Ana Carolina Monte Procópio

16/12/2019
 
 
ARQUITETURA, ADVOCACIA E NIEMEYER
 
 
 
Não é o ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível
criada pelo homem. 
O que me atrai é a curva livre e sensual. 
A curva que encontro nas montanhas do meu país, 
no curso sinuoso dos nossos rios, nas ondas do mar,
nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida. 
De curvas é feito todo o universo -  
o universo curvo de Einstein.
 
Se a reta é o caminho mais curto entre dois pontos, 
a curva é o que faz o concreto buscar o infinito.
 
OSCAR NIEMEYER
 
15 de dezembro, dia de importantes registros. É o Dia Nacional do Arquiteto, dia do nascimento de Oscar Niemeyer e Dia da Mulher Advogada. Sinto-me triplamente em comemoração. 
 
Por ser mulher e advogada, o que já é sabido até pela apresentação dos textos neste portal; por celebrar a arquitetura, pra mim uma paixão irrealizada e, ainda, por ser o aniversário do arquiteto Oscar Niemeyer, o que motivou a instituição do dia do arquiteto nessa data. 
 
Arquitetura foi a profissão que escolhi seguir, movida por puro encantamento. Talvez o fato de ter morado em Brasília durante tantos anos, inclusive à época do vestibular, tenha contribuído para isso. Brasília é uma mostra de urbanismo e um espetáculo de arquitetura ao ar livre. A cidade toda é uma exposição, linda como ela só e, não sem razão, declarada Patrimônio Histórico e Cultural pela UNESCO.
 
Voltando à arquitetura – pois Brasília é um tema que sempre me desvia a atenção –, um teste de habilidades específicas em desenho (as quais me faltam completamente) me afastou da minha vontade original.  Não pude, pois, prestar o vestibular para arquitetura, tive que escolher outro curso. Razões várias me levaram para o Direito; fiz a graduação e exerço a advocacia com entusiasmo e vontade, mas a paixão pela arquitetura não acabou. Dez anos depois do primeiro vestibular, prestei novo exame para o curso tão desejado e o fiz durante dois anos. Não tenho como descrever minha satisfação e alegria naquele momento, vendo-me estudante universitária novamente e estudando arquitetura, um sonho tão sedimentado. Sensação de plenitude e deslumbramento; o curso de arquitetura é apaixonante. E assim foi durante o tempo que durou. Mas a constante impermanência da vida, já aqui tão falada, encerrou esse tempo idílico; nessa fase até mudei de cidade e não pude continuar. Como disse o mestre Oscar Niemeyer, “a vida é um sopro” e nesse sopro tudo pode mudar em um instante, como ocorreu.  
 
Finda a experiência prática com a arquitetura, sobrou o sentimento. Ainda me considero meio arquiteta e o tema, as obras, as mostras, os livros sobre o universo arquitetônico e urbanístico são ainda mais fascinantes pra mim. Identifico-me completamente com as palavras do arquiteto Le Corbusier: “arquitetura é um estado de espírito, não uma profissão”. Assim eu sentia então e ainda sinto.
 
Arquitetura é arte e função, estética e intencionalidade. Entre curvas e retas, espaços cheios e vazios, volumes e vãos, vai sendo mostrada a arte fascinante de fazer surgir do nada uma realidade concreta destinada ao uso humano. 
 
Essa modalidade de arte e ofício que é a arquitetura deixa sua marca para o futuro, reporta um tempo, comunica um modo de pensar e de ser de um povo em determinado momento. A visão das pirâmides do Egito, das grandes catedrais, da igreja de Notre Dame, do Coliseu romano, da Acrópole ateniense, do Taj Mahal, do MASP, da Catedral de Brasília e de tantos outros monumentos “falam” imediatamente de ideias e realidades dos respectivos povos em seu tempo e mostram de forma muda e perene sua fé, pujança, mitos, crenças, sistema político. Tudo isso é oferecido diretamente pela arquitetura, por meio de obras atemporais que a História registra e que registram, por sua vez, a História.
 
Entre os destaques da arquitetura no mundo e ao longo do tempo, encontra-se o notável Oscar Niemeyer, o homem que fez o concreto dançar. Sua forma de trabalhar o concreto em formas curvas, pioneira e singular, tornou-se referência e inspiração para seus contemporâneos e para as gerações futuras. O arquiteto – talvez o único, mas seguramente um dos poucos – que tem projetos construídos nos cinco continentes; o artista que fez o modernismo à brasileira na arquitetura, inaugurando um estilo próprio e, ao mesmo tempo, representativo da identidade nacional, que se destaca no cenário da arquitetura modernista mundial; o professor engajado e humanista; o idealizador da Catedral de Brasília, declaradamente ateu, que projetou um edifício em curvas que lembra mãos em prece para os céus; o homem que projetou os edifícios mais marcantes de Brasília, dando uma feição à nova capital, que projetou a sede da ONU, o Complexo da Pampulha em Belo Horizonte e tantas outras obras mundo afora: todas as homenagens lhe são justas. 
 
Quanto às mulheres advogadas, a data foi estabelecida em louvor à primeira mulher graduada em Direito no Brasil, Myrthes Campos, em 1898. Mesmo formada, apenas em 1906 conseguiu o registro profissional para poder atuar. Foi a primeira mulher em Tribunais do Júri e lutou pelo espaço feminino na profissão e na sociedade. 
 
É muito merecido que se tenha um dia dedicado ao feminino na advocacia e na prática jurídica – ambiente ainda hoje preponderantemente masculino. As mulheres ainda têm que lutar pela igualdade no exercício da profissão e por mais espaço no cenário jurídico. Tome-se como exemplo o fato de jamais ter havido, neste Estado do Rio Grande do Norte, uma mulher presidindo a seção local da Ordem dos Advogados do Brasil. Ainda é grande e necessária a luta feminina dentro do cenário jurídico. 
 
Rendo aqui, por fim, minhas homenagens às colegas advogadas e aos – quase colegas – arquitetos, reverenciando ainda a memória do inesquecível Oscar Niemeyer.