Carta aberta da Professora Flávia de Sá Pedreira (DEHIST-UFRN)

31/08/2021

Por: Flávia de Sá Pedreira
 
 
Toda vez que uma denúncia sobre situação de racismo é colocada nas redes sociais e imprensa, faz-se necessária uma rigorosa apuração dos fatos relatados pelas partes envolvidas, portanto, venho exercer o meu direito de resposta às acusações que recebi neste espaço do jornal Potiguar Notícias, em carta aberta da estudante Amanda Pereira da Silva Santos, graduanda em História na UFRN, publicada pela colunista Ana Paula Campos, no dia 30/06. Somente agora estou respondendo, pois estava aguardando a decisão do Reitor sobre o caso.
 
Fui acusada levianamente de ter cometido o crime de racismo, frente a uma turma de calouros que assistiram atônitos à agressividade de uma aluna veterana (Amanda está aqui na UFRN desde 2014, tendo cancelado/trancado quatro semestres, antes do ocorrido na minha aula, sendo o período regular da graduação em História de quatro anos), já havia sido minha aluna no ensino presencial em 2018.2, na mesma disciplina Historiografia Brasileira, tendo omitido essa informação à Comissão da Sindicância Investigativa (Processo administrativo 23077.014538/2021-46), dizendo nunca ter me visto antes - sendo desmentida pelo seu próprio Histórico Escolar, no qual  há registro da sua matrícula.
Pois bem, a aluna Amanda, além de não ter tentado resolver o problema criado (por ela mesma) junto à Coordenação do curso de História, instância primeira responsável para isso, como eu fiz no mesmo dia da aula, continua a me caluniar nas redes sociais e dar entrevistas na imprensa local sobre o seu "enfrentamento" contra uma “professora racista da UFRN”. 
 
  Note-se que o assunto ensejou a abertura de um Processo de Sindicância Investigativa pela Direção do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), que nomeou três docentes de outros Centros, para comporem uma Comissão idônea que averiguasse o ocorrido na minha aula. 
 
Os trabalhos da Comissão realizaram-se entre fevereiro e maio, quando as partes tiveram o direito de se manifestar, com seus respectivos advogados, indicando as testemunhas e apresentando provas. Um dos documentos comprobatórios apresentados à Comissão foi a gravação da minha aula feita pela aluna Amanda - de forma ilícita, sem a minha anuência, conforme as diretrizes de utilização da plataforma Google Meets para aulas remotas. Pedi que fosse realizada perícia nesse vídeo, por notar vários trechos silenciados, mas a Comissão alegou que demoraria muito e não fui atendida.
 
No relatório final, a Comissão determinou:
 
Diante do exposto, em que pese toda a repercussão midiática e exposição das envolvidas e da própria instituição, formou-se nesta Comissão a convicção de que não houve cometimento de prática e/ou condutas incompatíveis com o decoro que o cargo de professor e de estudante pedem, por parte da professora Flávia e da aluna Amanda, especificamente, naquilo que foi objeto de apuração, conforme apontado na inicial deste parecer, pugnando pelo arquivamento da referida sindicância investigativa. 
 
Recomendando, ao final, que ambas as partes procurassem fazer cursos de “comunicação não violenta”. Acontece que a aluna Amanda, irresignada com a decisão da Comissão, que foi acatada pela Direção do CCHLA, passou a me caluniar novamente, colocando agora sob suspeita a idoneidade da própria Instituição, a UFRN. Seus recursos já foram indeferidos, tendo sido encaminhado seu último recurso ao gabinete do Magnífico Reitor, José Daniel Diniz Melo, o qual também pugnou pelo arquivamento das folhas processuais, no dia 17/08/2021.
 
Dessa forma, resta saber quais os motivos das calúnias, danos morais e psicológicos que continuo sofrendo, apesar do encerramento do processo, após a extensa investigação feita pela tríade de Professores da UFRN. 
 
Finalizando, apresento o contraditório a suas últimas acusações a minha pessoa:
 
1) Não houve sua expulsão da minha aula, que decidi interromper aos 37 minutos, devido à agressividade com que fui insultada de racista (no próprio vídeo gravado por ela, aparece o seu “presente” sendo registrado no chat, ao final da aula); tanto que ela ainda voltou a assistir minhas aulas por dois dias na semana seguinte (dias 09 e 11/02), deixando de comparecer somente a partir do feriado de Carnaval (16/02);
 
2) Em nenhum momento pronunciei as expressões “coitadismo” e “culpabilização”, nem fiz uma falsa simetria entre a escravidão transatlântica e a escravidão praticada no continente africano, tampouco com a indústria da seca no nordeste brasileiro; afirmar que “a professora deu a entender”, “a professora insinuou”, como ela disse à Comissão, é uma questão de interpretação distorcida daquilo que falei em sala de aula;
 
3) Ao ouvir sua advertência de que eu devia “ter muito cuidado”,  pois o meu “lugar de fala era de uma mulher branca na Universidade”, fiz a exibição de um trecho do filme “Atlântico Negro: na rota dos Orixás” (Direção: Victor Leonardi / Renato Barbieri), mostrando que tanto pesquisadores negros quanto brancos têm a mesma narrativa sobre a temática da escravidão. A própria Djamila Ribeiro, filósofa e ativista do movimento de mulheres negras no Brasil, autora do livro “Lugar de fala”, esclareceu recentemente em entrevista ao Canal Curta!:
 
“Uma outra confusão grande é confundir lugar de fala com representatividade, porque aí você cria uma visão essencialista de achar que só o negro pode falar de racismo. Se estamos em relações raciais, em relações de gênero, é importante que as outras pessoas debatam sobre esse tema. Então, claro que uma travesti negra não vai se sentir representada por uma mulher branca, mas aquela mulher branca, a partir do lugar que ela ocupa, pode pensar criticamente da [sobre a] situação da travesti negra.”
(disponível no Canal Curta! – https://youtu.be/S7VQ03G2Lpw)
 
4) Após retirar o filme da tela, mencionei o que havia dito o professor negro sobre a escravidão na África – mas, por ter esquecido o seu nome (Karl Emanuel), alguns alunos escreveram no chat ironias sobre esse suposto “epistemicídio”;
 
5) Na aula seguinte, comentei sobre essa atitude desnecessária de tentarem me ridicularizar por ter esquecido o nome do professor, dizendo que isso era uma “babaquice” (uma bobagem, cf. Dicionário da Língua Portuguesa- https://www.dicio.com.br/babaquice/), já que poderiam trazer questionamentos ao debate em vez de agirem assim; ou seja, em nenhum momento eu insultei Amanda de “babaca”, mas sim me referi aos comentários no chat, sem identificar quem os fizera;
 
Da mesma forma, não falei que Amanda seria “ensaboada” por outro docente, como ela afirma, tentando dar uma conotação racista à expressão que utilizei: “ele vai lhe passar um sabão na frente da turma” - uma metáfora bastante conhecida que significa “ele vai lhe repreender na frente da turma” – nada, além disso;
 
6) No contexto de reação às ofensas e provocações da aluna Amanda, acusando-me de ser racista na minha aula, fiz o infeliz comentário de que aquilo tudo parecia “racismo reverso”, expressão polêmica e inadequada, mas que foi proferida no auge de uma discussão extremamente acalorada;
 
7) Por fim, quanto aos comentários da aluna Amanda contra a UFRN: 
 
1º) “A postura da UFRN em ser conivente com abusos, violências e assédios dentro dos seus espaços é de amedrontar”;  
2º) “Importante sinalizar ainda que este não é o primeiro caso de racismo institucional que ocorre na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Podemos lembrar que, mesmo tendo sido aprovada em 2014, a Lei 12.990/14, que estabelece Cotas Raciais para Concursos Públicos Federais, não foi capaz de contratar UM ÚNICO PROFESSOR OU PROFESSORA NEGRA na UFRN”;
 
Percebe-se que são comentários tendenciosos e inverídicos, pois há um crescente esforço institucional para mudar tais quadros. Há vários professores negros na UFRN, eu mesma fui Presidente da banca examinadora do Concurso Público para a área de “História do Brasil Império e República”, em 2010, tendo sido aprovada a candidata negra, ficando em segundo lugar o candidato branco. 
 
Como se vê, tudo já foi averiguado durante três meses e meio pela Comissão composta por profissionais competentes, oriundos de diferentes áreas, inclusive com a presença de uma Promotora do MP-RN. Aproveito para externar o meu respeito à decisão tomada, frisando que não houve nenhuma irregularidade por parte da Comissão, como afirmou a discente, mas sim um trabalho exaustivo de investigação. Sugiro que ela faça uma autocrítica e cesse de uma vez por todas com essas calúnias e difamação contra minha pessoa e também contra a UFRN.