TV Record é condenada por “fazer graça” sobre caso de feminicídio

09/11/2021

Por: Otávio Albuquerque
Foto: hugogloss.uol.com.br

 

A justiça do estado de São Paulo condenou a TV Record a pagar uma indenização de 20 mil reais à filha de uma mulher vítima de feminicídio. De acordo com o tribunal, a emissora, através do programa policial Cidade Alerta, usou de um “tom apelativo e jocoso'' acerca do fato com a finalidade de conseguir gerar audiência.


Em relação ao crime, o marido, o qual não aceitava o fato da esposa ter terminado o relacionamento, a degolou. Segundo a reportagem da Record sobre a exposição dos fatos, o casal vivia entre “sapecas e sururus, ora tem tapas, ora tem beijos", o que demonstra um caráter de comicidade na descrição.


Durante a reconstituição do assassinato, a emissora, se utilizando de uma atriz, estabeleceu uma cena em que a vítima estava dançando com outro homem diante do marido. Sobre essa simulação, a família da mulher se pronunciou, deixando claro que a versão da Record está em oposição à realidade. "A reportagem deu a entender que a vítima era uma mulher desfrutável, que se envolvia com homens enquanto convivia com o ex-companheiro. A mensagem que ficou, de acordo com o processo, era a de que ela "mereceu ser morta", já que era uma mulher que "não prestava", declarou a família à justiça.


Em sua defesa, a emissora da Igreja Universal ressaltou que não teve o objetivo de agredir a honra da mulher assassinada e que realizou a matéria baseada no boletim de ocorrência do caso, isto é, mediante uma fonte confiável. A TV ainda se eximiu de responsabilidade no abalo que a filha da vítima possa estar sofrendo, uma vez que não comeu qualquer ato de ilicitude. "Quanto aos termos 'sapecas e sururus', usado pelo apresentador do programa, não foi com o intuito de fazer chacota, mas, sim, de se referir ao ato sexual, tendo em vista que o horário do programa possui classificação indicativa", disse a Record à Justiça paulista. 


O responsável pela causa, o desembargador José Aparício Coelho Prado Neto, ratificou, em sua decisão, que a exposição de episódios concernentes à intimidade da vítima não suscita nenhum interesse social. Para ele, a reportagem provoca, de fato, um transtorno à filha da mulher, uma vez que ela "foi obrigada a testemunhar o relato jocoso do crime brutal". 


A emissora foi condenada em duas instâncias.