As memórias afetivas através das doces melodias

13/09/2021

Por: SANDRA DUTRA
 
Os dias chuvosos sempre foram encantadores pra mim. Quando era criança, esses dias me cobriam de alegria e faziam as minhas fantasias pueris se tornarem realidade. Quem nunca escutou em casa frases como: “menino, vai colocar o casaco” / “Num frio desse, vou esquentar água pra o banho” / “Com esse inverno todo mundo vai dormir cedo”. E muitas e muitas outras frases ditas pelos adultos que cultivavam nossa imaginação. Sim, de primeiro chovia bastante na nossa querida cidade de Natal e, as chuvas vinham com aquele frio gostoso. Hoje só sobraram lembranças de um tempo bom. Quem viveu, viveu. Aproveitou!
 
Um dia, quando eu era criança, chovia. Era uma chuva contínua, moderada, gostosa de se ouvir. Do rádio, que dificilmente parava de tocar naqueles tempos, saíam melodias bonitas que, desde aquela época, já me levavam para uma outra dimensão. Na sala, mesmo lugar onde ficava o rádio Phillips potente tocando suas músicas marcantes, minha avó penteava meus cabelos. De repente, uma canção invadiu a casa e, consequentemente, meu coração.
 
Meia noite no meu quarto, ela vai subir / Eu ouço passos na escada, vejo a porta abrir / O abajur cor de carne, o lençol azul / Cortinas de seda, o seu corpo nu.
 
Comecei a prestar atenção naquele som, em seus lindos arranjos e no sotaque diferente daquele cantor, que mais tarde, descobri que se chamava Ritchie e que era inglês. 
Ao mesmo tempo que minha avó passava o pente em meus cabelos crespos, aquela melodia invada o meu ser, juntamente com a água forte que caía pela bica do jardim da casa. 
 
Menina veneno o mundo é pequeno demais pra nós dois / Em toda cama que eu durmo só dá você / Só dá você, só dá você iê iê iê iê.
A música, que parecia não ter fim, me fez dizer assim à minha avó: “vovó, do mesmo jeito que a chuva vem, ela para, né?” Coisas de criança…
 
A música de Ritchie já tinha findado-se e eu já me encontrava na cozinha desenhando em folhas alvas e pequenas de papel. Suavemente, vi aquela folha grande de papel almaço na minha frente, deixando-me maravilhada com o seu tamanho. Foi minha tia quem colocou aquela singela folha diante de mim. Ela foi uma grande incentivadora das artes na minha infância, além de ter me ensinado a amar a boa música. Foi durante várias noites que ela me colocava no colo, em sua sala de visita, para ouvir canções de excelente qualidade. Foi dela que herdei o requintado gosto musical e isso é impagável. E, para uma pessoa auditiva como eu, todas essas melodias, conversas e histórias ficaram para todo o sempre me minha memória e em meu coração.
 
E vocês, meus amigos? Que memórias vocês carregam em seus corações? O que vocês se lembram dos seus ancestrais? Vocês escreveriam essas lembranças em distintas folhas de papel? Incrível como um simples pedacinho em branco pode tirar de nós tantas coisas boas como um desenho, uma declaração de amor, um texto, um livro… O fato é que lembranças boas merecem ser compartilhadas. Quanto àquilo que foi ruim… Bom, trabalhemos essas questões dentro de nós através da ajuda de amigos e, especialmente, terapeutas. 
 
Creiam: fazer terapia é um grande presente que podemos nos dar!
 
 E o que não foi bacana? Bom, esses momentos também fazem parte da vida e nos oferecem a oportunidade de crescimento e maturidade. Todos nós temos uma história e não dá pra passar a vida inteira culpando pai, mãe, tio, avó pelos seus erros e pelos momentos difíceis que tivemos. Quem não erra? Como diz uma grande amiga de longas e longas datas: ser responsável por uma criança é uma função sagrada… porém, realizada por humanos.
 
Se pudesse teria mil e uma versões de Menina Veneno pra recordar! E seria desse modelo que coloquei nessas linhas: na casa da minha tia, com minha avó acariciando meus cabelos com o pente… nada diferente. A memória é tudo que um povo tem, tudo que ele pode cultivar de melhor. Quantos de nós não paramos para ouvir as inúmeras recordações das pessoas mais velhas? São as histórias pulsantes em seus corações que me fazem sentir saudade de um tempo que sequer vivi. 
 
Sim, apesar de ter alegria de viver e demonstrar isso, também sou uma pessoa melancólica.
 
Que as nossas alegrias sejam abençoadas e partilhadas. E, por quê não, imortalizadas na escrita? Que as nossas tristezas também sejam tudo isso, mas que trabalhemos para sermos mais fortes e mais felizes, guardando dentro de nós as doces lembranças dos nossos antepassados. Eles carregam uma enorme fortaleza dentro de si, além de nos impulsionar para a frente, para a vida! Ah, e sem esquecermos, claro, das lindas melodias que muitos deles nos proporcionam, como minha saudosa tia fez comigo.