Daniel Costa

14/04/2021
 
O Mundo todo é brasileiro
 
 
Em uma de suas crônicas sobre futebol na revista Manchete Esportiva, Nelson Rodrigues cunhou a figura psicológica do complexo de vira-lata. Logo no primeiro parágrafo ele foi explicando: "por complexo de vira-lata, entendo eu a inferioridade em que o brasilei-ro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol".
 
Essa é a gênese de uma expressão que perdeu o sentido quando se trata do futebol nacional, já que não é mais cabível falar na existência de um viralatismo ludopédico depois de termos arre-banhado cinco Copas do Mundo. Mas em outros setores da nossa sociedade parece que só agora, na segunda quadra do século XXI, é que nos encontramos na condição de enfim superar o tal complexo de vira-lata. 
 
É verdade que tínhamos tudo para ampliá-lo quando elege-mos para presidente da república um sujeito como Jair Bolsonaro, que só pensa em dar com uma pedra na cabeça da democracia e que teve como mote de campanha a liberação do porte de armas e a di-vulgação de mentiras do naipe da mamadeira de piroca. Nossa moral foi lá pra baixo. E caiu ainda mais quando se descobriu que o presi-dente era amigo íntimo e vizinho de porta de uma claque de pistolei-ros e que um de seus filhos estaria envolvido até o pescoço num la-ranjal de corrupção. Depois vieram a pandemia, o tratamento pre-ventivo à base de cloroquina, o povo nas ruas protestando contra o lockdown e outras sujeiradas mais, que nos causaram uma sensação de inferioridade absoluta diante do resto do mundo.  
 
Mas eis que acontecem as eleições nos EUA e Donald Trump, derrotado nas urnas, resolve ser o comandante em chefe da invasão ao Capitólio. Na França, o ex-presidente Nicolas Sarkozy é condena-do à prisão por corrupção, e corre a notícia de que a promotoria de Paris investiga a realização de jantares clandestinos em restaurantes luxuosos, que burlaram as restrições impostas pelo governo devido à pandemia. Na Alemanha, Angela Merkel se vê acossada por pessoas que batem panelas para protestar contra os planos de contenção ao coronavírus. E no final do ano passado, um turbilhão de pessoas no Reino Unido se negou a tomar a vacina da Pfizer/BioNTech por duvidar da sua eficácia. Tudo isso sem esquecer dos conflitos entre manifestantes e policiais na Itália, durante manifestação de donos de restaurantes contra o fechamento do comércio. 
 
Diante dessa barafunda toda, a teoria rodrigueana já pode en-tão ser completamente deixada de lado. A essa altura do campeona-to, o mundo todo é brasileiro.