades de contexto da mediação. O contato pedagógico com experiências diversificadas favorece a qualidade de ideias e a organização do pensamento dos aprendentes. Por exemplo, aulas fora do ambiente escolar, também aulas no formato híbrido, estimulam os alunos e contribui para o aprendizado.

6. É complicado o alcance pedagógico da aprendizagem criativa?

Não considero complicado, considero um trabalho complexo e possível. É fundamental que o trabalho docente não se limite a reproduzir factos, memórias ou impressões vividas, mas que permita criar novas imagens, novas ações, fazendo coletivamente emergir a função criadora ou combinatória na aprendizagem escolar. Por exemplo, propor a alunos que resolvam jogos e desafios em atividade de grupos.

7. Qual a relação entre interação, sociabilidade e criatividade?

O processo interativo é o grande responsável pelo fato de o sujeito poder criar. Outro ponto a se considerar é que o ser humano elabora o seu potencial criador através do trabalho ao realizar tarefas essenciais à vida. Afirmar que a criação se desdobra no trabalho significa estimular na escola o fazer intencional, produtivo e necessário que amplia a capacidade de adaptação e de vida.

8. Que referenciais bibliográficos, sobre criatividade, recomenda a quem deseje ampliar o conhecimento sobre a problemática abordada nesta entrevista?

Deixo aqui alguns desses referenciais que julgo relevantes e úteis a quem deseje ampliar o seu repertório de conhecimento sobre criatividade:

ALENCAR, E. M. L. S.; FLEITH, D. S. Barreiras à promoção da criatividade no ensino fundamental. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 24, n. 1, p. 59-65, 2008.

CSIKSZENTMIHALYI, M. Creativity. Nova York: Harper Collins, 1996.

GUILFORD, J. P. The nature of human intelligence. Nova York: McGraw-Hill, 1959.

MARTÍNEZ, A. M. MARTÍNEZ, A. M. (Org.) O outro no desenvolvimento humano. São Paulo: Thomson, 2004.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 13a ed., Petrópolis: Vozez, 2001.

SANTOMÉ, Jurgo Torres. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Trad. Cláudia Schilling. Porto Alegre: Editora Artes Médicas Sul Ltda., 1998.

STERNBERG, R. J. Excellence for All. Education Leardeship, v. 66, n. 2, p. 14-19, 2008.

STERNBERG, R. J. Handbook of creativity. Cambridge, USA: Cambridge University Press, p. 3-15, 2005.

VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

VYGOTSKY, L. S. Imaginação e criação na infância: ensaio psicológico: livro para professores. Tradução de Zoia Prestes. São Paulo: Ática, 2012.

9. Que mensagem de entusiasmo pode deixar para os leitores do Potiguar Notícias?

É possível desenvolver a aprendizagem criativa no contexto escolar. Para isso é preciso compreender que o homem é uma “totalidade aberta” e que o seu cérebro é um órgão capaz de múltiplas funções (armazenar, reproduzir, criar, combinar e produzir conhecimento) que devem ser estimuladas para o desenvolvimento do pensamento criativo. Está superada a crença da criatividade no enfoque biológico. Está ultrapassado o quadro permanente da rotina repetitiva.  É fundamental valorizar a diversidade, o dinamismo e o movimento dos ambientes de aprendizagem. É a atividade criadora que faz a humanidade ser projetada para o futuro.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias (https://www.potiguarnoticias.com.br/) integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e impacto social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br. O link do Projeto de extensão e desta publicação também será socializado por meio do portal eletrônico do PPGEP/IFRN (https://portal.ifrn.edu.br/ensino/ppgep/paginas/entrevistas), bem como, por meio do portal eletrônico da Faculdade FAMEN (https://www.editorafamen.com.br/entrevistas/).  

 

 

Fonte: Dr. Fábio Araújo (IFRN)