Eliade Pimentel

17/09/2020
 
Pedir ajuda é uma atitude de coragem
 
 
Aquele famoso “oi, tudo bem, como vai?” é considerado pela maioria das pessoas como mera formalidade e, portanto, não requer uma resposta real e verdadeira. Porém, eu não sou assim. Muitas vezes em que eu não estou legal, que estou precisando de alguma coisa, eu faço meu desabafo. Ou, mesmo sem me perguntarem, eu peço um socorro a quem considero que pode me ajudar de alguma forma. 
 
Partindo do princípio de que o “não” a gente já tem, eu realmente não tenho papas na língua quando o assunto gira em torno da minha sobrevivência, do meu bem-estar e da minha filha. Meus pedidos são bem variados: o clássico desconto à vista - “e no débito também?”; caronas – “ei, você está saindo agora?”; roupas e acessórios para doação – “amiga, sabe aquela limpa no guarda-roupa? quando você fizer, lembre-se de mim”, costumo dizer por onde passo. 
 
Já ouvi de pessoas próximas: mas tem gente que não gosta de dar carona ou de fazer doações. Ao que eu respondo: ah, nem ligo. Eu gosto de “forçar” um pouco a boa vontade das pessoas. E assim eu já consegui renovar meu look (e da minha filha) quando eu mais precisava, pois em diversas ocasiões recebi mensagem de amigas falando que haviam separado um pacotão para mim. “Dê uma olhada e o que não der certo, fique à vontade para passar adiante”. 
 
De modo que, nesse aspecto, acabei por me tornar referência na minha comunidade. Recebo, filtro e passo adiante. Acho um giro muito justo para o meio ambiente, pois reutilizar é uma forma de praticar o consumo consciente. Com a economia que faço em roupas e acessórios, invisto na minha qualidade de vida em forma de passeios e viagens. Caso contrário, eu mal sairia do lugar, pois meus rendimentos não são lá essas coisas. Nunca soube ganhar (muito) dinheiro, porque prezo minha saúde em primeiro lugar.
 
Sou portadora de uma doença auto-imune de cunho reumatológico (doença de Behçet) e precisei reorganizar meu jeito de ser e de viver para me manter em equilíbrio. À custa da sobrevivência, fui me reinventando aos poucos quanto ao trabalho. Profissional formada há mais de 20 anos, por muitos e muitos anos atuei exclusivamente como freelancer. Como se trata de um mercado muito fechado e com poucas opções, eu precisei criar uma espécie de alerta. 
 
Ao encontrar algum colega e ouvir o clássico: "tá por onde?", referindo-se ao local de trabalho, minha reposta era sempre uma espécie de pedido de socorro. "Eu continuo 'frilando'. Se você souber de alguma coisa, ficarei muito grata com a indicação". Assim, minha vida profissional foi fluindo. Quando não surgia nada, eu mesma entrava em contato e fazia uma abordagem direta mesmo. Agradeço tanto por ser dessa forma, porque conquistei trabalhos maravilhosos, fiz amizades e hoje em dia continuo desse mesmo modelo. Despachada. 
 
Como é bem difícil viver apenas do labor como jornalista autônoma, e também por conta da saúde, aos poucos fui desenvolvendo outras habilidades (pois a escrita pode me levar à exaustão, então preciso diversificar as atividades). Na adolescência eu já dava meus pulos fazendo uns brigadeiros e apostando em revistas de produtos de beleza; filha de comerciantes, mesmo que eu fugisse, a genética falou mais forte e o tino comercial para "me vender" foi aflorando a cada real necessidade. 
 
Teve a época dos tomates secos, da granola, das trufas recheadas, depois surgiu a fase dos bolos de banana & cia (fase que vira e mexe volta à tona), dos mini bufês, e assim por diante. Aliás, todas essas variações fazem parte do menu de Delícias Lilica, minha "grife" de comidinhas. Se houver demanda e eu tiver tempo e disposição, arregaço as mangas e boto meu negócio pra frente. Com esse talento, e por criar minha filha em carreira solo (sem pai presente, sem pensão), não foi uma nem duas vezes que eu gritei por socorro para amigas e amigos a fim de me capitalizar para pagar despesas de escola e esportes. 
 
Criei o sistema bolo-fidelidade. Pagamentos por antecipação, produtos entregues de acordo com a rota e as fornadas. E assim, paguei 10 anos de mensalidade na Escola Doméstica para minha filhota. Sendo multifacetada. Até D. Noilde Ramalho era minha cliente. Hoje, tenho empregos fixo, sou repórter do Governo do RN, mas nem por isso deixo de lado minhas virações. Aqui e acolá levo meus bolos para meus clientes antigos (e novos também). Eles me agradecem por eu fazer as delicinhas e ainda levar pessoalmente cada bolo como um mimo. 
 
Neste mês, temos a campanha Setembro Amarelo de prevenção ao suicídio. Eu dei essa volta para dizer a quem guarda suas dúvidas, suas angústias, seus devaneios, suas necessidades, seus problemas,  suas palpitações e seus medos somente para si, que não é sinal de fraqueza pedir socorro. Seja forte. Tome uma atitude. Grite bem alto ou apenas sussurre. Alguém, às vezes quem você menos espera, vai lhe dar um abraço, um cheiro no cangote, uma oportunidade de emprego, um carinho, vai lhe dizer o quanto você é especial!!! 
 
Se sua coragem não for suficiente para desabafar a quem esteja próximo, procure um plantão psicológico. Ligue 0800 281 4012. Há uma força-tarefa se instituições e profissionais criada especialmente para lhe ouvir. Só não deixe de externar o que lhe aflige. Estamos juntos!!!!