Ana Carolina Monte Procópio

02/09/2019
 
A DOR DA GENTE
 
A dor da gente é dor de menino acanhado
menino- bezerro pisado no curral do mundo a penar
 que salta aos olhos igual a um gemido calado
a sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar.
A MASSA – Raimundo Sodré
 
No filme brasileiro Abril Despedaçado, há uma cena que mostra um diálogo em que Pacu, o irmão mais novo do personagem principal, que é o Tonho (interpretado por Rodrigo Santoro), diz a este, olhando para o círculo descrito ininterruptamente pelos bois presos a fim de mover a máquina de moer cana: “A gente é que nem os bois. Roda, roda e não sai do lugar.”. Nesse olhar, Pacu trata da circularidade, da repetição e do tempo a reger todo o arranjo. 
 
O filme, baseado no livro de mesmo nome de Ismail Kadaré, conta uma história de vinganças sucessivas ao longo de anos, dizimando duas famílias rivais, em que um integrante de uma família mata um da outra família, em tempo relativamente curto – o tempo que leva para desbotar a mancha de sangue na roupa do morto –, em um ciclo sem fim que vai acabar por matar todos os descendentes das duas famílias. O narrador do filme é o filho caçula da família Breves, seu mais jovem integrante, o último marcado para morrer. Esta é a história privada. Em uma visão mais ampla, o filme/livro fala da prisão da violência e da dor, que vitima pessoas definitivamente condenadas a fazerem parte do seu ciclo interminável, como vítimas e autores. O filme é uma metáfora da atemporal tensão entre o intento de morte e a pulsão de vida e de amor. Abril Despedaçado é de imenso lirismo e beleza, ao tempo em que é cru e sem filtros ao retratar um círculo de violência aparentemente interminável. Falar mais seria adiantar o fim, o que não farei em respeito a quem, lendo, deseje ver esse filme marcante, o que recomendo. 
 
Outro filme também ambientado na aridez da paisagem nordestina é o recente Bacurau. Impactante é uma das palavras que primeiro vêm à mente quando se assiste ao  filme. Difícil falar sobre ele. Primeiro, pelo risco de dar spoiler. Segundo, porque somente assistindo-o é que se pode absorver tudo o que ele transmite. Bacurau representa uma distopia, uma realidade sinistra e tristemente possível. É tão expressivamente contado que chega a despertar reações do público nos momentos em que as cenas correspondem à explosão do grito preso na garganta dos espectadores. Bacurau é forte, incômodo e necessário, mexe em questões arcaicas e atuais – infelizmente questões estruturais da sociedade brasileira. Tudo nele é forte e intenso – seu roteiro, a fotografia, a trilha sonora. Tudo se ajusta de maneira muito equilibrada para dar ao filme uma força correspondente ao momento que o produziu.  
 
Não por acaso, o Nordeste brasileiro, com sua paisagem pobre, árida e desolada é tantas vezes escolhido para servir de cenário a livros e filmes que tratam de servidão, miséria, aprisionamento. Como se a paisagem fosse uma representação do fim da esperança, da ausência de expectativas, da falta de alternativas. Cinema, aspirinas e urubus; Eu, tu, eles; Central do Brasil, Baile Perfumado, entre outros, são filmes mais recentes que têm o Nordeste como cenário e como elemento do enredo, e falam de histórias individuais marcadas por obstáculos. Nesses filmes e em tantos outros, nota-se um traço em comum: uma espécie de inevitabilidade do cumprimento dos destinos individuais e, ao mesmo tempo, uma falta de caminhos para toda a sociedade presa nessa corrente de inevitabilidade, que se forma a partir da multiplicação das impossibilidades de cada um. 
 
Raimundo Sodré, na antológica música A MASSA, fala sobre essa massificação dos seres humanos a partir de sua equalização:
 
Moinho de homens que nem jerimuns amassados
Mansos meninos domados, massa de medos iguais
Amassando a massa, a mão que amassa a comida
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais.
 
O filósofo Ortega Y Gasset debruçou-se sobre o estudo da sociedade de massa e criou o conceito do homem-massa, que é aquele que se pauta pela semelhança com os demais e que se perde por se igualar na coletividade. Também caracteriza o homem-massa o seu conformismo quanto às impostas e supostas impossibilidades de superação das circunstâncias.  A sociedade de massa dissolve as diferenças, de forma a que todos ajam de maneira homogênea, sob pena de se perderem de si mesmos. O tão falado e defendido individualismo, na verdade, desaparece em um agir coletivo e uniforme.         
 
Voltando aos filmes do novo cinema ambientado no Nordeste, vê-se em quase todos aquelas cenas repetidas de pessoas olhando o lento desenrolar de suas existências e o espanto e/ou admiração com o que se apresenta como novo, diferente, que pretensamente pode mudar-lhes a vida ou afastar-lhes do inevitável. O que assim pensa é o homem-massa, conformado e cumpridor do mesmo destino que o de todos ao seu redor. Iguais. Não percebem eles que a solução não está do lado de fora, no estranho ou estrangeiro. A redenção desse destino está em seus próprios atos, em suas escolhas e determinação. Bacurau mostra isso. 
 
E nesta sociedade massificada, que anula as individualidades em nome do agir comum, urge não esquecermos do caráter único e do valor de cada pessoa, sob pena de nos desumanizarmos. Porque a dor da gente, enfim, é a dor de Pedro Bala; de Tonho e Pacu, personagens de Abril Despedaçado; de Marielle Franco; de Carolina de Jesus; do músico Evaldo Rosa, morto com 80 tiros no Rio de Janeiro; das crianças que escrevem nos tetos das escolas das periferias pedidos para não serem alvo de tiros vindos dos helicópteros; das crianças chacinadas na Candelária; dos povos ribeirinhos e dos irmãos indígenas, e a de tantos outros. 
 
A dor de cada ‘outro’ é, em verdade, a nossa própria dor, a dor de cada ‘um’. Porque não há uns e outros, o que há é um só corpo social em que o que fere cada parte desse todo atinge cada um que a integra. 
 
Vale a mensagem profética da música Réquiem para Matraga, de Geraldo Vandré, da trilha sonora de Bacurau: “quem aqui não entendeu, não perde por esperar.”.