Daniel Zanella: 'Jornais e suplementos são importantes engrenagens do ecossistema literário'

14/12/2021

Por: CEFAS CARVALHO
 
Confira entrevista com Daniel Zanella, que mantém há 11 anos  o  Jornal RelevO, de maneira impressa e distribuído em todo o país.
 
 
Você é editor/publisher do Jornal RelevO, que é um impresso mensal de literatura em circulação desde setembro de 2010. e que tem bastante prestígio na cena literária. Como foi a criação do RelevO e como é manter um periódico impresso nos dias tão virtuais de hoje?
 
O RelevO foi fundado em agosto de 2010, na época em que eu cursava o segundo semestre de Jornalismo na Universidade Positivo (UP), em Curitiba. Era um sonho antigo meu de ter um periódico de literatura, dos tempos em que eu era entregador de jornal, e aconteceu de ser possível a partir do momento em que aprendi a diagramar – também contei com o auxílio dos meus veteranos de curso, que desenvolveram uma espécie de projeto gráfico e, então, comecei a planejar quem seriam os primeiros colaboradores. Aí consegui uma cota de 200 reais de publicidade com dois comerciantes, que eram também amigos meus, e assim o jornal saiu do plano das ideias, em uma edição em P&B de 1000 exemplares. A primeira edição saiu em 4 de setembro de 2010. Estranho contar isso hoje porque parece que não faz nem seis meses que isso aconteceu. Muita coisa mudou mesmo de lá pra cá, desde a ascensão das redes sociais até o perfil do leitor de jornal impresso, além dos custos, além dos custos... Ainda vejo tudo com otimismo por conta das possibilidades que as redes sociais dão de expansão do trabalho, até mesmo o quanto as lives e os eventos on-line colaboram para a divulgação do Jornal. Por outro lado, temos o Brasil, as suas questões crônicas, as políticas precárias de letramento, esse contexto todo que sempre dificulta qualquer projeto literário – sem mencionar a pandemia. E assim seguimos. 
 
 
Como são feitas as seleções de textos para o RelevO e quais os critérios de publicação?
 
Nós temos um conselho editorial formado por três pessoas, incluindo eu mesmo. Recebemos, na média, 600 textos por mês, e estamos sempre atrasados com as leituras. Publicamos os textos que todos do conselho gostamos. Não há exatamente um critério de qualidade, por assim dizer. Nós temos algumas diretrizes em relação ao tamanho dos textos, por exemplo, e alguns norteamentos sobre como enviar os materiais (https://jornalrelevo.com/sobre/publique/). Mas, a bem da verdade, é uma coisa muito “que texto excelente”, “que texto divertido”, “que privilégio será publicar isso”, o texto que nos conquista, que nos arrebata. Não tem como diminuir os aspectos subjetivos das escolhas. Lógico que buscamos ter paridade de gênero no Jornal e dar menos espaço para os medalhões. Gostamos de publicar aquele texto que sabemos que não será encontrado em nenhum outro lugar ou que evidencia o nosso perfil seletor.
 
 
O Brasil tem uma tradição de suplementos literários e periódicos que ajudaram a consolidar a literatura nacional. Acha que o RelevO resiste em manter essa tradição?
 
Os jornais, as revistas e os suplementos literários são importantes engrenagens do ecossistema literário. Apresentam, destacam, descobrem, expandem, representam algum tipo de espírito do tempo da literatura contemporânea, centralizam movimentos, implantam sua própria política editorial. Muitos escritores e escritoras começam a “existir” ao publicar pela primeira vez em periódicos. Cada edição tem uma natureza única e nunca mais será repetida. Me interessa muito esse recorte temporal, essa coisa mais “quente” da seleção que esse tipo de plataforma proporciona. Não consigo ver o Jornal na direção de um seguidor da tradição por não ter ideia do que ele representa, que, pra mim, é um mood que não consigo mensurar em tamanho ou dimensão histórica.
 
 
Quais suas expectativas com o RelevO em 2022?
 
Continuar imprimindo mês a mês, apenas isso. Sobreviver também.
 
 
Você é também escritor e cronista. Como avalia a sua produção literária? Considera que o papel de editor inibe sua produção literária?
 
Para a sorte da comunidade literária, não escrevo mais nada. Hoje me concentro na produção dos editoriais do Jornal, nas páginas centrais, na parte financeira do periódico. Não sei exatamente se é o papel de editor que me inibe, pois não sinto mesmo é vontade primordial de escrever. Me sinto muito mais feliz como leitor e editor. Acho que os leitores passam bem sem os meus textos.
 
 
Você faz leituras críticas de livros, como realizou com o romance Tocaia do Norte, de Sandra Godinho (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2021). Como analisa as resenhas literárias?
 
Geralmente, sou contratado para emitir pareceres ou realizar leituras às cegas. É muito gratificante poder acompanhar esses bastidores do mercado editorial, ler alguns textos incríveis em primeira mão (têm os textos ruins evidentemente...). Também tem um lance de uma certa vaidade silenciosa, de ver livros que gostei e indiquei para publicação (ou fiz algum tipo de comentário mais técnico) ganhando prêmios, destaques, leituras (que é o mais importante, no final das contas).
 
 
Como observa o papel das editoras independentes e de pequeno porte no cenário literário atual?
 
São as editoras independentes e de pequeno porte que realizam processos seletivos mais arrojados, mais diversificados, e contribuem para a maior diversidade do mercado literário. Estreiam autores e autoras, apostam em recortes específicos e descentralizam o mercado editorial como um todo.
 
 
Acredita que a internet conseguiu fazer com que as regiões diferentes do país conheçam as literaturas uma da outra? Dentro da mesma questão, o RelevO chega em todo o Brasil?
 
Sim, certamente, a internet colabora para a disseminação do Jornal, para que mais pessoas tenham acesso, pesquisem, entrem no site, assinem o RelevO. Hoje temos assinantes no Brasil todo, em todos os estados. É um tempo difícil e interessante para editar um jornal de papel e literatura.