Aquém e além de um leão

27/04/2020

Por: THÉO ALVES
 
 
Acho sempre curioso quando ouço ou leio alguém dizer coisas como “Deus enviou essa doença para punir a humanidade” ou “a Natureza está tentando nos ensinar uma lição”. E o que me arranha os ouvidos nisso é que aquilo a ser aprendido revela a ignorância do enunciado, afinal é a nossa soberba que nos obriga a imaginar que Deus, a Natureza ou quem quer que seja andem às voltas da criatividade a trabalhar uma didática para nos ensinar lições de obviedade.
 
Alguém que diz, por exemplo, que “isso nos tornará mais humanos” deve acreditar que seja possível sermos outra coisa que não o que somos inevitavelmente. Um leão não é mais ou menos leão nem antes ou depois de ser-se leão: o leão é. Um leão com fome é um leão. Um leão com sede, sujo do sangue de um antílope, com sono ou vivo é sempre um leão. Por que a nós humanos caberia ser outra coisa, se não por nossa angústia de existir de fato diante de existir?
 
Talvez, se por um momento breve, aceitássemos que o vírus a que chamamos Corona ou qualquer outra doença, assim como os vulcões que explodem e os imensos rios que transbordam, acontecessem porque assim é a vida, pudéssemos compreender que a lição que tiramos disso é a de que devemos aprender a existir sem crer que as coisas se dão para nos oferecer lições. O grande aprendizado é, afinal, o de que somos o centro do universo apenas para nós mesmos e que, independente do que aprendamos, um leão haverá de ser um leão para aquém e além do leão.
 
Não é preciso dar sentido metafísico ao surto de uma doença além dela mesma. Obviamente, é preciso aprender que nossas transgressões em um mundo real cobram seu preço, suas consequências.  Uma criança que morre devido à Covid não está pagando pecados, não está impondo penas a seus pais: está morta, criança para aquém e além de ser criança. 
 
O exemplo é cruel, eu sei, especialmente porque as crianças representam o que fomos e perdemos ao passar a acreditar que o mundo existe por nós, para nós. A criança, quanto mais jovem seja, é um leão: sem a angústia de dar uma justificativa, um significado, para estar aqui. Assim como ao leão, à criança não importa o motivo: estar aqui é a razão de ser. 
 
E, se nos preocupássemos menos com a lição que a Natureza parece querer nos dar e mais com o quanto devemos plenamente ser, entenderíamos que viver é o único motivo de que precisamos e seríamos mais naturais e menos burocráticos, mais harmônicos e menos invasivos: seríamos em lugar de simplesmente pensarmos ser. 
 
Se compreendêssemos melhor o presente, se entendêssemos melhor o que somos agora, a esperança daria lugar à ação, o que seria muito mais natural e puro, já que a esperança – esta última maldição da caixa de Pandora – é o que nos anestesia para a vida e nos impede de caminhar agora, quando é verdadeiramente necessário, por nos colocar a viver sempre no amanhã, esse tempo que não existe na Natureza, talvez nem em Deus.