Ana Carolina Monte Procópio

23/09/2019
 
 
TEMPO QUE FOGE
 
 
Colhe o Dia, porque és Ele
Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
 
Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
 
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. 
Colhe o dia, porque és ele.
 
COLHE O DIA – Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)
 
Das aulas de literatura do ensino médio, ficaram na memória lembranças de uma escola literária, o arcadismo, que pregava a volta a um passado pastoril, a uma vida simples e buscava referências da antiguidade greco-romana. Dessas expressões aprendidas há tanto tempo, destaco duas, cuja lembrança me serviu de guia para a reflexão de hoje: CARPE DIEM e TEMPUS FUGIT. Juntando-as, Carpe Diem quia tempus fugit. Colhe o dia, porque o tempo foge.
 
Os gregos antigos tinham duas expressões distintas para expressar sua compreensão do fenômeno temporal: Chronos e Kairós. Chronos é o tempo medido, do calendário, quantitativo. Já Kairós representa o tempo de cada coisa, o tempo em que devem acontecer, em obediência aos ciclos e ritmos pessoais e da natureza. Kairós, filho de Zeus, era um deus de asas nos ombros e nos tornozelos, muito veloz, praticamente inalcançável. Ele representa o momento oportuno, a dimensão qualitativa do tempo. Chronos, na mitologia grega, era um deus, regente do tempo, que engolia todos os seus filhos quando nasciam. O único que escapou foi Zeus, graças a uma manobra de sua mãe, Reia. Quando adulto, Zeus fez Chronos vomitar todos os seus irmãos e eles, assim, tornaram-se imortais, por terem derrotado o Tempo. É muito significativa essa construção mitológica. Imortais são os que derrotam o tempo. Isso quer dizer que nós, mortais, seremos derrotados por ele? 
 
É lição antiga que na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma (Lei de Lavoisier ou Lei de Conservação das Massas). Também já se sabe que tudo o que existe está em movimento incessante, nada é de forma estática, pois tudo o que é está fadado a não mais ser. O grego Heráclito já dizia ser impossível banhar-se duas vezes no mesmo rio porque o rio já não seria o mesmo. Analogicamente, a pessoa também não seria a mesma. Esse é o reconhecimento da impermanência que permeia todas as coisas que existem, todo o universo, que está em contínua expansão e movimento. 
 
Se assim é, o tempo é o grande marcador desse processo. Além disso, é também a expressão da inteligência de um ser que desenvolveu a consciência sobre si e sobre o mundo, ao ponto de entender essa passagem, essa jornada finita e de incessante transformação, até chegar à culminância, com a morte. O nascimento marca o início da contagem regressiva. Tudo o que nasce vai um dia perecer, morrer, desaparecer; em suma, abandonar determinada forma. 
 
Por isso o tempo é tema tão angustiante: porque fala da consciência da finitude e, portanto, da urgência de SER. Carpe Diem! Saber-se vivo, finito e em constante processo de transformação rumo a um desfecho irreversível é de fato motivo para inquietude e incerteza. 
 
Como a ideia do tempo está presa a da consciência sobre ele, somente se pode vivenciar o tempo no momento em que ele passa, pois apenas nesse momento, que é o presente, incide a consciência-de-si. Daí a expressão Tempus Fugit. O tempo se vai num instante e é nesse que a vida acontece. O passado existe como memória e o futuro como expectativa. Nenhum dos dois, porém, têm existência real; só o presente acontece.
 A percepção de que se obedece a um tempo cíclico vem ainda da Pré-História. Nossos ancestrais repararam que a Natureza com a qual viviam em íntima relação de pertencimento tinha ciclos, e que eles próprios também os tinham. Os ciclos do dia e da noite, das estações, de colher, de plantar, de esperar; o tempo de nascer, crescer e morrer. Nesse momento histórico surge a consciência sobre o tempo como regente dos atos da vida. 
 
Assim foi até o advento da Revolução Industrial que introduziu profundas modificações na História e que trouxe, entre outras conseqüências, a mudança da relação temporal entre o ser humano e o mundo: de cíclica, passou a ser linear, prefixada, estabelecida antes. Com o advento das máquinas e da produção em escala industrial, nós, humanos – únicos a termos consciência do tempo –, passamos a ser regidos por elas não apenas no ambiente de trabalho, mas também quanto ao funcionamento social. O relógio e não mais os fenômenos naturais passaram a ditar as regras.
 
A vida após a Revolução Industrial tornou-se enrijecida pela submissão a horários, disciplinada, controlada pelos compromissos a cumprir, e cada vez mais velozmente. Estamos sempre com pressa (tic), com pressa (tac), com muita pressa (tic, tac). E não nos sobra mais tempo para o convívio, para o riso, para o lazer, para os afetos, para a poesia, para o café na casa da avó e para o encanto de aproveitar o viver. 
Tempo é dinheiro! Essa frase, atribuída a Lutero, mostra bem a dimensão por que enveredou o ser humano com o advento da escala industrial de produção: medir-se por sua utilidade e não mais por sua essência e singularidade. O relógio que equalizou a produção, o fez também com a vida, institucionalizando o homo faber. Viver, agora, é produzir.
 
Parece-nos que o tempo está passando cada vez mais rápido. Se é assim ou não, somente a física pode revelar. O que é certo é que a sociedade contemporânea tem essa sensação e tem razão de ter. Os avanços tecnológicos que permitiram a comunicação em tempo real anularam as distâncias, fazendo com o que o tempo nos queimasse as mãos. Tudo passou a ser urgente, estamos sempre devendo algo ao tempo. E nessa urgência, escorre por nossos dedos o que verdadeiramente importa: o momento presente – ao qual estamos anestesiados – e a vida real, pulsante, cíclica. 
 
O tema é instigante e angustiante também. Continuaremos a abordá-lo. Fiquemos, contudo, com a lembrança da advertência do grande Fernando Pessoa:
 
Colhe o dia, porque és ele!