Eliade Pimentel

02/05/2022

 

Aos homens e mulheres que produzem comida de verdade
 
Dia primeiro de maio o que temos a comemorar? Perdas de direitos trabalhistas? Exploração do capital pela mais valia? Empresas lucrando exorbitantemente, enquanto trabalhadores(as) vivem à base de migalhas? Pessoas estão adoecendo no mundo todo e o que fazemos, reclamamos do preço do tomate? Reclamamos que o pão acabou às 7h30 na padaria, sem ao menos nos tocarmos que o padeiro começou seu labor ainda no cair da madrugada? 
 
Primeiro de maio temos que reconhecer que nós, cidadãos e cidadãs que vivemos nas cidades, temos nossos privilégios sim. Temos de reconhecer que apesar de todas as dificuldades que passamos para chegar ao local de trabalho, nada se compara a andar léguas e mais léguas para chegar ao roçado. Estou sim, mais uma vez, falando em nome dos homens e das mulheres do campo, que labutam de sol a sol e agradecem quando chegam as chuvas.  
 
É por conta de pessoas vocacionadas assim, que ignoram feriados e dias santos, que comemos a nossa tapioca com queijo, manteiga e ovos. É por conta de pessoas vocacionadas à agricultura que comemos nosso sagrado feijão verde, ofertado de janeiro a janeiro nas feiras públicas do nosso Rio Grande, que felizmente agora tomou um norte e valoriza cada vez os homens e as mulheres que produzem comida de verdade. Trabalhadores(as) da cidade e do campo, temos de nos unir nessa luta pela valorização do trabalho e garantia de direitos. 
 
E ao valorizamos o que vem para nossa mesa, fruto da agricultura familiar, estaremos fortalecendo a luta deles e delas. São milhares de pessoas que até bem pouco tempo atrás eram quase invisíveis aos poderes públicos. Hoje, temos visto esse público tão especial com mais frequência nas redes sociais, nos veículos de comunicação convencionais, além da mídia alternativa. Onde estão, quem são, como vivem? Como fazem para driblar as intempéries do tempo e continuar fornecendo alimentos saudáveis, todos os dias, para a sociedade?
 
Em Natal, temos feiras da agricultura familiar em alguns lugares fixos, como a Feira do Centro Administrativo, no bairro de Lagoa Nova, às quartas-feiras, pela manhã, e tem a Central da Agricultura Familiar situada na esquina das avenidas Jaguarari e Capitão-Mor Gouveia. Praticamente todas as cidades do interior têm uma feirinha pública, algumas com um recorte exclusivo da agricultura familiar. A gente tem que se apegar ao trabalho valoroso, ainda pouco reconhecido, dos agricultores e das agricultoras familiares. 
 
Tenho a certeza de que, se aumentamos o consumo destes produtos, a maioria produzida em base agroecológica, alimentos limpos de agrotóxicos, estaremos valorizando a nossa saúde, e estaremos ajudando a levantar diversas bandeiras, como é o caso da luta pela demarcação das terras indígenas. Mas, o que isso a ver com a agricultura e direitos dos trabalhadores(as) rurais? 
 
Você sabia que a agricultura familiar no nosso estado remonta aos homens e mulheres das cavernas? Ah, não? Visite o Geoparque Seridó, o Lajedo da Soledade e outros locais com inscrições rupestres nas rochas e confira o estilo de vida dos nossos ancestrais. As pinturas impressas com tinta orgânica, resistente ao tempo, revelam que o hábito de plantar e colher é milenar. 
 
Tudo isso, meus amores, significa o trabalho digno, feito com paixão e zelo. Viva a agricultura familiar! Sem esse labor, não teríamos as cores da saúde em nossas mesas. Ainda não há tanto a comemorar, mas devemos ao menos fazer a nossa parte. Parar de reclamar do preço do mói de coentro e valorizar o que há de mais sagrado na mesa, a comida de verdade que resulta da labuta diária de nossos irmãos e irmãs do campo.