Makers Mudam o Mundo e Reinventam a Escola

23/06/2020

Por: Andrezza Tavares & Bento Silva
Foto: Adriana Aleixo

     Entrevista internacional concedida por Adriana Aleixo, Doutoranda em Ciências da Educação, especialidade de Tecnologia Educativa pelo Instituto de Educação da Universidade do Minho, em Braga/Portugal, ao portal de jornalismo Potiguar Notícias. A entrevistada é formadora de professores no âmbito das tecnologias educativas na rede pública e privada de ensino no estado de Pernambuco e cursa doutoramento no Instituto de Educação da Universidade do Minho. A pesquisadora do Centro de Investigação em Educação fala sobre “cultura maker”. 

1. A cultura do fazer, ou cultura maker, é uma tendência de práxis no ambiente educacional da atualidade. Como a pesquisadora Dra. Adriana Aleixo pode explicar sobre este movimento pedagógico, em poucas palavras?

     A cultura Maker no ambiente educacional tem despertado o interesse de educadores e instituições de ensino por proporcionar ao estudante a possibilidade de associar os conteúdos curriculares com práticas, de maneira a torná-lo protagonista na construção do seu conhecimento.

2. Qual a mensagem pedagógica central compartilhada pelo movimento do currículo escolar inspirado na cultura do fazer?

    Considerado uma extensão da filosofia “Do It Yourself!”, que na tradução em português significa “Faça você mesmo”, a cultura do “Fazer” apresenta a ideia de que qualquer pessoa pode construir, consertar, modificar e fabricar objetos, máquinas, projetos e processos com suas próprias mãos, preferencialmente de forma colaborativa. Em tempos e contextos diferenciados diria que a cultura Maker é um retorno aos primeiros anos escolares em que as crianças deixavam fluir a imaginação e construíam com as mãos, seus próprios brinquedos e bonecos de forma lúdica e prazerosa.

3. Sobre o tempo, ambiente, canal de aprendizagem e socialização, para a experiência da cultura do fazer (cultura maker) tem orientações determinadas?

   As atividades “mão na massa” podem ser desenvolvidas em plataformas virtuais ou em espaços físicos chamados de Makerspaces, hackerspaces ou Fab Labs. Nestes espaços são desenvolvidos projetos individuais ou colaborativos em que pessoas com diferentes habilidades e interesses comuns colaboram e aprendem uns com os outros. Estes espaços são locais sociais com oficinas abertas que disponibilizam diversas ferramentas de simples manuseio como tesouras, alicates ou artefatos sofisticados como impressoras 3D, cortadores a laser, kits de robótica, arduinos, de entre outros equipamentos, possibilitando o desenvolvimento de projetos individuais ou colaborativos para que pessoas com diferentes habilidades e interesses comuns possam colaborar e aprender uns com os outros.

4. É possível estabelecer alguma relação entre as linhas de produção de artefatos durante a pandemia do covid-19 com a cultura maker?

    Em diversas partes do mundo, durante a pandemia do novo Coronavírus, Makers se organizaram volutariamente para prototipar, testar, fabricar, respiradores de baixo custo e distribuir Equipamento de Proteção Individual (EPI) aos profissionais e equipes de saúde e limpeza pública, em um gesto de solidariedade e cuidado coletivo. Estes materiais são produzidos em universidades, escolas, garagens de casa ou qualquer outro espaço, onde exista ferramentas adequadas, mentes criativas e dispostas a colaborar.

5. Em que premissas repousa o movimento pedagógico da cultura maker?

     Além do efetivo caráter social que foi suscitado durante a pandemia, a educação “mão na massa” é fortemente baseada em algumas premissas que levam em consideração: o pensamento crítico, protagonismo, autonomia, resolução de problemas, ideias sustentáveis, acessibilidade, dentre outros, aplicados ao fazer.

6. Como a pesquisadora avalia os impactos pedagógicos do currículo conservador no atual contexto de educação remota?  

     A pandemia e seu prologamento no Brasil e no mundo nos coloca em riscos e grandes desafios em todos os setores da sociedade. Na educação não poderia ser diferente. Precisamos reinventar a escola, seus espaços, suas rotinas, formas de ensinar para que novos ambientes de livre autoria e expressividade sejam criados. As práticas pautadas em modelos tradicionais de ensino, com salas de aulas lotadas e metodologias engessadas, não são motivadoras diante de um cenário pós-pandemia.

7. Em contraposição a perspectiva do currículo liberal e tradicionalista, como o currículo progressista envolto com dinâmicas de aprendizagens e desenvolvimentos holísticos pode ser beneficiado a partir de metodologias da cultura maker?

    Neste contexto de transformações desejáveis, os espaços Maker têm o potencial de reinventar o contexto escolar e ser um propagador da cultura de inovação na escola. O desafio está em mostrá-lo como meio e não fim ao processo de aprendizagem. Estabelecer conexões significativas para todos os envolvidos, preparando os alunos para a vida, para as possíveis mudanças que serão impostas em um mundo pós-pandemia. Como dizia o filósofo John Dewey, um dos mais reputados educadores do século XX (1859-1952), “a aprendizagem vem da experiência, do ”fazer”, e a sala de aula deve promover uma reconstrução permanente das vivências de cada aluno, para que eles possam construir o próprio conhecimento”.

8. Como a cidade de Recife, capital do estado de Pernambuco no Brasil, está mobilizando esforços pedagógicos e curriculares para difundir a cultura maker no chão das escolas?

       A boa notícia é que temos as melhores perspectivas. Em Recife, por exemplo, temos na rede municipal treze laboratórios com espaços Maker instalados nas escolas. A proposta tem disseminado projetos lindos e praticamente heróicos de personagens anônimos, que, assim como eu, buscam mudar o mundo por meio da educação.

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Adriana Aleixo