Eliade Pimentel

28/03/2022
 
A necessidade latente de viver dias de ócio
 
Alguns o denominam ócio criativo, eu digo apenas ócio. Dias sabáticos. Acordar, levantar, viver. Mesmo em meio a tantas tarefas que urgem diariamente, eu preciso respirar tanto no sentido literal, quanto figurado, para tentar reorganizar a mente, visto que grande parte do meu trabalho é intelectual. Sendo que, como parar sem deixar coisas para trás? Sem acumular as demandas do dia a dia? Esse é o grande dilema. Não é fácil.
 
Pegar um livro de crônicas ou contos para ler e abrir em qualquer página é uma das formas de tentar desanuviar. É como voltar ao mesmo local onde a gente viajou e se encantou um dia. É como relembrar os diálogos que tivemos em vida e foram tão importantes para nossa formação. Relembrar os personagens que tanto nos emocionaram é como reforçar nossos laços de amizade. Eu gosto dessa ideia. Manter vários livros de cabeceira. É quase praticar o poliamor com a literatura. 
 
Outra coisa é ouvir música aleatoriamente enquanto faço tarefas domésticas. Esse tempo nas tarefas intelectuais renova e preenche minha cabeça com novas ideias. É como um bálsamo em tanta coisa a ser feita. Não é exatamente um ócio, pois não pressupõe ficar sem fazer nada, mas me dá um pouco de alívio. As ideias se tornam mais claras, mais limpas, quando não estou necessariamente na frente de aparelhos eletrônicos. É só uma ‘mudança de luta’. Minha mãe usava muito essa expressão.  
 
Certa vez, uma professora no curso de Guia de Turismo passou um exercício para a turma elencar o que gosta de fazer. Na época, eu disse que o que mais gosto de fazer é na verdade não fazer nada, praticar o ‘nadismo’, e dei o exemplo de ficar numa beira de praia conversando besteira e tomando uma cervejinha. Hoje em dia, esse meu conceito mudou bastante, pois agreguei outro aspecto, que a pandemia evidenciou: ficar de boas na lagoa, mas com acesso à internet, para eu continuar produzindo. 
 
A comunicação é a minha energia. Já falei aqui antes o quanto eu amo escrever, produzir e gerar conteúdo, mas tudo isso é extremamente cansativo e chega a ser frustrante em determinadas situações. Então, se eu posso me deslocar a algum ambiente mais prazeroso, eu consigo evoluir o meu tão necessário momento de ócio para além do criativo. Vou chama-lo de ócio produtivo. 
 
Se existe algo que me dá uma enorme satisfação é justamente me deparar com o fruto do meu trabalho impresso, divulgado aos quatro ventos, e eu visualizo que estava na chácara, na casa de praia, num hotel, numa barraca de praia ou na beira da lagoa, ou em qualquer outro lugar que não seja engessada dentro de um escritório. Espero que assim seja sempre que for possível.