Vássia Silveira

01/11/2017
Um rufo de britadeira no coração. A vida suspensa num fio invisível – “La route chante, quand je m'en vais”, diz a canção recém-encontrada... Lá fora e aqui a alma busca lugar no mundo. É tanto cinza, tanta fuligem! Os prédios açoitados pelo tempo, a utopia escalando morros e morros e morros. Até sucumbir no asfalto.
 
A rua espirra sangue e silêncio. E a alma segue, desajeitada, arrastando a sombra: o “bom dia” respondido em riso sincero, a freada brusca na esquina, os pombos banqueteando-se na avenida, próximo ao semáforo.  Um passo a mais, o paço semideserto. A mangueira com a boca escancarada, o flanelinha esquálido, olhos pregados nas grades da catedral.
 
Quantos anos pesam nos ombros da lembrança?
 
Por um descuido, a melancolia se instala. E vem ao estômago a ânsia. Nostálgicas cenas de um viver mais atento. O som do telefone cinza tocando no corredor, a vitrola amarela no quarto – os vinis... Por onde andam, agora, os que tive?
 
A telha arrastando o chão. Um vão abrindo-se em labirintos. E a vizinha gritando da janela “Vai querer chope?”.
 
No canto do olho, a menina do vestido azul de bolinhas. “Vem, segura minha mão”, diz ela. Penso abraçá-la, mas logo me dou conta de que é ela quem me envolve com seus pequenos braços enquanto desfaleço nesse colo ainda tão cheio de esperança.
 
(Em dias assim, é a infância – ou a ideia desse assombroso território – que me salva).