Nic Cardeal: ´Mulheres sempre escreveram, mas nem sempre lidas ou valorizadas`

12/06/2021

Por: CEFAS CARVALHO
Foto: Arquivo pessoal

 

Catarinense que mora em Curitiba, Nic Cardeal é graduada em Direito. Ela publicou o elogiado ‘Sede de céu” (Poesia, Editora Penalux, 2019), e prepara  publicação de novo livro de contos e crônicas. Nic tem textos publicados em 29 antologias/coletâneas – 24 no Brasil, 5 em Portugal e 1 na Alemanha, é militante cultural incansável nas redes sociais e integra do movimento coletivo Mulherio das Letras desde a sua criação em 2016. 
 
 
Você lançou um elogiado livro de poesias e participou de diversas antologias. Como analisa a sua produção poética e quais seus projetos nessa área?
 
Fiquei realmente surpresa com a receptividade do meu primeiro livro ‘solo’ (Sede de céu, Penalux/2019). Eu já vinha publicando meus textos nas redes sociais, especialmente no Facebook, justamente porque sentia necessidade de ter um feedback dos leitores, já que até então estava muito insegura em relação à minha produção literária. E foi muito bom esse ‘plantio virtual’, pois os comentários positivos foram a mola propulsora que me incentivou a criar coragem para a publicação do livro. E quando realizei o lançamento, aqui em Curitiba, na Mahatma Livraria de Expansão, fiquei impressionada com a quantidade de pessoas que compareceram e compraram o livro, a primeira remessa recebida da editora praticamente esgotou naquele dia. Imagina a minha alegria! Foi realmente surpreendente e, grande parte desse sucesso no dia do lançamento devo à querida Angélica Ayres, proprietária da livraria (e com quem trabalho na ‘casa do livro’), que cedeu espaço para o lançamento e divulgou muito entre sua vasta rede de clientes!
 
Quanto à minha produção literária, naquela ocasião eu já estava com outro livro praticamente pronto, composto de crônicas curtas e alguns poucos contos, e tinha intenção de publicá-lo naquele mesmo ano. No entanto, devido a alguns contratempos, não consegui que estivesse finalizado para a publicação. Em seguida, veio a pandemia e, com ela, fiquei um tanto paralisada, deixando esse segundo livro em processo de hibernação quase forçada, pois não encontrava ânimo para dar continuidade à sua finalização, já que eu ainda estava sem ilustração para a capa. Acabei ‘ressuscitando-o’ posteriormente, revisei, excluí e substituí textos, mudei o título e, finalmente neste momento está aguardando a finalização da capa, para posteriormente ser remetido à editora. 
 
Minha produção poética não para, mas não sou prisioneira de metas preestabelecidas, o processo da escrita segue a inspiração, que em mim acontece muito naturalmente, com muita liberdade, sem cobranças. Meus projetos atuais são dois novos livros de poesia, pois já tenho material suficiente para isso e, além disso, tenho trabalhado em ideias e textos para crianças.
 
 
Como avalia sua produção durante o confinamento e nesses tempos de pandemia? 
 
Quanto à produção poética, continuo escrevendo sempre, mais lentamente, é claro, pois a pandemia nos rouba muito mais tempo do que antes, em função das questões práticas de cuidados pessoais com roupas, limpeza domiciliar e higienização de compras e alimentos. Como disse anteriormente, tenho praticamente dois novos livros de poesia prontos. Além disso, tenho duas histórias infantis finalizadas, que estão em fase de elaboração das ilustrações, e algumas outras sendo escritas. Também tenho participado de novas antologias e coletivos, que provavelmente devem ser publicados em breve.
 
 
Você é entusiasta do movimento coletivo Mulherio das Letras. Como vê a importância desse movimento e qual o impacto que teve entre as envolvidas e mesmo no cenário literário nacional?
 
 Antes da criação do movimento coletivo Mulherio das Letras (ML), eu já estava em contato com várias escritoras, através do Facebook, justamente porque comecei a publicar meus textos e isso fez com que os contatos fossem acontecendo. Depois, quando o grupo foi criado no Facebook, tudo foi ampliado de forma vertiginosa.  Tornei-me, de fato, grande entusiasta do Mulherio, estive nos três encontros presenciais, conheci pessoalmente muitas escritoras com as quais já mantinha contato virtualmente, e isso só fez crescer meu entusiasmo pelo coletivo.  Por isso, afirmo categoricamente: o Mulherio das Letras, além de ser um movimento, é um incrível ‘alimento’ que nos fortalece, que não nos deixa enfraquecer diante das agruras destes tempos difíceis, sombrios. A intenção do movimento é justamente agregar, revelar, auxiliar mulheres ligadas à literatura (escritoras, editoras, acadêmicas, ilustradoras, designers). Sobre o Mulherio, Maria Valéria Rezende já afirmou várias vezes que “a ideia é que seja uma forma de congregação de autoras,
completamente livre e sem hierarquia”. Acredito muito que o impacto desse movimento entre as envolvidas sempre foi, é e continuará sendo, extremamente positivo, porque todas possuem um objetivo comum: a liberdade de expressão pela palavra escrita ou oral, que é justamente a principal definição do próprio movimento, conforme registrado nas regras do grupo: “coletivo feminista literário formado por mulheres diretamente interessadas na expressão pela palavra escrita ou oral”. Mas o coletivo não se resume à expressão artística e/ou literária. Antes de tudo é um coletivo dinâmico, feminista sim, e político, embora não partidário.  Temos, enquanto grupo de mulheres escritoras e artistas, o direito, a liberdade e o objetivo de lutarmos por nossa ampla participação na literatura nacional, bem como na política do país, afinal, viver por si só já é um ato político.
 
A importância de um movimento como esse é fantástica, e isso já sentimos na pele, nós, que estivemos em João Pessoa/PB (Primeiro Encontro Nacional Mulherio das Letras, em 2017), no Guarujá/SP (Segundo Encontro Nacional Mulherio das Letras, em 2018), e em Natal/RN (Terceiro  Encontro Nacional Mulherios das Letras, em 2019), pois muitas das nossas inquietações, diante da histórica exclusão das mulheres nos tradicionais espaços literários, têm sido sanadas ao longo destes poucos anos de existência do movimento. Seja por meio de publicações independentes exclusivamente de autoria feminina, seja pelo aumento da participação feminina em concursos literários nacionais e/ou estrangeiros, seja nos debates e discussões acerca do papel da mulher escritora no âmbito educacional e político, nestes obscuros tempos. Atualmente o grupo nacional conta com mais de sete mil participantes no Facebook. Já temos também vários grupos regionais, como, por exemplo: ML Amazonas, ML Baixada Santista/SP, ML Bahia, ML Campos dos Goytacazes/RJ, ML Ceará, ML Distrito Federal, ML do Nordeste, ML Mato Grosso, ML Mato Grosso do Sul, ML Nísia Floresta – RN, ML Paraíba, ML Paraná, ML Pernambuco, ML Rio de Janeiro/RJ, ML Rio Grande do Sul, ML São Paulo, ML Sul Fluminense/RJ, e ML Zila Mamede – Natal/RN. Esses grupos regionais realizam eventos literários, encontros (que nesse momento de pandemia, seguem de modo virtual), divulgando suas escritoras locais. Além disso, o movimento já está espalhado pelo mundo: ML Alemanha, ML Áustria, ML Espanha, ML Estados Unidos, ML na Europa, ML Itália, ML Portugal, ML União Europa, sempre representados por mulheres brasileiras lá residentes e que têm tomado frente em encontros literários naqueles países. Há uma ideologia aí inerente, mas há também, e principalmente, uma prática constante: queremos alcançar visibilidade e, fundamentalmente, igualdade entre todos nós, mulheres e homens, no meio literário e artístico de um modo geral.
 
 
Afinal de contas, homens leem a produção literária de mulheres escritoras? Existe machismo estrutural no universo literário brasileiro?
 
A presença da mulher na literatura é antiga, embora tenham sido sempre os homens a alcançar maior destaque por questões históricas, sociais e culturais. Sabemos que a mulher em nossa sociedade, por razões diversas as quais não cabe aqui enumerar, tende a ser colocada à sombra do homem em todos os aspectos da vida, inclusive no aspecto profissional, na cultura, na arte e na literatura. Mulheres sempre escreveram. Mas nem sempre foram lidas ou valorizadas por sua escrita. Sabe-se, por exemplo, que entre o início do século 19 e metade do século 20, procurando fugir de um estereótipo sobre a escrita de mulheres, ou mesmo querendo desafiar o preconceito existente que afastava as autoras dos eventos e atividades literárias e artísticas, muitas delas se forçavam a assinar com nomes masculinos ou usando pseudônimos neutros, que não pudessem ser identificados como femininos. Exemplo clássico é o caso da escritora Amandine Dupin (1804-1876), que escreveu mais de 80 livros e, em quase todos, assinava com o nome de George Sand, e que foi precursora do feminismo na França, e era amiga de Rousseau, Victor Hugo, Honoré de Balzac. Outro caso famoso foi o da poeta e romancista inglesa Marguerite Radclyffe-Hall (1880-1943), mais conhecida com o neutro Radclyffe-Hall, autora do fantástico romance ‘O Poço da Solidão’. Atualmente ainda temos conhecimento de poucas mulheres escritoras, diante das inúmeras existentes, em comparação com a grande quantidade de homens. Sabemos, por exemplo, quem foram Florbela Espanca, Jane Austen, Katherine Mansfield, Virginia Woolf, Agatha Christie, Rachel de Queiroz, Cora Coralina, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles, Adélia Prado, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Alice Ruiz. Mas há inúmeras, muitas outras, por isso precisamos saber mais sobre o universo literário das mulheres.
 
Assim, não estou muito certa de que os homens leiam livros escritos por mulheres, acredito que deve haver os que leem, de fato, enquanto outros não. Mas penso que a maioria deles deve ter maior interesse nas escritoras já consagradas no meio literário brasileiro e/ou internacional. Creio que na proporção, são muito menos homens lendo livros de mulheres do que mulheres lendo livros de homens. De todo modo, acho que os homens continuam tendo muito mais visibilidade e difusão do que as mulheres, tanto na literatura como na arte de um modo geral. Há muito o que ser ajustado ainda, portanto. Justamente por isso foi criado o movimento Mulherio das Letras, para procurar ajustar essa discrepância nacional, e creio que, numa certa medida, também mundial. Portanto, é preciso permitir à mulher que sua voz seja ouvida, em todos os âmbitos, principalmente nesses tempos tão obscuros, onde o fascismo tem ressurgido com tanta força e dado poder ao machismo estrutural, um machismo que ataca, maltrata, tortura e mata – prova disso é o aumento absurdo do número de feminicídios no país. A mulher precisa sair da margem, precisa ocupar seu espaço de direito, inclusive na literatura, pois o machismo estrutural também tem sido visto no âmbito literário nacional, sem nenhuma sombra de dúvida. É urgente que a mulher assuma o papel que lhe cabe no sentido de denunciar o machismo, o preconceito de gênero e, nesse sentido, a escrita é ferramenta indispensável para a informação e a conscientização. Para que haja mudança significativamente positiva nessa questão das desigualdades, nada melhor e mais eficaz do que a educação. Como já dizia o maior educador Paulo Freire, “não sou apenas objeto da história, mas seu sujeito igualmente”.
 
 
Em relação ao Mercado editorial, como vê as editoras independentes e de pequeno porte?
 
As editoras independentes e de pequeno porte são fundamentais para dar voz e espaço às mulheres escritoras, uma vez que as grandes editoras infelizmente ainda continuam privilegiando os homens. As mulheres têm o direito e devem ser reconhecidas em sua capacidade literária, que é tão importante quanto à dos homens. Eu sempre me pergunto: por que não uma igualdade de direitos de todos os gêneros também na literatura?
 
  
No chamado pós-pandemia, ou novo normal, como acha que serão os eventos literários e saraus? Por falar nisso, o Mulherio planeja encontros presenciais para o pós-vacina?
 
Acho difícil tentar imaginar um pós-pandemia ou um novo normal, diante das perspectivas atuais. Creio que por muito tempo ainda, quem sabe dois ou três anos, não há como programar nada de forma presencial. Por isso, imagino que os eventos devem prosseguir de forma virtual. Ano passado, por exemplo, o Quarto Encontro Nacional Mulherio da Letras aconteceria em Porto Alegre/RS. No entanto, diante da continuidade da pandemia, foi cancelado e então realizado o I Encontro Nacional Virtual do Mulherio das Letras, que ocorreu em outubro de 2020. 
 
Não acredito que haja intenção de encontros presenciais para o pós-vacina, somente para o pós-pandemia, uma vez que já é público e notório que a vacinação contra Covid-19 não garante imunização total, apenas diminui internações e mortes. Ou seja, nenhum imunizante disponível hoje no mundo tem eficácia de 100% contra o vírus Sars-CoV-2, e isso evidentemente faz com que muitas pessoas possam ser contaminadas, ainda que tenham recebido as duas doses da vacina, de maneira que pensar em encontros presenciais pós-vacina seria de extremo descaso para com a vida. 
 
 
Você é bem presente literariamente nas redes sociais, principalmente Facebook. Como vê essas redes em relação à literatura e divulgação?
 
 As redes sociais foram muito impactantes para mim, especialmente na literatura. Foi por meio do Facebook, por exemplo, que tive possibilidade de conhecer ‘mais de pertinho’ diversas escritoras, tanto iniciantes, quanto renomadas e premiadas, que me encorajam e incentivam a prosseguir com meu exercício literário. As redes sociais são como janelas que, abertas, permitem essa visibilidade instantânea também do mundo da escrita. Foi através do Facebook que o movimento coletivo Mulherio das Letras pôde se concretizar, atualmente reunindo mais de sete mil mulheres escritoras de todo o Brasil e mesmo brasileiras residentes em outros países que, por iniciativa da ‘mentora’ Maria Valéria Rezende, uniram-se virtualmente no propósito de divulgar a literatura feminina e mostrar ao mundo literário que o talento feminino também é merecedor de publicação e de leitura. As redes sociais, portanto, permitem o conhecimento imediato da produção literária, tanto nacional como no exterior.