Eliade Pimentel

04/03/2021
 
Todas as pessoas vivem eternamente
 
 
Quando alguém morre ou está doente, penso em primeiro lugar nos familiares, nos entes queridos. O que sempre me deixou chocada nesse contexto é a dificuldade de entendermos este rito de passagem implacável, que é a morte. Penso que a maior lição que deveríamos aprender na escola seria como superar uma pessoa que parte desta para outra dimensão, principalmente aqueles ceifados tão inesperadamente. 
 
Infelizmente, o coronavírus levou uma pessoa a qual considerávamos como um irmão, nosso cunhado Nilson. Ele e minha irmã se conheceram aos 17 anos. Moço barbado, ia lá para casa de moto, trajando roupas casuais, calçando sempre um chinelo. Minha mãe, querendo arrumar motivo para acabar com aquele namoro, dizia que o rapaz era feio. Malamanhado. Essas coisas depreciativas que as genitoras geralmente dizem sobre os pretendentes das suas filhas.    
 
Eu era menina. Achava curioso aquele ritual. Ele chegava, minha irmã dava um tempo com ele na calçada, depois entrava e levava um copo bem grande de água para o seu namorado. E assim fizeram por algum tempo, até as coisas se firmarem e a vida os encaminharem ao matrimônio. Casaram, construíram família, duas filhas maravilhosas, e por último, veio uma netinha linda. Minha mãe um dia reconheceu que Nilson era um companheiro maravilhoso para minha irmã.    
 
Ele fez um bocado de coisas antes de se estabelecer como empresário do ramo de buffet, sempre com minha irmã do lado, até que as filhas e o genro também entraram no negócio. O que tenho a dizer de Nilson foi que ele era muito massa, um cara amoroso com as filhas, com a mulher, e na maioria das vezes, sempre muito bem humorado. Um cara que trabalhou muito para garantir um patrimônio para a família. Desde o anúncio de sua morte, tenho pensado nas minhas sobrinhas. Ainda é cedo, claro, mas um dia elas se pegarão fazendo algo que é a cara de painho, como elas o tratavam, e vão sorrir da lembrança. 
 
Acredito sim em vida eterna, ou seja, a lembrança da pessoa eternizada em nossa memória. Quando alcançamos esse estágio, digamos que seja o nirvana de bem viver, que é quando aprendemos a seguir a nossa jornada com as lembranças dos entes queridos em nossa memória, muitas vezes nos ensinando a viver. Meio confuso, mas é isso. Tenho certeza de que antes de tomar qualquer atitude, as meninas pensarão antes no pai, o que ele faria em seu lugar. 
 
E com certeza uma das coisas que ele nunca deixaria de fazer seria um banquete bem farto, para comemorar as coisas boas da vida. Deixem o tempo passar, deixem a vida melhorar. Vamos ainda nos lembrar muito de tantos encontros maravilhosos que ele comandou. Noites em claro, cuidando de detalhes preciosos para realizar as melhores festas da cidade. Legado esse que vocês conduzirão com muita competência, todos temos certeza.  
 
Está tudo muito recente. Minha irmã adoeceu. Até o fechamento desta coluna, estava em tratamento intensivo contra o mesmo vírus, esse que o presidente Bolsonaro disse que era uma gripezinha. Estamos em corrente de fé, apostando na sua recuperação. Em 24 horas, 1.910 pessoas morreram de covid. Pedro Gorki, um jovem militante sensato, fez uma conta no mínimo curiosa: esse número significa que morreu uma pessoa a cada 45 segundos; se fizéssemos um minuto de silêncio para cada pessoa falecida, passaríamos um dia calados.  
 
Perdi meu pai quanto eu tinha 15; meu irmão, nos meus 20 anos; e minha mãe, quando eu estava completando 42. Ela se foi no meu aniversário. E mais recentemente, perdi dois grandes amigos: o professor Nonato Gurgel, pela covid, e Carlos de Souza, pelo câncer. Eu os tenho na memória, como figuras eternas em minha vida. De vez em quando, sonho com minha mãe. A cada dia, tenho mais consciência de que a morte é um rito inevitável. A cada perda, tento curtir ao máximo as pessoas em vida.