Ilana Eleá: “Na literatura há artistas e ênfases para tudo, essa diversidade é fabulosa”

26/02/2022


 
Cefas Carvalho
 
 
Nascida no Rio de Janeiro, a poeta e escritora Ilana Eleá é formada em Pedagogia, tendo mestrado e doutorado em Educação pela PUC-Rio. Mora na Suécia desde 2011, com o marido e dois filhos, e vem se destacando no ativismo literário e pelo fomento à leitura e pelos livros que vem lançando. Publicou “Encontros de neve e sol” (e-galáxia, 2018; Capire Edizioni, 2019), “Poemas Acesos” (publicação bilíngue português-italiano pela Patuá, com tradução de Giacomo Falconi, 2020) e “Emma e o sexo” (e-galáxia, 2021). Juntamente com Angela Brandão e Lucelena Ferreira, lançou “Fios de corte” (7 Letras, 2021) na qual criaram textos a partir do Chile, Suécia e Brasil, onde respectivamente vivem, que dialogam entre si, abordando sexualidade, vida emocional, amor e família. Pelo projeto biblioteca infantil aberta ao público no jardim da sua casa em Estocolmo recebeu em 2018 o Prêmio Bättre Stadsdel como promotora de cultura. Ela falou disso tudo em entrevista para o Potiguar Notícias. Confira: 
 
 
Você publicou pela Editora Patuá, em edição bilíngue português-italiano, um elogiado livro, o "Poemas Acesos". Como foi o processo de escrita das poesias e de publicação do livro?
 
Ao começar a viver na Suécia, a condição de imigrante em um país com língua estrangeira (eu disse extraterrena?) me caiu como areia aos olhos. Ainda que no privilégio da condição de emigrar por escolha e por amor, a travessia Brasil-Suécia foi dando um apertado no meu peito, um sufocado na garganta. As frases perdidas, exaustas e afogando dentro da boca de tanto tentarem traduzir-se. A escrita em prosa não era mais suficiente para a minha dor. Fui buscar abrigo nos versos, acendê-los como velas para enxergar melhor o que carregava dentro do peito. “Poemas Acesos” é separado por diferentes seções, cada uma delas marcada por uma tipologia para o acender-se. O livro começa com “Velas Caseiras”, quando o cotidiano doméstico de um inverno interminável pesa e confunde a criatividade, o saber de si. Um dos poemas mais simbólicos é o que abre a publicação, “Ice fog”, quando o eu lírico se questiona: “É o ice fog/ você já ouviu falar que o ar/ grita e paralisa/ se lhe tiram o pulmão?” 
 
É a partir dessa paralisia que “Poemas Acesos” se desdobra e se refaz por um caminho confuso de saudade e tentativa de reconhecimento, de “tentar morada no silêncio tenor da neve”. A maternidade, amizade e libido aparecem confundidas com pedidos de socorro, o trânsito pela vida em pulsando, multiplicada, uma força e fogo para que o reconhecer-se nas grutas amansasse a alma. 
 
Depois de ter sido abatida por uma forte depressão, os versos se mancham de fármacos e internações em hospitais psiquiátricos, são as “Velas de Agonia” e “Velas Medicinais” queimando, um cotidiano alterado por alucinações. O eu lírico aqui sofre de uma insistente "insônia de si” até que as “Velas Mediterrâneas" abrem novos caminhos, nossa fuga em família para um ano na Toscana, com seus ciprestes coroando um sol disponível, vivo e constante como os abraços da cultura vizinha, um manto de cura.
 
“Poemas Acesos” tem a capa extraordinária da pintora Martha Werneck, a artista também assina o posfácio. Vera Lúcia de Oliveira, uma das minhas poetas favoritas, presenteia o livro com o prefácio, motivo de encantamento e brinde. A tradução do Giacomo Falconi entrega os versos na língua sonhada italiana, lugar de deleite: a fantasia!
 
 
Você publicou recentemente o também elogiado "Emma e o sexo", primeiro volume de uma trilogia, que propõe de maneira ousada reflexões sobre desejo e erotismo. Como foi o processo criativo deste livro e como está o processo para os dois outros da trilogia?
 
Para escrever “Emma e o Sexo”, eu queria que a narrativa erótica passasse pelo ponto de vista do prazer feminino: a autodescoberta, o auto amor, o pegar o espelho e apreciar o que se tem como pétala e também como desejo e libertação de rígidas amarras sociais normativas. É daí que o estudo, a pesquisa e as vivências eróticas passam a se misturar: quanto mais lia para compor as personagens, mais fascinada me sentia para experimentar o que investigava. Assim como a personagem principal Emma - uma antropóloga sueco-brasileira que se vê em dilemas para manter a distinção ética para o seu trabalho de campo - , eu, como autora, também assumo ter sentido a mão de Emma na minha, inspirando novas ousadias. Questões relacionadas ao sexo e novas formas de amar passaram a vibrar como ímã e comecei a estudar Sexologia na universidade. 
 
Agora estou dedicada à escrita do volume 2, “Emma e o Poliamor”. Além de participar de piqueniques poliamorosos, frequentar a cena de swing, BDSM e queer em Estocolmo, conversar com pessoas que vivem em diferentes possibilidades abertas pela CNM (não monogamia consensual) e de ter inclusive aberto o meu casamento como comemoração pelos nossos dez anos juntos, a rotina é de escrita, entrevistas, estudo teórico sobre o poliamor e mergulho em livros eróticos clássicos. Atualmente, o estudo de Sexologia tem me ajudado a pensar questões atuais do campo das sexualidades. 
 
 
Você mora na Suécia desde 2011. Como isso afetou a sua percepção da realidade e consequentemente a sua literatura?  
 
Quando me perguntam o que me vem à cabeça quando penso na Suécia, a resposta é: nos pais cuidando dos seus filhos. Essa imagem reflete as políticas públicas de um país que se autodenomina feminista. A licença-parental de 480 dias, para que não apenas a mãe, mas ambos os responsáveis possam se dedicar aos bebês até a entrada na educação infantil (geralmente a partir de um ano e meio) tem um impacto em toda a forma em como a sociedade se estrutura. A literatura infantil espelha esse enfoque, com uma diversidade de famílias e de gêneros sendo trazidos para dentro das narrativas e ilustrações, além da quebra de estereótipos em tons de leveza e naturalidade. Mudei-me em 2011 e o estranhamento da cultura, da língua, do clima eram completamente distintos do que eu entendia como mundo e logo comecei a escrita de um diário, hoje livro, “Encontros de neve e sol”.  Sobre a minha forma de escrever, a poesia nórdica teve grande influência. Existe um distanciamento e uma melancolia nos versos deste hemisfério e a página “Um poema nórdico ao dia”, com poesia traduzida para o português, foi uma porta imensa sendo escancarada para o que eu tanto precisava, os sentimentos enfrentando as estruturas, os silêncios e os espaços-tempo para encontros deixando de se dilatar, impregnando os versos. 
 
 
Com uma biblioteca infantil aberta ao público no jardim da sua casa em Estocolmo você recebeu em 2018 um prêmio como promotora de cultura. Como foi esse processo? 
 
Como contei para uma entrevista para a Claudia Wallin na RFI, a ideia nasceu de uma crise pessoal. Estava sendo difícil aprender a língua sueca e me adaptar à nova cultura e aos dias escuros do rigoroso inverno nórdico. Depois dos desafios de ser atravessada pela depressão, tive a ideia de transformar o quintal de casa num espaço de convivência literária aqui no bairro. Construímos uma casinha de madeira (réplica de uma casa sueca dos anos 20), um acervo diversificado com foco em questões existencialistas e poéticas, livros belamente ilustrados, premiados. Atividades semanais passaram a ser oferecidas, com bolo, café, leituras em voz alta e performances. Mesmo no inverno as atividades eram mantidas ao redor da fogueira, antes de entrarmos em casa, algum adulto ao piano. Eu precisava acender o sentido de comunidade, de interação, de sociabilidade, de troca, de literatura no bairro. Um dos retornos mais emocionantes foi saber que crianças vizinhas passaram a brincar de “bibliotek barnstugan” nas suas casas, reproduzindo as atividades que fazíamos: os pais mandavam fotos delas como cartões manuscritos da biblioteca em suas próprias versões, também colando adesivos, oferecendo lanche e leitura em voz alta para os irmãos mais novos ou bonecas. Atualmente a biblioteca está fechada para atividades ao público, mas o acervo continua disponível para quem desejar agendar e pegar livros emprestados.  
 
 
Como foi a sua produção literária durante o período mais severo e de confinamento da pandemia? Acredita que de maneira geral as pessoas leram mais neste período?
 
Não tivemos período severo de confinamento na Suécia durante a pandemia, motivo de muita incerteza e agonia para mim. Continuei trabalhando como bibliotecária escolar em uma escola internacional, porque as escolas não fecharam, tentando me proteger com máscaras em um país onde elas não eram exigidas. Uma tensão pelo “novo normal à la sueca” foi vivida com angústia, um pavor pelo período incerto para o mundo, o peso do luto pelas mortes ao redor do globo. 
 
Foi durante a pandemia que o convite da Lucelena Ferreira chegou para que eu e Angela Brandão estivéssemos juntas pelo whatsapp (Lu no Brasil, Angela no Chile e eu na Suécia) pensando poesia. Ao longo de 2021, construímos um livro de poesias, nosso artefato a seis mãos, e “Fio de corte” foi publicado em janeiro deste ano pela editora 7letras.  Como a Lucelena tão bem resumiu, o livro “traz uma ética e uma estética do afeto entre mulheres. É um meta-livro, cujo processo de construção a três ilustra o que a nossa poesia preza: a união feminina aninhando a coragem”. 
 
 
Em termos de Brasil, acredita que no Sul-Sudeste leem o que é produzido em regiões diferentes, como Norte e Nordeste? Em um país continental a literatura consegue sair das bolhas estaduais e regionais?
 
A diversidade é uma chave preciosa. O repertório de experiências de leitura (e logo, de vida) se enriquece quando se transita pela proximidade e pela diferença:  de gêneros literários, passando da prosa, pelo cordel à poesia, por se conhecer autores vivos e mortos, pelo mergulho em títulos clássicos e contemporâneos, escritos por autores de etnias distintas, livros escritos por mulheres, por minorias, publicados por grandes e pequenas editoras, por autores de diferentes regiões do país e mundo, por brasileiros que morem no exterior. O Brasil é um país continental, com âmbitos regionais multifacetados, o que em si porta um convite à descoberta e curiosidade leitora por pluralidades. Uma pergunta que podemos fazer às bibliotecas, às livrarias, aos suplementos literários, às editoras (excelente a iniciativa da Urutau em fazer chamadas específicas para autores de diferentes regiões do Brasil, por exemplo), aos grupos online para trocas de dicas de leitura, às nossas estantes caseiras: o acervo é diversificado? Pois deveria. 
 
 
Como analisa a percepção que a Europa tem da Literatura Brasileira? Autores/autoras do Brasil são lidos/lidas em terras europeias?
 
Clarice Lispector é a nossa maior representante na Suécia, motivo de imenso orgulho, debates, publicações e interpretações cênicas. A prestigiosa editora Tranan tem títulos da Clarice, Guimarães Rosa, Ferreira Gullar, Elvira Vigna, Andrea del Fuego, J. P. Cuenca e acabou de publicar Emilio Fraia, além de uma edição com contos de vários autores brasileiros. Em 2014, a literatura brasileira foi homenageada na maior feira de livros do país. Representando o que temos de fascinante na literatura infantil, André Neves já foi homenageado e premiado com o seu acervo extraordinário por aqui. Ana Maria Machado tem também vários títulos em sueco.
 
 
Acredita no papel social e libertário da arte? Crê que o artista tem um papel social a desempenhar?
 
Na literatura há artistas e ênfases para tudo, essa é a diversidade fabulosa. Há quem performe as críticas sociais com o grito, com o explícito, cerrando o punho. Há quem prefira um murmúrio, um verso de silêncio entre as deixas e entrelinhas do cotidiano. A expressão artística em si, independente do uso, cumpre o seu papel social porque precisamos existir também pelo simbólico, enigmático, encontrar as profundezas do sentimento, dizer de uma outra forma. Talvez seja por isso que a crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda tenha escrito assim sobre o nosso livro “Fio de Corte”: “essa dicção que enxergo nos textos me chama a atenção porque é uma forma bem nova e pessoal de ‘olhar para dentro para ver o que está fora’, que se sintoniza, e ao mesmo tempo, se distancia da poesia feminina recente. Os temas de ‘Fio de corte’ tratam da mulher de hoje, mas o tom é intimista. Entre o corpo e a alma parece não haver descontinuidade”. Pessoalmente, como artista, escolho um idioma que não faça demandas aos leitores, mas que traga a experiência literária como mistério e singelo convite. 
 
 
Fala-se que de maneira geral o brasileiro lê pouco. Qual a sua opinião sobre isso? E na Europa as pessoas em média realmente leem literatura como se imagina?
 
A média de leitura na Suécia é uma das mais altas do mundo: a última vez que conferi, em 2017, o país estava em sétimo lugar com sete horas por semana por pessoa. Outras enquetes de 2021 mostram que um a cada quatro adultos lê livros diariamente, e o estudo nacional de 2021 confirma que a média diária de leitura é de uma hora por pessoa. O acesso ao livro na Suécia é excelente, com bibliotecas públicas e programas como o “Bokstart”, no qual famílias com recém-nascidos recebem uma carta-convite para a biblioteca mais próxima, ganham uma antologia de presente e são apresentados às atividades literárias no espaço local, para crianças desde o berço. Uma altíssima produção de literatura infantil é uma das marcas registradas do país. Há uma queda na leitura entre jovens, entretanto, como resultado de um alto consumo de mídias digitais. 
 
 
Quais seus próximos projetos?
 
Os meus próximos projetos são os atuais porque a escrita da trilogia vai me ocupar pelos próximos dois anos. “Emma e o Sexo” foi publicado ano passado, “Emma e o Poliamor”, se tudo correr bem, será impresso esse ano, e “Emma e o Tantra” em 2023. Tenho sido sondada por produtoras de audiovisual sobre uma possível adaptação da trama para as telas, o que muito me excita e reverbera. O estudo de Sexologia na universidade tem aberto um percurso paralelo para novas frentes de atuação profissional. Vislumbro um espaço híbrido que abrace tanto o erotismo na literatura como também na vida pessoal dos leitores. E, claro, vou continuar dedicada ao fazer poético — esse trançado enigmático que me atordoa e persegue com a mais fascinante das intenções.