Além do arco-íris, com ela quero estar!

04/11/2021

Por: SANDRA DUTRA
 
 
Além do arco-íris, com ela quero estar!
 
Muitos aqui podem se perguntar o porquê de eu escrever coisas sempre referentes ao passado, à minha infância. Na verdade, nunca me fiz essa pergunta – talvez de forma inconsciente, sim – mas não fico me questionando quanto a isso. Quem sabe porque minhas memórias afetivas mais marcantes e felizes sejam justamente da época em que eu era criança…? 
 
Além do arco-íris (em inglês, Over the rainbow), é uma linda canção do filme O mágico de Oz, com intepretação impecável da imortal Judy Garland. A sua voz cantando essa música é forte e ao mesmo tempo suave, com uma certa melancolia, típica de sua melodia. Devo lhes dizer, meus caros, que essa canção marcou e marca minha vida até hoje e é muito difícil eu não chorar quando a ouço. Eu e minha memória musical que, modéstia à parte, é maravilhosa!
 
Nem sei quando ouvi Over the rainbow pela primeira vez. O que sei é que desde que convivi com Ati, pessoa que cuidou de mim lá na casa de minha tia por longos e longos anos, sempre me fazia lembrar dela ao pensar nessa canção. 
 
Ati – nome original Iraci – trabalhou na casa da minha tia por mais ou menos umas quatro décadas. Ela viu e perto as alegrias e tristezas da família Emerenciano, ainda na época em que minha tia morava na praça João Tibúrcio. Ela acompanhou muita coisa de vida de todos que ali moravam e comigo não foi diferente. Que saudade de você, minha Ati…! Eu a chamava de Ati desde pequena e esse apelido fez com que eu a chamasse assim por toda minha vida.
 
Lembro que já na casa da Deodoro quando Ati ia nos visitar (ela passou um tempo sem trabalhar lá), meu amor por ela transbordava de tal modo que, ao ir embora, eu sentia um enorme vazio no meu ser. Então, me lembrava de Over the rainbow.
 
Em algum lugar além o arco-íris / Num lugar bem alto / Há uma terra que eu ouvi falar / Uma vez em uma canção de ninar
 
Enquanto eu não ia dormir, Ati e essa música não saíam dos meus pensamentos. Se vocês não afirmarem agora que sou louca, no mínimo, vão morrer de rir com o que vou dizer aqui: a coisa era tão forte que eu ficava cheirando a cadeira onde Ati havia se sentado só pra sentir o cheiro e presença marcante dela. Pronto! Podem rir agora! É exatamente o que estou fazendo! Cada doido com sua mania, né?! 
 
Ati me fazia feliz, me levava pra passear – quantas e quantas vezes íamos à praia só ela eu – era muito amiga da minha avó, cuidava de mim e, claro, me dava várias e várias broncas quando eu aprontava. Ela foi uma mulher forte, guerreira, determinada e não submissa ao patriarcado. Independente! Tantas e tantas vezes que eu a vi reclamando de dores nas pernas por conta das varizes que tinha… mas ela não se deixava vencer. Nunca deixou de trabalhar para garantir seu sustento, sua dignidade. Que saudade de você, minha Ati…!
 
Desejo algum dia estar em cima de uma estrela / E acordar onde as nuvens estarão longe atrás de mim / Onde problemas se derretem como gotas de limão
 
Não! Ati não via os problemas derreterem como gotas de limão. Até porque quem vem aqui pra esse plano é pra evoluir e cada um de nós tem limitações. Mas ela sabia encarar os problemas de cabeça erguida e tocar o barco, como deve ser. 
 
Ai, minha querida Ati! Quantas gargalhadas demos juntas! Quantas injustiças cometemos uma com a outra e quantas coisas necessárias não foram ditas. Que temperamento difícil nós tínhamos! Um “eu te amo” você nunca ouviu de mim. Nunca parei pra pensar em minhas palavras para com você. Via só os nossos feitos e defeitos. É curioso dizer isso, mas, com você, eu vivia o aqui e agora. Eu era feliz e nem sabia. 
 
Ati faleceu em novembro de 2016. Já estava bem idosa e havia amputado uma perna justamente por conta das varizes. Cumpriu sua missão aqui na Terra. Foi digna, boa, correta e nunca deixou de me receber na casa dela. 
 
Que saudade de você, minha Ati…! Cozinheira de mão cheia, a lasanha que ela fazia foi a melhor que eu já comi em toda minha vida. Quem conviveu comigo naqueles tempos vai se lembrar das lasanhas que ela fazia a cada 25 de dezembro e em alguns domingos, já que era raro não ter uma massa nos almoços do domingo. Nem o restaurante mais caro do planeta faz a lasanha dela! Além do sabor inigualável, há o sabor de amor e afeto que fazem meus olhos transbordarem.
 
Onde ela estiver, a minha Ati, com certeza sentirá toda essa vibração de amor e luz que emano para ela. Porque ela é um ser de luz. Com certeza ela está em um lugar de flores. A neta dela pediu isso ao Universo quando a avó partiu. Ela está! E saiba, Ati, um dia nos reencontraremos e vamos dar muitas risadas juntas. Se aqui não é possível que os problemas derretam como gotas de limão, no plano onde você está eu sei que isso é possível. Sempre que eu pensar em você e sentir a sua presença, Over the rainbow invadirá minha alma com sua doçura e melancolia. 
 
Sim, além do arco-íris eu quero estar ao seu lado! A paz finalmente tomará conta de tudo! E todos os problemas irão se dissipar exatamente como gotas de limão!