Inofensivos adversários em nosso percurso

09/09/2021

Por: Sirley Fonseca
 
29 de agosto de 2021. Alguma data especial? Absolutamente, não!
 
Mas as próximas linhas provam que consegui enfrentar um adversário poderoso, apesar de aparentemente inofensivo. Este oponente está diante de mim, encarando-me. A cada palavra escrita, um golpe certeiro mina suas forças.
 
Creio ter deixado você com a pulga atrás da orelha. Acertei? Não se avexe, vou matar sua curiosidade. Por vários dias, adiei o meu propósito: escrever minha primeira crônica. Espero hoje mesmo concluir a tarefa a que me propus!
 
Uma folha em branco.
 
Pergunto: que perigo pode oferecer uma simples folha de papel em branco?! Durante muito tempo, esse item não me oferecia nenhuma ameaça...
Na primeira infância, por exemplo, ela era a plataforma perfeita para desenhos coloridos sem sentido aparente, pintura de tinta com as mãos, quadro para colagens, etc. Bastava soltar a imaginação e sair preenchendo toda a sua brancura.
 
Era a leveza da escolha livre.
 
Por volta dos 8 anos, comecei a desenhar plantas de casas (ou rabiscos iniciais de como deveria ser o piso delas). Gostava de criar ambientes, adicionar móveis e personagens naquele cenário. Sequer imaginava que tomaria gosto e acabaria enveredando pelos caminhos da Arquitetura mais tarde.
 
Estava ainda em território lúdico.
 
A adolescência trouxe a poesia para as fibras prensadas de celulose. Nem precisava de muitos centímetros quadrados. Qualquer pequeno pedaço de papel se tornava gigante quando era o mais próximo no momento da inspiração. Diminuía o tamanho das letras, apertava as linhas... e todo o sentimento cabia ali registrado. Nem era necessário escolher muito as palavras: elas dançavam e se acomodavam sem atropelo.
 
Mas as coisas sempre mudam!
O tempo foi passando, as responsabilidades aumentando, e nossas escolhas passam a exigir mais estudo e mais cálculos. Qual cor usar? Redondo ou quadrado? Simétrico ou orgânico? Com rima ou versos livres? E as inocentes folhas em branco passaram a me intimidar.
 
A esta altura da peleja, confesso, estou pensando em entregar os pontos.
 
Paro por um momento minha escrita. Devaneio. O pensamento viaja e tenta me tirar da rota. Porém, se já cheguei até aqui, não desistirei desta empreitada. Resistirei à vontade de abandonar meu projeto.
 
A folha parece se rir de mim...
 
Diversas vezes, ouvi minha sábia mãe dizer algo que aprendera nos primeiros anos escolares, com severa professora. “As palavras ditas se perdem no vento, mas as escritas são eternas.” Pelo menos, enquanto existir aquele veículo no qual foram impressas!
 
Descubro que talvez seja precisamente essa a questão: o receio daquilo que ficará eternizado. Preocupação com gramática, concordância e regência, tenho! Sim, sou passível de erros tanto quanto qualquer outra pessoa que faça uso da pena. Mas esse é um risco calculado. Algo que se resolve com uma boa revisão textual.
 
Novamente interrompo a escrita para assimilar as últimas linhas.
 
Sou um ser social. E como tal, meu receio maior é o de não ser coerente, e de me contradizer. Devo escrever apenas a verdade. Aqui, relembro a fala de Paulo Freire: “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.”
 
Para além disso, há o medo. Medo de me expor, de me mostrar vulnerável. Medo de não gostar do produto final... O perfeccionismo me atrapalha os passos. A busca pelo texto perfeito retarda a escrita.
 
Aqui me deparo com os desafios que preciso enfrentar fora dos limites destas páginas, já quase completamente preenchidas.
 
Pergunto de mim para mim: quantos projetos tenho adiado por medo de falhar ou ser mal interpretada? Quantos sonhos tenho trancados em gavetas por não ter coragem de dar o primeiro passo? Quantas vezes deixei de lado ideias promissoras simplesmente por procrastinação? [Palavra tão feia quanto o que ela representa de atraso!]
 
E você que percorreu as linhas até aqui... quantas folhas intactas em sua vida aguardam a carícia de uma caneta? De quais desafios você tem fugido?
 
Engraçado é perceber que, uma vez iniciado o percurso, seja ele qual for, não queremos mais parar. Agora mesmo, não sei como pisar no freio para encerrar a escrita. Trago apenas a certeza que venci esta batalha. Na verdade, contra meus próprios medos.
 
E pensar que quase me deixei derrotar pela alvura de uma simples folha de papel...