Desafios da Educação a Distância e E-Learning em Moçambique: um Sonho Possível

23/07/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento SIlva (UMinho)
Foto: Dr. Dionísio Luís Tumbo (Universidade Pedagógica de Maputo)

 

Entrevista Internacional com o Doutor Moçambicano Dionísio Tumbo sobre “Desafios da Educação a Distância e E-Learning em Moçambique: um Sonho Possível”

Entrevista internacional concedida por Dionísio Luís Tumbo, Doutor em Ciências da Educação – Especialidade em Tecnologia Educativa pelo Instituto de Educação da Universidade do Minho, em Braga/Portugal, ao portal de jornalismo Potiguar Notícias. O entrevistado é professor da Universidade Pedagógica de Maputo, em Moçambique, e fala sobre os desafios da Educação a Distância e E-Learning no suporte da educação domiciliar em Moçambique em tempos de pandemia, terminando a sua reflexão com a esperança que este tempo e experiência educativa sejam uma oportunidade para concretizar um sonho possível de uma educação à altura dos desafios do século XXI.

Os Desafios da Educação a Distância e E-Learning no suporte da Educação Domiciliar em Moçambique em tempos de pandemia: um sonho possível

1. Inicialmente, seria possível uma boa descrição sócio-política sobre o país Moçambique?

Moçambique, um dos mais jovens países independentes do continente africano (contando já com 45 anos de independência total e completa, como dizia Samora Moisés Machel, primeiro presidente do país), dispõe de uma área de 799.380 Km2, distribuída em 786.380 Km2 de terra firme e 13.000 Km2 de águas interiores, uma população de 27.909.798 habitantes (senso de 2017) distribuídos em 6.746.496 agregados familiares vivendo em 6.529.877 casas (dados do anuário de 2018).

2. Como avalia os impactos da covid-19 em seu país?

Moçambique, à semelhança de outros países do mundo, está afetado pela pandemia de COVID 19, registando, a 21 de julho de 2020, 1.536 casos. As províncias nortenhas de Nampula e Cabo Delgado, com maior número de pessoas infetadas, 372 e 394 respetivamente, já transitaram de focos de transmissão para transmissão comunitária segundo protocolos da Organização Mundial de Saúde. Vale salientar que a situação epidemiológica do país aponta para maior concentração de casos de infeção em grupos etários, situados entre cinco a 50 anos, com maior incidência entre 20 e 40 anos (66%; n=1011 casos). Note-se que se trata de população potencialmente inscrita no Sistema Nacional de Educação.

3. Como a educação de Moçambique se configurou a partir da confirmação do contágio do coronavírus no território?

Em Moçambique, após o registo do primeiro caso positivo para COVID-19, em 22 de Março, o Presidente da República ordenou imediatamente (no dia 23) o encerramento de todas as escolas públicas e privadas, do ensino pré-escolar ao ensino superior, seguido da Declaração do Estado de Emergência, por 30 dias, em 29 de Março, prorrogado três vezes, sendo a última até 28 de Julho.

4. E que foi feito face a esse encerramento das escolas?

Para dar continuidade às ofertas formativas, as Instituições adotaram, unilateralmente e sem devido preparo dos alunos e professores, os estudos domiciliares apoiados por diversas mídias e tecnologias de comunicação.

5. Há quem use o conceito de Ensino Remoto para caraterizar essa transição do presencial para estudos domiciliares, também se pode adotar esse conceito para o que sucedeu em Moçambique?

Nesta conformidade, o Ensino Primário enveredou por Ensino por Correspondência e mais tarde a Teleducação, inaugurando na história o conceito de Ensino Remoto (ER) marcada pela disruptiva migração do Ensino Presencial para o Ensino a Distância (EaD). Note-se que o Ensino por Correspondência, enquanto primeira geração tecnológica da EaD, para além de representar um retrocesso de cerca de dois séculos, expõe fortemente os pais (encarregados de educação) nos já escassos meios de transporte, em sua mobilidade bidirecional casa-escola para o levantamento e devolução dos suportes formativos analógicos, estruturados em textos, blocos de apontamentos e fichas de exercícios, acrescidos de falta de interação entre os atores educativos (professores e alunos) na lógica de comunicação de massas.

6. O Ministério de Educação de Moçambique estabeleceu algumas parcerias com outras instituições moçambicanas para apoiar nesse Ensino Remoto?

As disparidades verificadas, em escolas espalhadas por todo país, na adoção destas tecnologias de comunicação, levaram o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano a conectar-se a outros parceiros, nomeadamente a Rádio e Televisão, para complementar a mediatização de conteúdos em Monomédia Impresso por Rádioaulas e Teleducação, ainda na mesma senda de pedagogia de massas, na lógica de comunicação de “um para muitos”, onde abunda ausência da interação e dificuldades na avaliação das aprendizagens em termos de progresso dos alunos. Ademais, a experiência das emissões radiofónicas e televisivas mostra-se excludente para alunos imersos em pobreza urbana e rural vivendo em agregados familiares desprovidos de sinal de rádio, televisão e corrente elétrica.

7. Falou-nos já da forma como foi feita a transição no Ensino Primário e no Ensino Secundário, correspondente ao Ensino Médio no Brasil? Foi um processo idêntico ou houve singularidades?

No caso particular do Ensino Secundário, os estudos domiciliares em tempos de crise demandaram a eleição da Teleducação e E-Learning. O Ministério da Educação, para garantir a assistência às aulas e alcançar o maior número de alunos que viu serem interrompidas as aulas presenciais, optou pela Telescola com 14 horas de transmissão por dia. Em complementaridade, aptou-se pela distribuição e mediatização de conteúdos por tecnologias telemáticas, com adoção da plataforma e-learning do Instituto de Educação Aberta e a Distância na qual foram alojados módulos auto-instrucionais com conteúdos e fichas de trabalho de todas disciplinas dos dois ciclos que compreendem o Ensino Secundário Geral (ESG). Em nosso entender, esta foi uma estratégia acertada, pois os alunos deste nível situam-se na faixa etária de 13 a 17 anos, já a atravessar a fase de adolescência, com pouca preferência pela TV a favor da Internet e dispositivos digitais em rede (smarphone, tablets e computadores), por serem nativos digitais como nos fez saber Marc Prensky há quase duas décadas no seu texto “Digital Natives, Digital Immigrants” (publicado em outubro de 2001).

8. Houve então recursos a plataformas e-learning, contexto mais próximo de uma Educação a Distância mais avançada, correspondente aos tempos da cibercultura. Existem, em Moçambique, para que este contexto seja possível, esteja democratizado?

Este novo cenário sociotécnico, já típico do fenómeno da cibercultura, parece-nos ainda uma utopia para ser generalizado em Moçambique, mesmo para o caso de Ensino Superior que optou pela distribuição e mediatização de conteúdos no ciberespaço, através de Ambientes Virtuais de Aprendizagem (Plataformas Moodle, Google Classroom, Zoom, Skype e Google meeting, WhatsAAp entre outros). Dizemos ser uma utopia devido à prevalência de várias variáveis com forte constrangimento, a exemplo da divisão digital primária (associada à posse de dispositivos de informática e das telecomunicações) e à divisão digital secundária (referente à literacia digital necessária para operar com e no digital através dos artefactos da cultura digital), bem como o custo dos esquipamentos, a potência e índice de penetração da Internet (os dados do Censo populacional de 2017 revelam que 1.607.085 habitantes (6,6%) são usuários da rede de internet), aliadas, ainda, à debilidade de infraestruturas tecnológicas que não garantem serviços de help desk, funcionamento da plataforma adotadas 24hX7dias, falta de formações para a docência online e desconhecimento de aplicações e ferramentas para aprendizagem colaborativa em rede.

9. Em seu entender, o que fazer para que essa utopia se converta em realidade?

Para que seja uma utopia viável há que desenhar esse futuro, e este tempo e experiência educativa podem ser uma oportunidade ímpar para concretizar esse sonho. Daí que seja este também o momento de retornarmos a Paulo Freire, ao seu pensamento no livro Pedagogia dos Sonhos Possíveis (2001, p. 86) onde releva a potência do sonho e da utopia para projetar o amanhã:

“Não há amanhã sem projeto, sem sonho, sem utopia, sem esperança, sem o trabalho de criação e desenvolvimento de possibilidades que viabilizem a sua concretização. O meu discurso em favor do sonho, da utopia, da liberdade, da democracia é o discurso de quem recusa a acomodação e não deixa morrer em si o gosto de ser gente, que o fatalismo deteriora”.

10. Para encerrar, uma mensagem de entusiasmo para os moçambicanos e, de forma extensiva, para os brasileiros.

Que haja, em Moçambique, e também no Brasil, a vontade e a capacidade para projetar o amanhã de uma Educação à altura dos Desafios do Século XXI, que mais complexos se tornaram com os impactos provocados por este vírus na sociedade, em geral, e na educação, em particular.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias (https://www.potiguarnoticias.com.br/) integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e impacto social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br. O link do Projeto de extensão e desta publicação também será socializado por meio do portal eletrônico do PPGEP/IFRN (https://portal.ifrn.edu.br/ensino/ppgep/paginas/entrevistas), bem como, por meio do portal eletrônico da Faculdade FAMEN (https://www.editorafamen.com.br/entrevistas/).

 

Fonte: Dr. Dionísio Luís Tumbo (Universidade Pedagógica de Maputo)