Rosângela Vieira Rocha: “O mercado Editorial não dá às mulheres o mesmo espaço que aos homens"

02/03/2022


 
Cefas Carvalho
 
 
Nascida em Inhapim, em Minas Gerais, Rosângela Vieira Rocha  mora em Brasília, onde milita na literatura. Tem quinze obras publicadas, oito para adultos (sete romances e um livro de contos) e sete infanto-juvenis. Recebeu vários prêmios literários, como o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG-1988, com o romance "Véspera de lua", e a Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, com a novela “Rio das pedras”. Está preparando o lançamento de seu novo romance, “Invisíveis olhos violeta”, deve sair impresso em junho de 2022, pela Editora Ventania.  É Mestre em Comunicação, escritora, advogada, jornalista e professora aposentada da FAC/UnB. Colunista da revista digital literária “Germina”, foi membro de várias comissões julgadoras de concursos literários.  Participa ativamente do Movimento Feminista Mulherio das Letras. Para falar disso tudo, ela concedeu entrevista ao Potiguar Notícias. Confira:
 
 
Você tem mais de dez livros publicados, entre adultos e infanto-juvenis. Existe uma linha, um conceito que esteja em toda a sua obra? Como avalia a sua produção literária?
 
Tenho catorze livros publicados, e ainda neste semestre devo lançar o 15º, o romance “Invisíveis olhos violeta, em fase de produção na editora Ventania, da Rosa Amanda Strausz. São sete infantojuvenis e oito para adultos. Destes últimos, sete são romances e há um livro de contos, Pupilas Ovais, de 2005. Quanto ao conceito que permearia a minha obra, sempre tenho dificuldade para defini-lo, pois a resposta não é redonda, fechada, formulada, como na academia, por exemplo. Fui professora universitária durante duas décadas, daí a analogia. Mas há pistas, algumas linhas de respostas. Vou me referir primeiro à produção de livros infantis. Em todos, a maioria destinada ao público na faixa de 8-10 anos, existe uma preocupação com fatos contemporâneos, como bullying na escola, racismo e extinção de aves da Mata Atlântica. Eu diria que são livros realistas, assim como os romances e o livro de contos. Só escrevo sobre temas que me mobilizam, angustiam, me fazem refletir e “agir”. Como escritora, minha função é pôr esses temas em discussão, abri-los para o público, oferecer possiblidades de debates. Apresentar o meu olhar sobre eles, que provavelmente despertará novos e diferentes olhares. Nos romances, creio poder afirmar que os temas são atuais e universais, como o luto, por exemplo, trabalhados por mim em dois livros, O indizível sentido do amor e O coração pensa constantemente. Em Invisíveis olhos violeta a protagonista tem setenta anos e a obra trata das possibilidades amorosas que as mulheres idosas têm num país como o Brasil, machista, que privilegia tanto a juventude. No fundo, acho que busco os lugares de fissuras na tessitura social, os buracos, os nós. Todos são livros voltados para a nossa realidade, o contexto social em que vivemos.  
 
 
Em romances como “Nenhum espelho reflete seu rosto”, você aborda temas delicados como a situação da mulher em relação à manipulação e ao narcisismo perverso. Como foi investigar esses assuntos e qual a recepção que você teve de mulheres que leram a obra?
 
Sem deixar de lado o tamanho da edição, bem pequeno, o livro foi bastante lido, resenhado e debatido. De modo geral, as mulheres gostaram e algumas se identificaram com a personagem principal, Helen. Recebi muitas mensagens privadas em que algumas relataram   suas experiências pessoais com perversos narcisistas. O transtorno de personalidade denominado narcisismo perverso é muito mais comum do que se pensa. Existem mulheres narcisistas, mas estatisticamente em menor número. Foi o livro mais trabalhoso que já escrevi, em matéria de pesquisa. Comecei assistindo a vídeos do Youtube —há excelentes Youtubers que falam sobre o assunto — e depois passei à literatura especializada. Tive de aprender alguns conceitos psicanalíticos para dar conta de elaborar o perfil de Ivan, o vilão da história. Gostei muito da experiência e do resultado, assim como da acolhida dada à obra. Muitos homens leram, também, e isso me gratificou. Sem contar que a história vale como “alerta” para pessoas de todos os gêneros. Helen é joalheira e pude dar vazão também à antiga e grande paixão que sempre nutri por joias e gemas preciosas. 
 
 
Você é entusiasta do coletivo Mulherio das Letras, já tendo participado de todas as edições nacionais presenciais. Como avalia o Mulherio das Letras e qual a sua importância? E quais os planos para o chamado pós- pandemia?
 
É verdade, sempre brinco que sou do “núcleo duro” do Coletivo Mulherio das Letras. Participo do Movimento desde o início, por afinidade de ideias e por causa da minha estreita amizade com a escritora Maria Valéria Rezende. É um Coletivo feminista, que nesses poucos anos de existência já mudou a vida de muita gente. Estendeu-se pelo mundo inteiro, o Mulherio das Letras já existe em vários países. Um Movimento realmente próspero e exitoso, que estimulou dezenas, centenas de mulheres a escrever ou a tirar seus manuscritos das gavetas. Sem contar as coletâneas do pessoal do Mulherio. É um caminho sem volta, e é um caminho iluminado. O país precisava de algo assim há décadas, e finalmente ocorreu. Quanto aos planos pós-pandemia, estão sendo feitos aos poucos, na medida em que o controle do coronavírus for se concretizando, o que, espero, não vai demorar.
 
 
Na sua opinião, o Mercado Editorial dá às mulheres que escrevem o mesmo espaço que aos homens? Como vê a relação entre mercado editorial e escritoras?
 
Não, infelizmente o mercado editorial não dá o mesmo espaço. Essa situação vem sendo modificada nos últimos anos, a passos de tartaruga, é bom que se diga. Mas os concursos literários, cuja tendência sempre foi a de premiar mais escritores que escritoras, vêm se movimentando, pois há um número crescente de escritoras premiadas. Ainda se trata de uma modificação lenta, há um longo caminho a ser percorrido e o descompasso vem de muito tempo. O Mulherio das Letras teve e tem um peso sobre essa questão, sem dúvida. Ao propiciar que as mulheres pusessem a “boca no trombone”, o Mulherio deu visibilidade a esse descompasso. Se pensarmos em livros resenhados, por exemplo, os de autoria masculina são em número muito maior. Não me refiro aqui estritamente ao “mercado editorial” e sim à cadeia do livro em todos os seus passos, até chegar às mãos dos leitores. Gostaria de acrescentar que, no meu entendimento, existe também forte preconceito em relação às escritoras mais velhas. Imagino que as editoras consideram mais vantajoso investir em escritores e escritoras jovens, que ainda poderão escrever muitos livros. Percebo, por exemplo, que aos cinquenta anos uma escritora já tende a ser preterida pelas editoras mais importantes. Quanto mais o tempo passa, mais difícil se torna a situação das escritoras idosas, mesmo para as que já obtiveram prêmios literários importantes, como o Jabuti.    
 
 
Homens leem o que as mulheres escrevem e publicam?
 
Nos últimos anos, vem aumentando o número de homens que leem obras de autoria feminina. Lentamente, como geralmente são as mudanças culturais, especialmente num país como o Brasil. Nosso trabalho literário está ganhando maior visibilidade e isso provoca certa curiosidade por parte dos leitores do gênero masculino, especialmente dos “homens sensíveis”. Tenho leitores homens e nem todos são escritores, isto é, não leem por “dever de ofício” ou para se manterem atualizados e sim por prazer, por puro deleite. Vale ressaltar que não pretendo diminuir a importância da leitura dos escritores, quero ser lida por meus pares, é claro, mas digo isso apenas para ampliar a questão.
 
 
Você publica periodicamente romances. gênero literário que exige mais de quem escreve. Você tem um método ao escrever um romance?
 
Realmente, produzi bastante nos últimos anos: de 2017 para cá escrevi quatro romances, quase um por ano. É o gênero literário com que mais me identifico, em que me sinto mais à vontade. Acho difícil — para citar a analogia de Cortázar na sua teoria do conto — ganhar o leitor por nocaute, prefiro ganhar por pontos. Sinto-me mais segura na narrativa longa, que dá voltas e é escrita e tecida mais vagarosamente. Gosto muito de fazer pesquisa, hábito adquirido na docência, e no romance esse prazer vem a calhar. Primeiro, leio tudo que posso sobre os temas que vou abordar na história. Leio, releio, geralmente ensaios, literatura especializada, assisto a vídeos, filmes etc. Depois escolho o título, pois só começo a história com o título definitivo. Considero o título a “energia” da história, como ocorre com os arcanos maiores, no tarô. Se não encontro a “energia”, não consigo desenvolver o resto. E adoro títulos, trabalhei muito esse assunto com meus alunos dos cursos de Comunicação. Quanto ao método, não faço planejamento dos capítulos e nem sou rigorosa com horários, como alguns colegas. Há dias que tenho outros compromissos e não escrevo, o que não me provoca nenhum tipo de angústia. Sou professora aposentada, vale ressaltar; meus horários são bastante flexíveis. Tenho grande fragilidade nos dedos das mãos, que inflamam e infeccionam por qualquer dê cá uma palha, algo que venho pesquisando há algum tempo com especialistas, e não posso digitar por muitas horas seguidas. Sem contar as dores causadas pela hérnia cervical. Enfim, questões da idade... Raramente leio ficção quando estou escrevendo, provavelmente por precaução; prefiro livro-reportagem e outras leituras que falam menos às emoções, digamos.     
 
 
Como avalia as redes sociais para quem escreve literatura? Trazem mais aspectos positivos ou negativos?
 
Para mim, trazem muito mais aspectos positivos. Algumas redes têm grande potencial para divulgação dos livros, das resenhas e comentários dos leitores. Ainda adotamos no país a divulgação boca-a-boca, a que funciona melhor, a meu ver. E para isso, as redes sociais são fundamentais. Podemos ter conhecimento, também, do trabalho dos colegas, e isso é significativo. Afinal, é o nosso ofício. Além disso, vendo pessoalmente os meus livros, através das redes. São importantíssimas para isso. Creio que o único aspecto menos positivo é o fato de querermos prolongar o número de horas dedicado a elas, mas o controle do tempo, essencial quando estamos escrevendo um romance, depende de cada um. 
 
 
Quais os seus projetos literários para este ano de 2022?
 
Este ano pretendo envidar esforços na realização de lançamentos, na divulgação e nas vendas de Invisíveis olhos violeta. Raramente começo uma nova história quando estou na “energia” de outra. Depois de percorrer todos esses passos, aí sim, posso voltar a escrever. O que não impede, é claro, que paralelamente eu pense em outros temas, mas é tudo muito embrionário, ainda. É a fase da alquimia chamada nigredo, a primeira, em que tudo é difuso, disforme, escuro, ainda se encontra submerso, no inconsciente. Para passar ao albedo, a etapa em que incide a luz, leva algum tempo. Gosto muito dessa analogia, pois sempre tive interesse pelos processos alquímicos, que me parecem esclarecedores para várias situações de nossas vidas.