Ana Carolina Monte Procópio

21/04/2021
 
 BSB, FELIZ ANIVERSÁRIO
 
“Tudo se transforma em alvorada nesta cidade que se abre para o amanhã.”
                                                                                                       Juscelino Kubistchek
 
Para Dani e Vivi, amigas brasilienses de uma vida inteira, que aniversariam junto com Brasília.
 
Brasília é um sonho imaginado desde a primeira Constituição republicana, a de 1891. Já naquele momento foi estabelecido que a capital do Brasil deveria se localizar em algum ponto central do gigantesco país, interiorizando-o e integrando seu território e população. O Brasil não seria mais só litoral a partir dessa centralização em seu interior. Essa determinação constitucional ficou guardada por décadas, até que o mineiro Juscelino Kubistchek de Oliveira, quando eleito Presidente da República, decidiu concretizá-la. Com o slogan 50 anos em 5, o visionário Juscelino decidiu construir toda uma cidade no Planalto Central brasileiro, em território à época pouco povoado, quase nada explorado, uma realidade rural em um país praticamente desindustrializado. 
 
E Brasília foi feita. Iniciada em 1956, foi inaugurada em 21 de abril de 1960. Linda, modernista, planejada, radiante e dona do céu mais impressionante que já tive o prazer de ver, Brasília era uma cidade, como bem disse Juscelino, que se abria para o amanhã. E o amanhã chegou. Concebida por personagens inovadores, visionários, sonhadores e realizada pelos candangos, trabalhadores que vieram de todo país movidos pelo sonho de construir a capital do país, a cidade implantou-se no Planalto Central do Brasil. “Como castelos nascem dos sonhos pra no real achar seu lugar, como se faz com todo cuidado a pipa que precisa voar” (Oswaldo Montenegro), assim foi feita.
 
Passados 61 anos, a singular cidade já disse a que veio, já se instituiu com personalidade, costumes, hábitos, gírias e realidade únicos. Difícil algum lugar ser mais peculiar e típico que Brasília, uma vez que foi planejada para cumprir o papel de ser a capital do país. Com o traçado urbano de Lúcio Costa, definido a partir de concurso público, a nova capital ganhou a forma de um avião. Nada mais apropriado: moderna e vocacionada para o futuro, a cidade abriga asas. 
 
O planejamento do Plano Piloto feito por Lúcio Costa mantém-se atual após 60 anos e continuará sendo, pois baseado em elementos atemporais e que fazem uma cidade ser agradável e acolhedora: grandes avenidas, amplos espaços abertos, limitação na altura dos prédios que permite uma visão ampla para o espaço urbano e o horizonte, muitas áreas verdes entre as quadras (nomes das divisões territoriais dos “quarteirões” de Brasília), espaço para o habitante viver a cidade e usufruir dos seus espaços.  
 
Fui morar em Brasília aos 6 anos e a tenho como minha cidade de coração, meu lugar de pertencimento e meu projeto futuro, lugar onde me encontro e onde tenho muitas referências caras e profundas, onde tenho a sensação de lar. Portanto, é sempre com uma voz apaixonada que me refiro a Brasília. Gosto dela como quem gosta muito de alguém; é como uma pessoa muito querida, que me desperta a mais funda saudade. Minhas impressões se confundem com minhas memórias. Falar de Brasília é revisitar o que foi e o que é a cidade pra mim, é lembrar de tudo o que foi vivido na infância, adolescência, fase universitária, vida adulta; toda uma existência. 
 
É muito lugar comum falar do céu de Brasília, é realmente um clichê. Até que se olha pra ele e se entende porque o clichê continua vivo e repetido. É um espetáculo, uma festa diária, que não se repete e não deixa nunca de impressionar. “Céu de Brasília, traço do arquiteto, gosto tanto dela assim.” (Djavan).
 
E os prédios projetados por Niemeyer? Que lugar de sorte, privilegiado que é por ter tantas obras de arte na paisagem urbana, no viver cotidiano! Muitos foram os fins de tarde passando pelo Eixo Monumental voltando para casa (apartamento, na verdade), numa superquadra do início da Asa Norte e admirando o sol poente. As cores de Brasília, sério, são únicas, parecem pertencer a uma paleta própria. E o recorte da Catedral, do Museu de Brasília, dos prédios do Congresso, com seu côncavo e convexo no contraluz, formam imagens que já estão impressas definitivamente na memória e no repertório imagético como obras de arte, fusão entre natureza e gênio humano, beleza em sua expressão absoluta. A Catedral, com suas “mãos” de concreto parecendo elevar-se ao Criador já é, em si, um ato de louvor. Ao entrar nela e deparar-se com o reflexo do sol entrando pelos vitrais extraordinários de Mariane Peretti completa-se a devoção. No amplo espaço claro, pleno de luzes filtradas de azul, parece que o Espírito realmente se revela. 
 
Essa Brasília tão amada mistura-se em muitos momentos, em mim, com a obra de Oswaldo Montenegro, de quem me declaro fã antiga. Desde Bandolins, ainda menina, me impactei com o canto, a melodia, a letra, as músicas que me faziam voar. Talvez seja o maior intérprete de Brasília, quem mais a cantou e a refletiu em sua obra. Já tive oportunidade de contar um pouco da marca musical da cidade que é tão eclética. Berço do rock, de que aprendi a gostar muito, especialmente da banda Legião Urbana, foi no trabalho de Oswaldo Montenegro, porém, que encontrei a maior expressão de Brasília. 
 
Este texto quase panfletário e completamente passional é fruto, sim, de uma pessoa encantada com o modelo arquitetônico, urbanístico e, acima de tudo, profundamente humano de um lugar ao qual está ligada afetivamente. Mas mesmo esse olhar não deixa de ver a imensa desigualdade social que cerca o belo Plano Piloto; é claro que não dá pra ignorar os muitos e imensos problemas sociais e humanos de extrema gravidade que gravitam em torno do sonho Brasília. 
 
Teria muito e muito mais a falar de Brasília, como me impele o coração. Hoje, contudo, peço a licença de falar apenas do encanto da cidade única que ela é. Hoje peço licença pra falar somente de e com amor. 
 
“No centro de um planalto vazio, como se fosse em qualquer lugar...” (Léo e Bia – Oswaldo Montenegro)