Mar Becker: 'Mulheres têm feito excelente poesia no Brasil e não é de hoje que isso acontece'

27/01/2022


 
Cefas Carvalho
 
 
Uma das maiores revelações da poesia brasileira nos últimos anos, lida, comentada e premiada Mar Becker nasceu em Passo Fundo (RS) e atualmente mora em São Paulo (SP). Ela publicou em 2020 o livro de poesias “A mulher submersa”, seu primeiro livro pela Editora Urutau (duas edições, uma no Brasil e outra em Portugal) que chamou a atenção dos leitores e em 2021 recebeu o Prêmio Minuano, concedido pelo estado do Rio Grande do Sul e foi finalista do Prêmio Jabuti no gênero Poesia. Divulgando sua poesia nas redes sociais, Mar Becker conquistou milhares de leitores e leitores atentos e em entrevista ao Potiguar Notícias falou sobre sua produção poética, pandemia, projetos e muito mais. Confira:
 
 
“A mulher submersa”, seu primeiro livro de poesia, foi premiado, concorreu ao Jabuti e conquistou leitores e leitoras pela intensidade. Como foi o processo de escrita do livro? Pensou no livro conceitualmente desde que começou a produzi-lo?
 
Meu processo de edição de um livro costuma ser muito orgânico. Não o planejo antecipadamente (quero dizer, não quanto à edição), ele acontece por si, e só um pouco depois me dou conta do contorno dos temas e organizo. O curioso é que, já no desenvolvimento, quando ainda o ímpeto de escrita está mais próximo do tatear do que do lançar luz, já nesse estágio de cegueira, de escuro, há certo movimento de autocuradoria intuitiva. Talvez seja uma inteligência mais inconsciente mesmo, mais de pele.
 
No caso de “A mulher submersa”, diria que o começo foi entre 2012/13, quando passaram a me rondar algumas imagens de mães, meninas e bonecas. 
 
“A mesma noite atravessa a boca das mães até a boca das filhas, e da boca das filhas vai à boca das bonecas, num ciclo de perpetuação da fome”.
 
No poema, o texto não é exatamente esse. Trago-o disposto assim para falar da imagem, porque foi dela que se desdobrou a seção fundante do livro, “As filhas, as mães, as avós”. Depois veio “Sou uma cidade submersa”, com a visão de uma mulher estéril, que surge desértica, salífera – e que, na cama, à luz primeira da manhã, vinga “repleta de estrelas, de constelações”.
 
É sempre uma cena-esfinge, o início. Procuro me aproximar com cuidado, não para não ser devorada – é impossível –, mas para que a devoração seja mútua. Para que seja a um só tempo barbárie e flerte.
 
 
Ainda sobre as premiações, qual sua avaliação sobre a importância (ou não) delas e como vê o fato de pela primeira vez cinco livros escritos por mulheres serem finalistas do Jabuti?
 
Acho importante, muito. Num sentido amplo, deixa a ver que mulheres têm feito excelente poesia no Brasil… Bueno, a bem da verdade é que não é de hoje que isso acontece, não é de hoje que muitas mulheres estão entre o de mais interessante leio na literatura brasileira. São autoras com dicção própria, inventividade e fino trabalho de linguagem. Hoje as vemos ocupando espaços como em premiações, em iniciativas da cultura e na grande mídia – e sabemos que essa é uma conquista coletiva.
 
De minha parte, fiquei muito feliz em ter recebido o Prêmio Minuano, concedido pelo Estado do Rio Grande do Sul (IEL-RS e UFRGS), bem como em estar com Jussara Salazar, Maria Lúcia Alvim, Micheliny Verunschk e Prisca Agustoni entre as finalistas do Jabuti.
 
Pra ti teres uma ideia, a Micheliny escreveu a orelha d’”A mulher submersa”, a Jussara participou de algumas lives comigo e a Prisca e eu trocamos livros. Temos admiração umas pelas outras, acompanhamo-nos. Só não conheci pessoalmente a Maria Lúcia (nos deixou em fevereiro de 2021, por Covid), mas o encontro com “Batendo pasto”, o livro vencedor, foi pra mim tão marcante.
 
Agora, uma coisa é preciso dizer: a história de um livro independe de premiações. Quando digo ‘história’, quero dizer: sua qualidade, seu alcance, sua capacidade de mobilizar, seu público. Quem dirá se um livro fica ou não é o tempo.
 
Comprometer-se com um projeto estético e dedicar-se a um trabalho poético rigoroso e rico, isso é uma coisa; figurar em listas disso e daquilo, ser resenhado, outra. Às vezes esses caminhos convergem, mas não há garantia de antemão.
 
 
 
Sua poesia abrange aspectos diversos da feminilidade e da sexualidade com sutileza mas também muitas vezes com objetividade. Como observa a receptividade das leitoras à sua escrita? E os homens, como percebem a sua poesia?
 
Sinto “A mulher submersa” como um livro de amplo alcance. São mais de 3.500 exemplares vendidos, no Brasil e em Portugal, e recebo retornos quase diariamente a respeito, de uma diversidade grande de público. Comentários desde os mais íntimos – às vezes confissões, dores ou estranhamentos reacesos a partir da leitura – até os mais objetivos, como resenhas, artigos... Também os registros em foto. Fico feliz, sim.
 
Minha poesia continuo compartilhando-a nas redes, como fiz desde o início. Os caminhos para publicações vindouras estão por aí, no Facebook, no Instagram. Não sei, acho que ter me aproximado assim de leitores, ter criado um espaço por anos antes de publicar, acho que isso também colaborou para a recepção do livro e para que as pessoas sigam acompanhando meu trabalho.
 
De todo modo, meu tempo de lida, de trabalho, é bem ensimesmado, sozinho. A leitura, igualmente. Trabalho em casa e fujo de eventos presenciais, de lançamentos ao vivo. Acho que tendo a um recolhimento cada vez maior, tem sido assim.
 
 
 
Já registraram que você é uma poeta da geração das redes sociais, lida muito bem com elas para divulgar sua obra. Qual sua avaliação sobre a relevância das redes para divulgação (e mesmo produção) de literatura?
 
Como comentava na resposta à questão acima, uso minhas redes como plataforma de trabalho. O acesso a elas me levou a um contato mais próximo não só com o público leitor, mas também como com outros escritores e poetas contemporâneos, de pequenas e médias editoras.
 
Tenho imensa honra em partilhar época com um poeta da envergadura de Lawrence Flores Pereira, que em breve publicará “Mar Adentro” (poesia). Um livro impressionante, em que trato com linguagem e delírio de imagens confluem.
 
Também acompanho há tempos o José Francisco Botelho, e o conheci via Facebook. Tem uma voz poética excepcional, de um lirismo em que sopra também certo traço épico. É um deslumbre ler.
 
Vinícius da Silva divulga todo seu trabalho nas redes, e o considero um dos artistas mais inventivos na lida hoje; na HQ, fusiona poema e imagem, e o que temos é um novo gênero, que vocifera e se desdobra num traço febril, vigoroso.
 
Raquel Gaio é uma poeta fabulosa. Não sei se ela sabe, mas tenho “Manchar a memória do fogo” na cabeceira. Segui-la é um deleite.
 
Nydia Bonetti – que arrojo de escrita. Que imensa poeta, e está aí, acessível em perfis nas mídias.
 
De cabeça, que lembro agora: Gil T. Sousa, Deolinda Silva, Samantha Abreu, Augusto Meneghin, Léo Tavares, Laís Araruna de Aquino, Jade Luísa, Bruno M. Silva… Poderia citar muita gente que se pode fácil ler virtualmente e que disponibiliza conteúdo de muita qualidade.
 
Por fim, há ainda os espaços que se dedicam à leitura e análise de obras literárias, e cito aqui o Literatura Oral, @literaturaoral, o Livros e Pão (Youtube), o Poemateca, @poemateca, o perfil pessoal de Larissa Bontempi, @_ameopoema_.
 
Minha trajetória passa por aí, por essa “pequena rede” que vai às vezes à margem da grande mídia. Acho que pode haver outra história da literatura, da poesia, sendo feita nesses meios.
 
 
 
Você tem formação em Filosofia e especialização em Epistemologia e Metafísica. Essas graduações influenciaram sua obra e sua visão da poesia?
 
Acho que minha predileção por poesia (e aqui vou tomar a liberdade de chamar alguma prosa de poesia – esse é o caso de Clarice e Raduan, por exemplo, que trabalham com uma escritura inteira atravessada pelo caudal do “poema contínuo”), acho que o gosto por esse gênero, por esse “estado poético da palavra”, ele tem a ver com uma experiência de paixão e espanto diante da linguagem.
 
Talvez esse espanto seja também de natureza filosófica.
 
Alejandra (Pizarnik) pergunta-se: como direi com palavras deste mundo que de mim partiu um barco me levando? Wittgenstein, ao final do seu Tractatus, assevera: sobre o que não se pode falar deve-se calar.
 
Acho que são dois modos de expressar a mesma intuição, a de que há uma dimensão da experiência humana que escapa ao entendimento, que não cabe no dizível. Há sempre certo ponto surdo no dizer, algum silêncio próprio, e a filosofia – tal como a poesia – conhece-o; em alguns instantes chega até a se abeirar dele, “sem nem feri-lo com a voz”.
 
 
 
Você é gaúcha de Passo Fundo, mas mora atualmente em São Paulo. Essa transição geográfica teve ou tem impacto em sua poesia e na sua maneira de ver a realidade?
 
Não sei se muito. Se bem que lá eu tinha a sensação de poder fazer a cidade a pé, tê-la nas pernas, nos tornozelos. Sinto falta desse andejar a esmo em São Paulo, com minha mochila e minhas alpargatas. Sinto falta do sotaque e da gestualidade, do jeito de rir. Sinto saudade de tomar rumo por certa sanha nômade, flanar, ver pessoas, observá-las com esse amor de mútuo anonimato – sem precisar falar com elas. Falar é difícil, pra mim.
 
 
A orelha do livro foi escrita pela escritora pernambucana radicada também em São Paulo Micheliny Verunschk, e faz parte de uma geração de mulheres escritoras que vem ganhando cada vez mais espaço. Você sente uma espécie de movimentação, de visão coletiva das mulheres que produzem literatura atualmente? Dentro da mesma pergunta: O mercado editorial oferece para as mulheres o mesmo espaço que para os escritores homens?
 
Sinto que há espaço se abrindo, e as editoras chamadas independentes são em grande parte responsáveis por isso. Na Urutau, por exemplo, que traz algumas coleções de viés específico, temos a “Quem dera”, uma coleção que convoca a participação de mulheres e assim amplia o alcance da literatura que estamos fazendo.
 
Há ainda projetos lindíssimos como o de Angela Brandão, Ilana Eleá e Lucelena Ferreira no livro “Fio de corte”, que entremeia com delicadeza – e lâmina – três mulheres, três vozes, numa só publicação.
 
Sobre a Micheliny: é um farol pra gente. Orgulha-me estar viva e acompanhar seu trabalho.
 
 
 
"A mulher submersa" foi lançado em plena pandemia em tempos de confinamento e restrições. Como foi lançar e divulgar o livro naquele período? E acredita que os poemas dialogaram com a época ou que quem os leu teve essa percepção?
 
Sou meio avessa a encontros presenciais, tenho certa dificuldade. Pra mim, foi até melhor experimentar tudo (lives, encontros, entrevistas) no ambiente de casa, isolada. O isolamento me traz bem.
 
Em algum sentido, “A mulher submersa” trata também desse movimento de entranhar-se em si, de ensimesmar-se na casa, no ar da casa, na mudez daquilo que se partilha ao fio de um sentido muito doméstico de devastação. Algumas seções do livro seguem bem por aí – cito “À pouca voz” e “Caderno das miragens”.
 
 
 
Quais seus próximos projetos literários? Algum livro para lançar em 2022?
 
Trabalho em muita coisa ao mesmo tempo. Há três livros de poesia ‘na lida’, além de um livro de contos (ou narrativas que não sei ainda esquadrinhar em gênero). Um possível romance curto.
 
O que devo lançar em 2022 chama-se “Sal”, que digo que é um livro sobre amor, essa primeira ferida.
 
O vocabulário nesse conjunto de poemas, todo ele se estende calvo, e a calvície ─ como a entendo ─ é um estado próprio da boca que ama.
 
Há uma dedicação às cenas baldias da manhã, do amanhecer. O sal surge então como remanescência ─ é rastro daquele mais antigo trabalho do amor, o corroer.
 
Vejo em “Sal” uma ampliação do que se lê em “Caderno dos fins”, seção que abre "A mulher submersa"; ali já se anuncia a mulher nascida de um suor de virilhas, vinda do sexo da noite.
 
No arfar da passagem para o dia, a casa lança luz sobre uma quantidade enorme de despojos; são peças de uso de corpo e o caudal todo ─ já ressecado em joelhos e quadris, craquelado; até estilhaçado.
 
(Sim, esse é o amor de que falo. Mar emagrecido que trago de regaço, rastilho; espelho estilhaçado.)