Eliade Pimentel

27/06/2022

 

Sobre nostalgias e outros tipos de azia 

 

Evito ao máximo dizer frases clichês como “no meu tempo”, principalmente para dizer se era melhor, pois atenta que sou ao desenrolar dos fatos, percebo que tem coisas que melhoraram com o passar do tempo, outras pioraram. Mas, não vêm ao caso, visto que temos tantos outros fatores que influenciam na relação custo-benefício, como custo de vida, quantitativo populacional e até tipos novos de doenças, como bem sabemos.

Às vezes tenho dificuldade de expressar minha versão do que é diferente hoje em dia, e o que isso implica na nossa qualidade de vida. E o assunto surgiu ao conversar com minha filha sobre o chamado Beco da Lama, reduto boêmio no bairro da Cidade Alta, que agrega cultura à capital potiguar. Não frequento o local tanto quanto há mais de 20 anos, quando era tão assídua a ponto de ter assinado o livro de criação da SAMBA – Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências.

Aliás, minha frequência no Beco é do jeito que sempre foi. A depender de minha necessidade de ir ao centro da cidade. Anteriormente, eu trabalhava bem próximo, e almoçava praticamente todo dia em algum dos seus tradicionais botecos. Ao longo dos anos, percebi que o que para mim é orgânico, ou seja, ir ao Beco significa ir ao centro e dar uma banda por lá, para a maioria das pessoas assíduas ir ao Beco é ir ao Beco.

Melhor explicando: o público frequentador começou a criar alternativas a todos os eventos, de modo que se mantem fixo no local durante todo o ano. As festas comemorativas ganharam versão idealizada pela boêmia bequiana: carnabeco, para suprir carnaval fora de época, festa junina, carnaval, réveillon, sem falar nas atividades inerentes à cultura de bares e botecos, como rodas de samba e festivais gastronômicos.

Não sou e nem nunca fui entusiasta de enaltecer todo aquele movimento. Eu apenas gosto do combo: cerveja estupidamente gelada, comida de boteco, amigos e amigas, mais a facilidade de encontrar artistas mostrando sua arte de diversas formas. No entanto, entre as inúmeras tentativas que resultam em erros e acertos visando a almejada revitalização, existe o fator chamado (in)segurança que sempre existiu e nunca resolvido.

E é nesse ponto que eu quero chegar. A massificação gera outro tipo de envolvimento e outras necessidades. Tive de concordar com minha filha sobre o fato de que frequentar o Beco sábado à noite, ou em quaisquer dias e horários em que o comércio esteja fechado, é uma condição insalubre (ela usou essa palavra). É sobre isso que falo. Não adianta idealizarmos frequentar um local fora do seu horário real de funcionamento. 

É desumano até para quem trabalha lá, pois os botecos que servem bebida e petiscos para boêmios são restaurantes que servem refeições à classe operária. O fluxo é esse. E para evitar desgastes causados pela equação expectativa x realidade, devemos abrir nosso olhar para outras coisas, por isso gosto de ir à praia, gosto de frequentar outros lugares, fazer novas amizades. Quando entendemos o movimento, evitamos a nostalgia e outras azias.