Daniel Costa

09/07/2021
 
ADEUS A PINTO JÚNIOR
 
 
Um dia a gente decidiu que seria a hora de tentar o mestrado. Aí passamos a estudar na biblioteca da UFRN, depois do expediente. O jantar acabava substituído por um prato à moda Raymond Aron, com Marx e Durkheim no cardápio. Vez por outra, concluíamos as discussões entre copos de uísque no Bar do Seu Pedrinho. Nessas horas, falávamos sobre a conjuntura política, das dificuldades da advocacia, das agruras do jornalismo, e da vida de um periodista, que se viu empresário, às voltas com o grande buraco desconhecido que era a passagem do jornal impresso para a comunicação virtual.
 
Isso tirava o sono de Pinto Junior. Mas ele enfrentava tudo com aparente galhardia, ainda que um dia eu o tenha visto manchar o rosto com algumas lágrimas, ao se despedir do Jornal Potiguar Notícias para continuar seguindo com o Portal Potiguar Notícias. Um novo e desconhecido passo. Ele vinha se saindo bem. Pinto Júnior dizia que a gente tinha que ocupar os espaços vazios. E falava isso com voz macia, seguro da sua capacidade de se fazer convencer pela força das palavras.
 
Mas de repente o amigo partiu deixando o vazio de uma despedida que não aconteceu. E é impossível não ser tomado por uma tristeza plúmbea quando se vê alguém tão jovem, cheio de planos, que um dia compartilhou alguns sonhos, viajar apressadamente. Fico tentando imaginar como ele estará vendo tudo agora, bem de longe, como quem espia de luneta os amigos e os familiares seguindo a tortuosa maré da vida sem a luz brilhante do seu farol.
 
Nessas horas, as ratazanas da revolta saem de suas tocas e invadem o coração. É que contando ele com pouco mais de 50 anos, tivesse vivido num país minimamente organizado, certamente teria se vacinado e hoje estaria por aqui fazendo sua história. Meu amigo se foi tão cedo por descaso governamental. Isso precisa ser gritado. Mas a indignação que consome as entranhas há de se transformar, ainda que serenamente, em arma para lutar por dias melhores.
 
Pinto Júnior é uma corda que se partiu. Um fio de existência que se foi. Mas deixa aqui a sua paisagem, o seu rio, a sua luz. E quando penso nisso, vejo que ele de alguma forma persistirá.