"Pega esse diploma. Ele é um instrumento de combate"

01/05/2020

Por: BETH OLEGÁRIO
 
 
Alegro-me de dizer que meu bairro era um dos poucos bairros do subúrbio que tinha um sebo. Nele, também há pintores e poetas. No entanto aprendi que o belo não vende só por ser belo, e que o que movimenta a engrenagem das tvs e jornais é a economia do medo. É pela criminalidade que os jornais de Natal lucram com a imagem do meu bairro.
 
Nasci em Mãe Luiza, zona leste, subúrbio de Natal. Sou periférica. O lugar onde nascemos nos têm. Fui a primeira filha a ingressar em uma universidade pública. Em 2008 eu vi o meu nome sair na TV. Digo: Na TV Universitária. Este foi o meu primeiro ato de rebeldia contra o sistema.
 
No dia 10 de Agosto de 2009 iniciaram as minhas aulas na licenciatura em Letras, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Chegar à UFRN foi uma grande luta, porque quando se nasce pobre estudar é artigo de luxo. Embora paga com o dinheiro da classe trabalhadora, a universidade brasileira durante mais de 200 anos foi um espaço branco e burguês. Eu disse foi.
 
Eu vi a Universidade pintar-se de povo. Ainda hoje no Brasil algumas pessoas alimentam a narrativa de quando um pobre ou um preto ingressa em uma universidade pública ele está realizando um sonho. Isto me lembra Milton Santos que dizia que classe média brasileira não quer direitos, quer privilégios. Talvez por isso ter meu nome na Tv tenha sido o meu primeiro ato de rebeldia. Porque um diploma não é apenas um pedaço de papel. Ele é um instrumento de combate.
 
Sou filhas das classes populares e não tinha como permanecer na Universidade se não tivesse bolsa. Fui bolsista do PIBID - Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência, por 3 anos. O valor da bolsa era de 400 reais o que equivale hoje a cerca de 66,00 euros. Esta bolsa me mostrou o mundo e este dinheiro possibilitou a minha permanência na UFRN. Com ele pagava as passagens e as fotocópias.
 
Em 2013 conclui minha licenciatura. Recordo que em novembro eu estava com 4,5 mil estudantes de licenciatura em Uberaba. Enquanto apresentava uma comunicação, no 4º Encontro Nacional das Licenciaturas (Enalic) e o 3º Seminário Nacional do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), fui informada de que havia sido aprovada na selecção do mestrado em comunicação, na Universidade Federal da Paraíba.
 
O PIBID é uma iniciativa que visa melhorar e valorizar a formação de professores para a educação básica. Em 2013, o programa contava 85 mil bolsas distribuído em 285 instituições. Este programa assim como a universidade brasileira vem sofrendo ataques sucessivos.
 
Em 2014, peguei a minha arma (diploma) e fui morar na Paraíba. Fui bolsista também no mestrado. A bolsa garantiu minha permanência na UFPB, por 2 anos. Conclui o mestrado e hoje sou bolsista de doutoramento da Fundação para Ciência e Tecnologia, de Portugal.
 
Escrevo este texto porque soube que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) cortou todas as bolsas de iniciação científica da área de ciências humanas. É triste nascer em uma país cuja crise educacional é um projecto das elites. É triste e cansativo ter que reforçar a cada dia a importância e o valor da Educação.