O tempo brinca de vida com as coisas e com a gente

21/02/2018

Por: Renato Moraes
Foto: Arquivo pessoal
Bati de frente com essas brincadeiras que o tempo faz com as coisas e com a gente ao parar para escrever uma parte de minha história com Parnamirim. Em 1999, cheguei à cidade e encontrei uma Parnamirim adolescente, exatos 12 anos depois de ela ter mudado de nome, uma justa homenagem às suas raízes. Mas já havia sinais dos primeiros (já antigos) problemas desse rito de passagem da adolescência para a idade adulta: saneamento, urbanização, drenagem urbana... Mas Parnamirim ainda conservava o ar tranquilo de cidade do interior que a tal conurbação vai derrubando aos poucos, com consequências terríveis. 
 
Mesmo assim era possível ter relativa tranquilidade enquanto os meninos iam à escola, nos passeios pelas praias, no lanche noturno perto de casa, no encontro com os amigos para uma simples “socialização etílica”, afinal, depois do trabalho quem não merece uma boa prosa e uma cervejinha devidamente acompanhada de uma boa carne de sol? Volto ao assunto ao final desse artigo.
 
Em seis anos, de 1999 a 2005, vivi uma vida de novas descobertas. Descobri que era hora de agregar valor aos meus conhecimentos práticos sobre o jornalismo terminando o curso na querida UFRN. Descobri o jornalismo comunitário através do então Parnamirim Notícias, hoje Potiguar Notícias. Descobri como é rico descobrir que a cidade é feita de gente. E as gentes da cidade têm sua própria história. E essas histórias, juntas, fazem a cidade. 
 
Mudam as perguntas, mas não muda a brincadeira que o tempo faz com a gente. E o bug do milênio? Vai parar tudo? E a Lagoa Vermelha, totalmente poluída? E a história do palhaço cujo circo, ainda que por pouco tempo, estaciona no quintal da história da cidade? E a tragédia anunciada do rio Pitimbu? E o esgoto a céu aberto da Everaldo Breves? Choveu. Onde alagou desta vez? Consertar a bomba ... queimou a bomba, diziam os porta-vozes do poder público ...
 
É aí que entra a brincadeira do tempo. Fui embora, levado pela dever da farda e pelo ofício de controlador de tráfego aéreo, minha primeira profissão. Volto em 2016 e de novo a vida me leva para a UFRN, agora com outros desafios, outras perspectivas. Vida nova, vem aí uma nova vida ... vidas que se cruzam. 
 
Encontro uma Parnamirim adulta, não apenas com os mesmos problemas, mas agora mais problemas, trazidos pelo tal progresso camuflado de conurbação que todo mundo repete sem pestanejar: violência, mobilidade urbana ... E os antigos problemas? Drenagem urbana? Chove e recebo pelo telefone um vídeo de moradores quebrando o muro do cemitério para tentar escoar a água da rua alagada. Consertar a bomba ... queimou a bomba ... Rio Pitimbu e Lagoa Vermelha: por quanto tempo sobreviverão? Saneamento? O esgoto na sarjeta da Everaldo Breves ainda corre a céu aberto. O palhaço ... por onde andará?
 
O debate sobre a violência urbana ultrapassa os limites da cidade e esbarra no muro das desigualdades sociais, marca principal da sociedade brasileira, talvez o principal problema disso tudo. Melhor pular essa parte. A cidade não se importa. A cidade quer mais é crescer. E apesar de tudo, a cidade, essa cidade, ainda guarda o ar de pequena cidade. E as pessoas ainda têm guardam aquele olhar de curiosidade de quem já se viu em algum lugar, porque o que as pessoas querem mesmo é um bom lugar para viver. E o tempo vai brincando com as coisas, vai brincando de vida com a gente.