Partidos brasileiros e pressão internacional sobre Bolsonaro

23/08/2021

Por: Cláudio de Oliveira
 
 
Os partidos políticos democráticos do Brasil devem se articular em termos mundiais para aumentar a pressão internacional sobre Jair Bolsonaro. O presidente brasileiro é uma ameaça global à democracia, pois ele e seu grupo político estão entre os articuladores de uma organização internacional de extrema direita. Como se sabe, dela participam líderes como Viktor Orbán, o primeiro-ministro da Hungria que tem erodido as instituições democráticas do seu país.
 
A pandemia do coronavírus nos mostrou de forma dramática que vivemos definitivamente em um mundo sem fronteiras. E que a solução de muitos problemas de cada uma das nações depende da cooperação de todas elas. Ou seja, a cooperação e o fortalecimento de organismos internacionais multilaterais serão a salvação de todos. 
 
Mas, antes mesmo que o SARS-CoV-2 se espalhasse pelo planeta, já estava claro que a solução de muitos problemas globais depende de todos. É o caso da presente crise climática, diante da qual cada país é chamado a fazer a sua parte na preservação de nossa casa comum. 
 
Realçando a importância de articulações internacionais, os Estados Unidos e a União Europeia coordenaram a decisão do G-7 de tributação internacional sobre as grandes empresas, em especial sobre os gigantes da tecnologia. 
 
Na pauta dos organismos internacionais multilaterais também está a discussão do fim dos paraísos fiscais. Tais paraísos são mecanismos de burla da necessária regulação da economia para a prevalência dos interesses majoritários da sociedade, em especial o financiamento de políticas públicas para todos.
 
O combate ao terrorismo internacional, à corrupção e ao crime organizado, bem como a defesa dos direitos humanos em escala global são outros temas que desafiam instituições e cidadãos do mundo inteiro.
 
Recentemente, o presidente o Estados Unidos, Joe Biden, chegou a propor uma conferência internacional em defesa da democracia, diante do fenômeno da ascensão de líderes populistas de direita e protofascistas. O norte-americano compreendeu a gravidade do fenômeno para além do seu país e do episódio do Capitólio, no qual grupos de extrema direita invadiram a sede do Congresso.
 
Certo é que precisamos agir em escala internacional para defender princípios pelos quais grande parte da humanidade luta há séculos, desde pelo menos a difusão das ideias dos filósofos iluministas a partir do século XVIII. 
 
Não só chefes de Estado e chefes de governo devem em suas políticas externas buscar grandes articulações internacionais. É cada vez mais necessária a articulação entre organismos da sociedade civil, sindicatos e partidos políticos de todo o mundo. 
 
No Brasil, o antigo PCB nasceu em 1922 com pleno entendimento da importância do internacionalismo. Ainda que a agremiação tenha sido vítima de uma equivocada articulação internacional subordinada a um centro único, a Internacional Comunista, era positiva a ideia de ação mundial conjunta de homens e mulheres para a promoção de uma vida melhor. O Cidadania, um dos legatários do PCB, deve potencializar essa tradição.
 
Outra tradição importante é a do PSB, organizado em 1947, depois de várias tentativas que remontam ao ano de 1892. O PSB faz parte de duas importantes articulações internacionais: a Coordenação Socialista Latino-americana e a Aliança Progressista, uma dissidência surgida em 2013 da Internacional Socialista, a tradicional organização que congrega partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas de todo o mundo, organizada em 1951.
 
O PT é outro partido político brasileiro filiado à Aliança Progressista, enquanto o PDT segue sendo o tradicional representante brasileiro na Internacional Socialista, de reconhecida importância de ação mundial, como o apoio às oposições no Brasil na sua luta contra o regime de 1964.
 
Lembremo-nos de Willy Brandt, um dos líderes da Internacional Socialista que presidiu uma comissão internacional na década de 1970, cujo relatório de grande repercussão – “Norte-Sul: um programa para a sobrevivência” – defendeu relações econômicas mais justas entre o norte e o sul do planeta e a ajuda do mundo rico aos países pobres.
 
Outras expressões partidárias importantes do espectro político no Brasil também têm articulações internacionais, como a Internacional Democrata Centrista, que até 2001 era conhecida como Internacional Democrata Cristã, fundada em 1961. Dela fazem parte o PSDB e o DEM, este último também filiado à União Democrática Internacional, de partidos liberais clássicos.
 
Com o lema “pensar globalmente e agir localmente”, os ambientalistas de partidos como o PV participam da Global Verde e da Federação dos Partidos Verdes das Américas.
 
Líderes partidários, como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente do Cidadania, Roberto Freire, são bem relacionados internacionalmente e devem ativar seus contatos com vistas a ampliar a ação internacional das forças democráticas do país e garantir o apoio mundial à democracia estabelecida pela Constituição de 1988.
 
No mundo de competição global, a articulação política internacional e claros projetos de política externa são fundamentais para retirar o Brasil do isolamento a que foi jogado pelo atual governo e voltar a inseri-lo no grande diálogo das Nações.
 
* Jornalista e cartunista, autor dos livros "Era uma vez em Praga – Um brasileiro na Revolução de Veludo" e "Lenin, Martov, a Revolução Russa e o Brasil", entre outros.