Sinapse Darwin

23/11/2021

Por: Ana Cláudia Trigueiro
 
 
SINAPSE DARWIN
 
 
 
É necessário olhar para a frente da colheita.
Não importa o quão distante isso seja, 
quando uma fruta for colhida, 
algo bom aconteceu.
                                         Charles Darwin
 
 
Imagine que você está dentro da cabeça de alguém. O que você faz lá? Observa uma comunicação muito especial entre os neurônios. Dessa posição privilegiada e como no cinema, você vê o desenrolar de uma vida. Não de uma vida comum, mas a de uma personalidade fundamental para a história da ciência: a de Charles Darwin, naturalista, geólogo e biólogo britânico.
 
Foi assim que eu me senti no sábado durante o espetáculo Sinapse Darwin realizado no Território de Educação, Cultura e Economia Solidária (TECESOL) no Conjunto Pirangi.
O musical começa provocando o espectador com uma trilha incidental surpreendente. Os atores movimentam-se rapidamente em cena, entrando e saindo a todo tempo e cantando algo em latim. A palavra “Equidae” é repetida por entre ruídos curiosos. Depois parece acontecer um “balé” de plânctons, os seres invertebrados que Darwin estudou na expedição ao Hemisfério Sul. É como se estivéssemos dentro do livro “A origem das espécies” capítulo a capítulo, ou navegando no veleiro Beagle por mares agitados. 
Não demorei para compreender que a performance dos atores fazia uma retrospectiva da vida do brilhante cientista. Uma pesquisa posterior confirmou a percepção, pois uma pintura de Darwin feita quando ele ainda era criança é idêntica ao figurino da atriz Titina Medeiros em uma das cenas.
 
Os adereços, os figurinos e o próprio cenário  de onde surge um rosto gigante feito de sucata  são encantos a parte no espetáculo. A todo instante somos surpreendidos com a apresentação de objetos fortemente simbólicos, como uma porta que parece guardar o próprio tempo, o globo terrestre inspirador dos viajantes, lupas estampando coloridos globos oculares, máscaras tribais de inspiração futurística e... o que mais gostei: o chapéu conectado a uma borboleta, cujo delicado voo nos proporcionou uma experiência poética. Ah, quanto poder a arte encerra!
 
Necessário destacar um momento incrível do musical (e preciso ter cuidado para não acabar dando spoiler aqui e tirando do público o prazer da descoberta). No ponto alto, acontece uma transfiguração. A mais conhecida da natureza, já ricamente representada na pintura, na escultura, na literatura etc., mas tão engenhosamente realizada em Sinapse Darwin, que a plateia termina de queixo caído quando a cena acaba. 
 
E o que dizer do final, em que novos personagens surgem em uma adorável e simiesca coreografia? Encerramento perfeito para uma trajetória tão bonita!
 
Para além da qualidade excepcional, a peça tem importância política: é a exaltação do conhecimento científico em momento significativo da história humana. A ciência deu a resposta, salvou vidas e provou uma vez mais que é essencial para a sobrevivência na terra. No Brasil, com toda a difamação que a academia sofre nos últimos tempos, Sinapse Darwin resgata a grandeza das descobertas do extraordinário pesquisador que um dia escreveu: 
 
A ignorância gera mais confiança do que o conhecimento: são os que sabem pouco e não aqueles que sabem muito, que afirmam de uma forma tão categórica que este ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência.
 
E aqui uma observação sobre o elenco: de todos os tipos de artistas, considero os atores os mais abnegados. Uma escritora como eu, usa os olhos, o cérebro e as mãos para produzir sua arte; atrizes e atores disponibilizam todo o corpo e a própria alma para contar uma história. Fico imaginando o que sentem ao final de um espetáculo. Devem terminar muito cansados, porém, acredito que recebam algo como fruto de tamanha dedicação. Acho que é mais do que uma realização, é um alumbramento, uma iluminação extranatural. Merecedores são, de tal estado de espírito, por tudo o que ofertam em dádivas ao seu público.
Ana Cláudia Trigueiro
 
Fique ligado porque, entre os dias 17 e 19 de dezembro, acontecerão seis apresentações gratuitas dentro do calendário do "Natal em Natal", na Praça Ecológica de Ponta Negra.
 
Produção: Casa de Zoé
Elenco: Titina Medeiros, Nara Kelly, Múcia Teixeira, Caio Padilha, Dudu Galvão, Igor Fortunato, Toni Gregório e Yves Fernandes
Trilha sonora original: Caio Padilha, Yves Fernandes e Toni Gregório
Direção musical: Caio Padilha
Direção de arte: João Marcelino
Direção geral e dramaturgia: César Ferrario.