Impacto no Currículo para o Ensino de Física com as novas Políticas Educacionais

04/07/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Francinaide Silva (IFRN)
Foto: Boniek Venceslau da Cruz Silva (UFPI)

 

Impacto no Currículo para o Ensino de Física com as novas Políticas Educacionais

Entrevista concedida pelo Professor Dr. Boniek Venceslau da Cruz Silva, ao portal de jornalismo Potiguar Notícias. O pesquisador da Universidade Federal do Piauí (UFPI) fala sobre “os impactos das novas políticas educacionais destinadas para o ensino médio para o currículo e para o ensino de física”. O entrevistado atua no curso de Ciências da Natureza da UFPI, onde ministra disciplinas de Física e disciplinas da área de ensino de Ciências. É pesquisador sobre as concepções de ciências de alunos dos variados níveis de ensino.

1. A principal crítica ao documento Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio brasileiro se refere a sua natureza prescritiva e ao seu conteúdo homogêneo, muito evidente sobretudo no documento para o Ensino de Física. Qual a sua análise sobre esta crítica?

Eu acredito que essa visão prescritiva e homogênea; acrescentaria, também, de natureza normativa, é espelho dos seus formuladores e do objetivo que a BNCC visava atingir, ou seja, uma característica universal. Contudo, não sei até que ponto um currículo universal, com visão normativa e impositiva, é viável para um Brasil continental de diferenças abissais. Temos que lembrar como chegaram às outras “novidades” (Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN e Orientação Curricular Nacional - OCN) na sala de aula, sem maiores discussões e preparação para os docentes. Por fim, como pesquisadores destacamos que antes de prescrever um currículo é imprescindível instrumentalizar o professor para o manejo com o mesmo.

2. O fato de uma proposição de currículo básico por meio da BNCC para o ensino médio ter incidido na “Reforma do Ensino Médio”, em sua avaliação foi um movimento de coincidência ou com intencionalidade?

Não podemos falar em coincidência com os grupos que tomaram a frente da elaboração da BNCC, após Abril de 2016, no Brasil. Acredito que foi pensado, mesmo que a reboque de reformas de outros documentos, que eram divergentes da concepção da BNCC e da Reforma do Ensino Médio, como, por exemplo, as Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores de Física e, em certo grau, a própria LDB. Com uma leitura crítica e mais atenciosa dos dois documentos podemos observar semelhanças de referenciais teóricos de naturezas neoliberais e tecnicistas, que, de certa forma, sustentam filosoficamente os dois documentos. No quesito da predefinição, fica clara a aproximação dos dois. Tomando, por exemplo, as 1800 horas de conteúdos científicos, que a Reforma do Ensino Médio propôs; necessitávamos de uma mudança nos componentes curriculares no campo das Ciências da Natureza na ponta do iceberg (a sala de aula). Essa ligação com a BNCC ficou clara com o suposto desaparecimento de disciplinas como Física, Química e Biologia, com destaque da quase exclusão (na verdade uma diminuição bastante evidente em comparação aos PCN) dos conteúdos de natureza histórica, sociológica e epistemológica dessas Ciências, possibilitando uma formação mais deficitária destes componentes, principalmente do ponto de vista crítico, sociológico, filosófico e cultural das Ciências da Natureza. Assim, essas mudanças visam conduzir os estudantes para um novo Ensino Médio, ou seja, um ensino mais tecnicista, em que o aluno necessita desenvolver competências e habilidades para a execução (na verdade um treinamento) para exames de ingresso para o ensino superior. É claro que essa lógica de novo Ensino Médio, atrelada a BNCC, irá dificultar a inserção de estudantes de classes menos favorecidas ao ensino superior, pois terão um menor acesso aos conteúdos e, por conseguinte, devido às diferenças econômicas, não poderão aprofundar os seus estudos.

3. Como você analisa a organização da BNCC quanto ao aspecto eixos temáticos por competências e habilidades para o Ensino de Física?

É importante contextualizar que houve uma mudança na organização da BNCC, principalmente no campo da Física. Na primeira versão, existia a noção de objetivos de aprendizagem, nos quais os formuladores da BNCC apresentavam exemplos, com conteúdos e propostas de metodologias de ensino, de como o professor poderia trabalhar nessa perspectiva. Na segunda versão, esses exemplos sumiram, pois somente o grupo da Física trabalha dessa forma, mas a noção de objetivos de aprendizagem continuava e era bastante conectado com as pesquisas no campo de ensino de Física. Na última versão, foi abandonada a noção de objetivos da aprendizagem e adotada a noção de competências e habilidades, que vem sofrendo fortes críticas da área, há pelo menos uns 20 ou 30 anos. Contextualizando historicamente, eu vejo um problema de natureza instrumental, os professores não foram formados para tal iniciativa, pois ela já sumiu dos cursos de formação há algumas décadas. Assim, é preciso, também, uma mudança nos cursos de formação antes de se pensar em organizar eixos por competência e habilidade, principalmente porque elas trazem à tona a noção de interdisciplinaridade, pouco conhecida pelos professores e, de certa forma, o coração e o cérebro da BNCC bem como do projeto de Reforma do Ensino Médio.

4. A partir da promulgação da BNCC para o Ensino Médio, como devemos avaliar a formação dos professores para área de Física?

Eu acredito que a BNCC está fortemente ligada ao projeto de Reforma do Ensino Médio. Eu não consigo enxergar a imagem do professor de Física, claramente, nessa reformulação, mesmo porque esta disciplina não passará a ser mais obrigatória. A BNCC é de natureza interdisciplinar, logo requer que o professor de Física faça conexões com outros campos das Ciências da Natureza. Ela requer o olhar mais generalista de fenômenos e não especializado como temos nas nossas disciplinas de Ciências da Natureza atuais. Logo, o professor de Física deverá ser repensado e esse papel, o qual  acredito que será bastante manchado de discussões, caberá a quem? Haja vista, na formação da BNCC, os especialistas foram, sorrateiramente, retirados do processo.

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Boniek Venceslau da Cruz Silva (UFPI)